Amílcar cresceu com a garra das gentes do Oriental, mas espalhou empenho pela I Divisão com as cores do Estoril, Belenenses e Portimonense. A tal ponto que chegou a jogar na seleção.
2016-02-15

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1973

Quando um miúdo cresce para se tornar defesa central e aprende o ofício num sítio como a Azinhaga dos Alfinetes não seria de esperar que as suas maiores virtudes fossem outras que não a garra e o arreganho. Assim era Amílcar, um rapaz dos Olivais que começou a mostrar dotes de futebolista no Oriental, ainda hoje o clube do seu coração, apesar de viver bem longe dali há muitos anos, no Algarve onde acabou a carreira. Pelo meio ficaram passagens pelo Estoril e pelo Belenenses, clube pelo qual se tornou internacional A aos 27 anos.

Amílcar da Fonseca cresceu a jogar à bola na zona oriental de Lisboa, muito antes de por ali se pensar sequer na Expo. Participou na dramática subida de divisão do Oriental, em 1973, com apenas 19 anos, mas nessa altura jogava como avançado na equipa que ascendeu ao convívio dos grandes através de uma Liguilha em que os quatro participantes acabaram com o mesmo número de pontos. Uma onda de lesões antes de um jogo particular, no início da época de regresso à I Divisão, levou à sua adaptação a defesa-esquerdo. E a coisa correu tão bem que Amílcar não só passou a ver o empenho que punha sempre em campo espelhado em posições mais de acordo com as suas caraterísticas – depressa passou de lateral esquerdo a defesa central – como chegou nessa nova posição à seleção de esperanças, tornando-se mesmo o primeiro internacional da história do Oriental, num jogo com a Checoslováquia. Amílcar, a quem Pedro Gomes dera a primeira partida na I Divisão no Carlos Salema, a 9 de Setembro de 1973, num empate a uma bola contra o Montijo, foi pela primeira vez titular na Luz, contra o Benfica, no final desse mês, acabando por ser escolha regular do treinador a caminho do 12º lugar com que os grenás de Marvila garantiram a manutenção. Mais alguma vez com drama à mistura, pois a uma jornada do fim a equipa era 14ª e encarava a necessidade de voltar a jogar a Liguilha, mas a vitória por 3-2 frente à CUF, no último dia, assegurou a permanência em vez do Barreirense, que ao mesmo tempo perdia em casa com o Sporting.

Membro da famosa “linha defensiva A”, que fazia as delícias dos relatores de rádio e dos miúdos colecionadores de cromos – Azevedo, Armando, Amílcar, Américo e Almeida – o jovem central tornou-se ainda mais importante para a tripla de treinadores que passou pelo Carlos Salema, só falhando quatro jogos durante toda a época, três deles por castigo, depois de ter sido expulso num empate em casa contra o Leixões. Desta vez, porém, mesmo tendo conseguido empatar a zero com Sporting e Benfica nos jogos em casa, o Oriental acabou por cair da mesma forma que se salvara um ano antes ou que subira no anterior: perdeu na última ronda com o já condenado Olhanense e acabou por descer, na Liguilha, por apenas um ponto. Amílcar, porém, não voltou à II Divisão, pois assinou pelo Estoril de António Medeiros, campeão da Zona Sul do segundo escalão. E de amarelo fez mais uma excelente época, afirmando-se ao lado do capitão João Carlos como defesa central da equipa que acabou o campeonato num excelente oitavo lugar, empatando de caminho com o FC Porto nas Antas (2-2) e vencendo o Sporting na Amoreira (1-0).

Durante quatro épocas, e mesmo quando Fernando Santos sucedeu a João Carlos como titular no centro da defesa estorilista, o defesa de Marvila foi fulcral nas batalhas que o Estoril travou para ficar na I Divisão. Durante anos, o FC Porto não ganhou no António Coimbra da Mota, perdendo mesmo lá várias vezes no seu período dourado (2-1 em 1976/77, 2-0 em 1977/78, 3-0 em 1978/79, esta para a Taça de Portugal). E em 1979 Amílcar transitou para o Belenenses, onde Juca tentava restabelecer o poderio de outros tempos. No Restelo, formou com Luís Horta a dupla de centrais que permitiu aos azuis chegarem em quinto lugar, fazendo pela primeira vez na carreira todos os jogos do campeonato. Na segunda época, juntou à regularidade – apenas duas ausências em toda a Liga – um golo, o primeiro da sua carreira na I Divisão, marcado a 20 de Dezembro de 1980, numa vitória por 2-0 contra o Portimonense. Por essa altura chegou mesmo à seleção nacional, num jogo de final de época contra a Espanha: Portugal ganhou por 2-0 nas Antas e Amílcar entrou em campo a dez minutos do fim, para render Eurico, ainda vendo em pleno relvado o grande golo com que o seu colega de clube Nogueira sentenciou o resultado final.

Mesmo mascarado com a chegada à meia-final da Taça de Portugal, o 11º lugar final do Belenenses já mostrava uma equipa em decadência que, perdendo vários jogadores, acabaria por descer na época seguinte. Amílcar foi um dos que não ficou para ver: em 1981/82, ao mesmo tempo que o Belenenses se afundava, ele estava em Portimão, envergando a braçadeira de capitão na equipa que Artur Jorge conduziu a um surpreendente sexto lugar. Voltou a ser totalista no campeonato e até fez mais um golo, desta vez invertendo os papéis da primeira vez: se antes tinha marcado pelo Belenenses ao Portimonense, agora marcou pelos algarvios aos azuis do Restelo. Amílcar ainda passou mais um ano na I Divisão, quando António Medeiros se lembrou de o recuperar para o Estoril, em 1983. Voltou a ser totalista e capitão de equipa, mas desta vez os estorilistas não escaparam à descida, despedindo-se com um resultado pesado: um 8-0 nas Antas, frente ao FC Porto, a 12 de Maio de 1984. Foi o último jogo de Amílcar na Liga portuguesa. Até final da carreira, ainda passou dois anos no Estrela da Amadora (sempre na luta pela subida) e outros tantos no Silves, no Algarve que o acolheu na vida pós-futebol. Foi no Algarve, também, que se fez treinador, dirigindo equipas como o Quarteirense, o Portimonense (que subiu da II Divisão B à II Liga em 2001) ou o Louletano, antes de investir no negócio da restauração.