Mais de 30 golos na I Divisão são obra interessante quando se fala de um defesa-lateral. Heitor era temível nos livres, que batia em trivela, antes de as trivelas serem moda.
2016-02-14

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1988

Ficou famoso pelo pontapé de banana, feito quase sempre com três dedos na parte de fora do pé direito, quando as trivelas ainda não eram moda. Antes de Roberto Carlos, já Heitor batia livres com força e efeito imprevisível, tornando-se um terror dos guarda-redes do campeonato português entre o final da década de 80 e o início dos anos 90. Para trás já tinha deixado o sonho de suceder a Jorginho na lateral do Flamengo e da seleção brasileira, mas não deixou de ser um jogador importante na história de dois clubes madeirenses, o Nacional e o Marítimo, sempre pela mão de Paulo Autuori.

Natural de Laranjal Paulista, no interior de São Paulo, Heitor foi uma sensação nas camadas jovens da Ponte Preta, em Campinas. Chegou à seleção de juniores que, com Bebeto, Dunga ou Geovani, ganhou o Mundial de 1983, no México, batendo na final a Argentina, e chamou a atenção do Flamengo. Na Gávea, chegou a ser apontado como sucessor de Jorginho na lateral direita, mas após um ano acabou cedido ao Náutico. E foi ali que Marinho Peres e Paulo Autuori foram buscá-lo quando rumaram a Portugal, em 1986, e com eles trouxeram vários brasileiros para o V. Guimarães. Ao contrário de Nené ou Ademir, porém, Heitor não conseguiu impor-se no Vitória, onde Costeado era dono da lateral direita e Carvalho cumpria à esquerda. Foi para o lugar deste que entrou, ao intervalo, na estreia no campeonato, uma derrota por 1-0 com o Benfica, na Luz, a 5 de Outubro de 1986. Só foi titular sete vezes nessa época, que o V. Guimarães acabou em terceiro lugar, duas delas nos quartos-de-final da Taça UEFA, em Março, contra o Borussia M’Gladbach, mas os dois autogolos que fez, um em cada uma das partidas com os alemães (3-0 na Alemanha e 2-2 no Minho), não terão ajudado muito a sua causa. E no final da época Heitor acabou por ser dispensado.

Autuori, que não seguiu com Marinho Peres para o Belenenses, optando por emancipar-se e assegurar o comando técnico do Nacional, na II Divisão, continuou a acreditar em Heitor e levou-o com ele para o Funchal. Um ano no segundo escalão, com subida imediata, serviu-lhe para voltar mais forte. E em 1988, Heitor era já uma figura do plantel com que o Nacional encarou a estreia entre os grandes. Foi titular desde o início da época e fechou a Liga com quatro golos, o primeiro dos quais, de penalti, precisamente ao V. Guimarães, a valer um empate a uma bola nos Barreiros, a 16 de Outubro. A saída de Autuori para Guimarães, no fim da temporada, levou a dificuldades na estabilização do Nacional entre os grandes. Os alvi-negros começaram por baixar do 10º para o 14º lugar (em 1989/90) e depois para a última posição (em 1990/91). Heitor parecia encaminhado para nova experiência na II Divisão quando foi outra vez salvo por Autuori, que entretanto regressara à Madeira, mas para comandar o Marítimo.

Nos verde-rubros, Heitor fez todos os jogos do campeonato, marcando nove golos, entre eles um de canto direto, ao Estoril. Já tinha maturado a técnica de marcação de bolas paradas a ponto de ser uma das armas fundamentais na sétima posição que o Marítimo conquistou. E que na época seguinte melhorou para um quinto lugar, com mais seis golos de Heitor. O lateral paulista foi, inclusive, o autor do primeiro golo do Marítimo nas competições europeias, no empate a duas bolas frente aos belgas do Antwerp, nos Barreiros, a 28 de Setembro de 1993. Faria ainda mais uma época de verde-rubro, despedindo-se do campeonato português com uma expulsão, num empate (2-2) contra o U. Madeira, a 21 de Maio de 1995. Suspenso na última jornada desse campeonato, apareceu pela última vez na final da Taça de Portugal, perdida por 2-0 contra o Sporting, a 10 de Junho desse mesmo ano.

Aos 31 anos, Heitor deixou o futebol de alta competição. Regressou ao Brasil, investiu em fazendas de gado, numa escola de futebol e entrou na política através do Partido dos Trabalhadores, pelo qual cumpre o segundo mandado de prefeito – presidente da câmara – de Laranjal Paulista, a sua cidade natal.