Talvez a pesonalidade mais completa da história do futebol português. Artur Jorge foi futebolista de eleição, dirigente importante e treinador marcante.
2016-02-13

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1965

Não deve haver personalidade mais completa do que Artur Jorge na história do futebol português. Foi futebolista de craveira, quatro vezes campeão nacional, duas vezes melhor marcador da Liga e internacional A. Foi dirigente de importância, quando assumiu as rédeas do sindicato de jogadores, na luta contra a Lei da Opção. E foi ainda treinador impactante, com três campeonatos nacionais e uma Taça dos Campeões Europeus no palmarés. Esta é a história de um jogador diferente, de um avançado que pensava antes de executar, de um treinador que se destacou pelo método e pela inovação.

Natural do Porto, Artur Jorge jogava nas categorias jovens do Académico quando nele reparou José Maria Pedroto, à época presidente do Conselho Fiscal do mesmo clube e treinador dos juniores do FC Porto. O jovem Artur passou a vestir de azul e branco e até foi campeão nacional de juniores, já Pedroto partira para se ocupar da equipa principal da Académica. Os dois voltariam a encontrar-se, mas só quando Artur decidiu pendurar as chuteiras e abraçar a profissão de treinador. Quem chamou o miúdo à equipa principal foi, dessa forma, o brasileiro Otto Glória, que resolveu levá-lo numa digressão estival ao Brasil, em 1964. Artur Jorge até se destacou e ganhou um lugar no onze, mas uma lesão tirou-lhe a possibilidade de começar o campeonato de pois de até ter feito o único golo portista no primeiro jogo da época: um empate a uma bola frente ao Peniche, na Taça de Portugal, a 13 de Setembro de 1964. Aliás, os primeiros jogos de Artur Jorge pelo FC Porto acabaram todos com este resultado: esteve no 1-1 com o Benfica, também para a Taça, a 4 de Outubro, e depois fez a estreia no campeonato a 25 de Outubro, empatando a uma bola com o Sporting, em Alvalade – e até assistiu Nóbrega para o golo do empate, no último minuto. O primeiro golo no campeonato fê-lo a 3 de Janeiro de 1965, em Setúbal, a Mourinho, valendo a vitória portista por 1-0.

A época, contudo, não correu extraordinariamente e, no Verão, quando Artur Jorge pediu para sair para a Académica, de forma a concluir a licenciatura em Germânicas, e do outro lado veio a possibilidade de o trocar por Manuel António, que marcara 19 golos no campeonato, ninguém do FC Porto torceu o nariz. A verdade é que, em Coimbra, Artur Jorge começou a revelar-se um avançado temível, um protótipo do ponta-de-lança perfeito, porque não só sabia jogar de costas para a baliza e segurar a bola, como se revelava rápido das desmarcações e exemplar nas finalizações, tanto de cabeça como fazendo uso de um remate seco e forte. Artur Jorge chegou mesmo a desenvolver um movimento próprio, um pontapé acrobático como o corpo paralelo à relva a que os jornalistas da época chamaram “pontapé-moinho”. Na Académica, Artur Jorge marcou ao segundo jogo – uma vitória em Braga por 3-2 – completando a primeira temporada com 13 golos, entre eles um ao FC Porto, nas Antas. A equipa de Mário Wilson, porém, quedou-se pelo sexto lugar na tabela. Mas algo de revolucionário estava ali a preparar-se, como se percebeu logo em 1966/67.

Muito à custa dos 25 golos de Artur Jorge, que lhe valeram o segundo posto na lista dos goleadores, apenas atrás de Eusébio – que fez 32, mas com 13 penaltis, o que levou os adeptos de Coimbra a entregarem a Artur Jorge um troféu simbólico de “melhor marcador de bola corrida” – a Académica acabou o campeonato em segundo lugar, fazendo sofrer o super-Benfica até à penúltima jornada. Os jogadores da Académica recusavam o papel de candidatos ao título, afirmando sempre que o que verdadeiramente lhes interessava eram os estudos, mas nada lhes roubou o estatuto de equipa-sensação. Artur Jorge, que conseguiu hat-tricks contra o V. Setúbal e a Sanjoanense e um póquer ao Belenenses, fez ainda mais 12 golos na Taça de Portugal, da qual os estudantes eliminaram o Benfica antes de baquearem na final mais longa da história, decidida ao segundo prolongamento a favor do V. Setúbal. Uma excelente época que valeu a Artur Jorge a chegada à seleção nacional logo no segundo jogo após o Mundial de Inglaterra: José Gomes da Silva deu-lhe a titularidade  num empate a uma bola frente à Itália, a 27 de Março de 1967, no lugar de José Torres, fazendo-o alinhar naquele ataque maravilha que contava ainda com José Augusto, Eusébio e Simões. A carreira de Artur Jorge na seleção, contudo, nunca foi muito feliz: encerrou-a com apenas 16 internacionalizações e um golo, marcado à então frágil seleção de Chipre.

Na Académica, ao contrário, as coisas seguiam de vento em popa. Mais 28 golos na Liga de 1967/68 – outra vez segundo melhor goleador da prova, atrás de Eusébio, que nessa época chegou aos 42 – ajudaram a equipa comandada por Mário Wilson a finalizar a prova em quarto lugar. A estes, Artur somou mais onze na Taça de Portugal, seis deles num só jogo, um histórico 6-2 ao Torres Novas. Começava a falar-se de transferências. O Benfica queria-o e a Académica não foi meiga a pedir: queria 1900 contos. Do Chile, Fernando Riera acenava-lhe com um convite do Universidad Católica, clube que passara a orientar depois de deixar o Benfica. E em Maio o negócio pareceu feito, ainda que para o Sporting: Artur Jorge chegou a dizer, à saída de Alvalade, que tinha tudo certo para vestir de verde-e-branco. Só que… mudou de ideias e renovou com a Académica. O campeonato já não foi tão brilhante, pois a partir de Janeiro Artur Jorge ficou seriamente limitado pelo serviço militar, mas a Taça de Portugal teve história.

Viviam-se os tempos após o Maio de 1968 e, em Coimbra, os estudantes eram um dos maiores focos de contestação ao regime. Entre eles, ninguém tinha tanta visibilidade como os jogadores da Académica que, juntamente com os adeptos, aproveitaram a presença na final da Taça de Portugal, contra o Benfica, para organizar aquilo a que Carlos Pinhão uma vez chamou o “maior comício anti-regime” da história de Portugal. Artur Jorge, um dos cabecilhas da organização, não pôde jogar, por não ter sido autorizado pelo seu superior no quartel de Mafra – não alinhou, aliás, num único minuto nessa campanha da Taça de Portugal – mas viu a sugestão de, em caso de vitória, a taça ser entregue pela equipa ao líder estudantil Alberto Martins (mais tarde ministro do PS) ser acolhida pelos companheiros. Sucede que, apesar de se ter colocado em vantagem aos 8º minutos, pelo regressado Manuel António, a Académica viu o Benfica virar o resultado, com golos de Simões (aos 85’) e Eusébio (aos 119’). A Taça de Portugal foi para o Benfica e Artur Jorge também, uma vez que um mês antes os dois clubes já tinham chegado a acordo para a sua transferência.

Na Luz, o novo avançado teve uma primeira época tímida, não só por causa do serviço militar mas também devido à enorme concorrência que ali tinha por um lugar. Havia Eusébio, Nené, Jordão, Vítor Batista… Muitas estrelas. Artur Jorge só foi titular pela primeira vez à oitava jornada e respondeu logo com dois golos nuns 5-0 ao Sp. Braga. Só perto do final da época se começou a ver o verdadeiro Artur Jorge. Marcou nas últimas quatro rondas, conseguindo, de caminho, o golo da vitória frente ao FC Porto (2-1), nas Antas, e carimbou com dez golos a vitória na Taça de Portugal. Registo para dois hat-tricks ao Boavista e um bis ao Leixões, mas sobretudo para os dois que marcou na final, ganha por 3-1 ao Sporting, que acabara de se sagrar campeão nacional. Era um sinal para o que aí vinha. E o que aí vinha eram três épocas fulgurantes, com Jimmy Hagan à frente da equipa. Artur Jorge desempenhou papel fundamental nos dois primeiros títulos do tricampeonato do treinador inglês, sagrando-se melhor marcador por duas vezes. Juntou aos três títulos de campeão mais uma Taça de Portugal – outra vez ganha ao Sporting, ainda que sem Artur Jorge na final. Por essa altura, já tinha outras coisas com que se entreter, pois envolvera-se no Sindicato dos Jogadores, tentando por cobro à Lei da Opção, uma lei que tirava aos futebolistas a liberdade de escolherem clube quando terminassem o contrato e dava aos empregadores a opção de os manterem, desde que lhe mantivessem o salário.

Mais do que a luta de classes, porém, o que tirava golos a Artur Jorge eram as lesões. Em 1972/73 já só fez 15 jogos no campeonato. Uma lesão grave num joelho levou-o por cinco vezes à mesa de operações, fazendo-o falhar a cada vez que tentava o regresso. Andou nisso até que, em Outubro de 1974, recorreu a um especialista alemão. No Benfica, contudo, já não contavam com ele e Artur Jorge decidiu então aceitar um emprego na Direção Geral dos Desportos, assinando contrato de futebolista em “part-time” com o Belenenses. No Restrelo, ainda provou que estava em boas condições. Fez duas épocas muito razoáveis – sete golos na primeira, um deles nos 4-2 ao Benfica, e seis na segunda – e até voltou à seleção, da qual andava arredado há quatro anos. Em 1977 arriscou mesmo uma experiência de dois meses nos Estados Unidos, a jogar pelo Rochester Lancers. De regresso a Portugal, no entanto, partiu uma perna num treino e decidiu pendurar as chuteiras. O último golo no campeonato marcou-o a 17 de Setembro de 1977, no Restelo, num 2-0 à Académica, que o fervor revolucionário transformara em Académico. Despediu-se da I Divisão um mês depois, a 16 de Outubro, com uma vitória por 1-0 ante o V. Setúbal.

Artur Jorge decidiu então seguir para Leipzig fazer um elaboradíssimo curso de treinador que durava nove meses. Tirou a melhor nota, mostrando ser como treinador o que já tinha sido como jogador: sempre capaz de avaliar os adversários e definir as melhores estratégias para chegar à vitória. Andou ao lado de Pedroto, que cedo viu nele o sucessor ideal para quando deixasse de treinar o FC Porto, levando os dragões a três títulos nacionais e, sobretudo, a uma Taça dos Campeões Europeus, em 1987. Ainda foi selecionador nacional e treinou outras grandes equipas, como o Paris St. Germain ou o Benfica, até que o fracasso na Luz o levou a deixar os grandes palcos.