Defendeu apenas dois clubes em 19 anos: o V. Setúbal e o Belenenses. O pai do melhor treinador português de sempre sofreu o primeiro golo de Eusébio, mas no mesmo jogo defendeu-lhe um penalti. E ganhou uma Taça de Portugal.
2016-02-12

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1959

Quando se ouve falar em Mourinho, toda a gente pensa no ex-treinador do Chelsea. Mas o primeiro Mourinho a destacar-se no futebol foi outro, foi José Manuel, pai de José Mário. Guarda-redes com lugar na história do V. Setúbal e do Belenenses, chegou à seleção nacional, ainda que só para um jogo, e tornou-se depois treinador de várias equipas-sensação da Liga portuguesa, numa altura em que chegar ao topo do panorama dos técnicos nacionais era muito mais difícil do que agora. Certo é que sem José Manuel nunca haveria José Mário, não só pelas evidentes razões genéticas, mas por causa do ambiente que sempre existiu à volta do rapaz, que praticamente cresceu dentro de um balneário. Mas resumir a importância de Mourinho-pai ao facto de ter gerado um dos melhores treinadores da história do futebol seria tremendamente injusto. Porque José Manuel Mourinho Félix fez o suficiente para valer por si.

Natural de Ferragudo, no Algarve, Mourinho começou a jogar futebol na rua, com os outros rapazes, alternando entre o ataque e a baliza. Quiseram-no para ponta-esquerda do Olhanense, mas ele recusou. Quando lhe sugeriram que fosse para Setúbal, tentar a baliza do Vitória, já disse que sim. Jogava nos juniores até que o treinador dos seniores, o italiano Rino Martini, um ex-guarda-redes que chegou a jogar no Milan, o chamou para um desafio de campeonato e até lhe ofereceu a camisola, negra, para vestir. Foi a 18 de Março de 1956, na Tapadinha, frente ao Atlético e, apesar de ter chegado ao intervalo a vencer por 1-0, o Vitória ainda perdeu por 3-1. Mourinho, que na altura veio referido nos jornais simplesmente como Félix, não jogou mais nessa época, mas já começou a seguinte como segunda opção, apenas atrás de Justino. E à terceira jornada, antes da deslocação ao Restelo para defrontar o Belenenses, o treinador, o uruguaio Umberto Buchelli, deu-lhe a baliza. O Vitória perdeu por 5-1, mas com o resultado em 1-0 o rapaz ainda defendeu um penalti de Matateu, mantendo o jogo em aberto. A verdade é que Buchelli continuou a confiar nele, só o tirando da baliza durante mês e meio, na sequência de uma goleada (7-1) encaixada ante o FC Porto. E com ele nas redes, nas duas vezes que o Sporting foi ao Campo dos Arcos nessa época (campeonato e Taça de Portugal), os jogos não saíram do 0-0.

A equipa do Vitória ainda estava longe da que anos mais tarde viria a ganhar duas Taças de Portugal, a bater-se com os grandes e a ser assunto de conversa nas competições europeias e as debilidades que tinha deviam ser desfeitas pelo guarda-redes. Mourinho nem sempre era capaz de o fazer: no início do campeonato de 1957/58, as goleadas sofridas perante o Benfica (6-1), a Académica (6-1) e a CUF (7-1) levaram a que Buchelli o substituísse por Libânio, que tinha chegado do Barreiro para ser suplente. Mourinho teve, assim, de assumir um papel secundário: não fez um jogo oficial entre 10 de Novembro de 1957 e 3 de Maio de 1959 quando Buchelli o chamou para os jogos da Taça de Portugal. Só em Outubro, contudo, viria a garantir alguma continuidade entre os postes, mas como essa foi a temporada em que o Vitória acabou por ser despromovido, foi condenado a duas épocas na Zona Sul da II Divisão. Mas mesmo desse período tem histórias para contar. A 1 de Junho de 1961, no Campo dos Arcos, sofreu o primeiro golo oficial marcado por Eusébio no Benfica: os encarnados estavam em Berna, onde na véspera tinham ganho a Taça dos Campeões Europeus, e apresentaram uma equipa plena de reservistas na partida da Taça de Portugal. Perderam por 4-1 com o V. Setúbal e acabaram por ser afastados pela equipa da II Divisão por um golo (tinham ganho a primeira mão por 3-1), que Eusébio podia ter marcado, não tivesse Mourinho defendido um penalti por ele cobrado. Um ano e um mês depois, a vingança do Benfica: tendo acabado de festejar o regresso à I Divisão, o Vitória chegou à final da Taça de Portugal, onde perdeu por 3-0 com os encarnados. Eusébio fez dois golos a Mourinho nessa tarde, no Jamor.

Quando regressou à I Divisão, Mourinho já vinha como capitão de equipa. E, apesar de ter perdido esse estatuto para Jaime Graça quando a Setúbal regressou Fernando Vaz – o treinador da subida e da final da Taça de Portugal – durante quatro anos só não jogou quando não estava em condições para tal. A 20 de Setembro de 1962, estreou-se nas competições europeias, com um empate a uma bola frente ao St. Etiènne. Certo é que a equipa do Vitória estava a tornar-se mais forte a cada ano: nono lugar em 1963, sétimo em 1964, sexto em 1965 e quinto em 1966. Pelo caminho, veio a primeira Taça de Portugal, ganha com Mourinho à baliza, tanto nos três jogos da meia final contra o Sporting (2-2, 1-1 e 2-0) como depois na final, ganha no Jamor ao Benfica, por 3-1. O algarvio voltaria ao Estádio Nacional, um ano depois, para nova final da Taça, dessa vez perdida para o Sp. Braga, mas a chegada de Dinis Vital a Setúbal, no Verão de 1966, significou que passou o ano quase todo a ver os colegas jogar, não alinhando num único minuto da campanha que levou à conquista de mais uma Taça de Portugal, a de 1967, ganha após prolongamento à Académica. Sem espaço no Vitória – nas últimas duas épocas no Bonfim fez apenas dois jogos, um deles incompleto – Mourinho transferiu-se com o Belenenses, que ainda procurava um substituto para o “magriço” José Pereira. E depois de duas jornadas a ver jogar Gomes, tornou-se titular absoluto da equipa do Restelo. Na conturbada época de 1970/71, em que Joaquim Meirim disse com todas as letras que ia fazer do Belenenses campeão mas acabou por sair à 18ª jornada com apenas quatro vitórias e um décimo lugar apenas dois pontos acima da linha de água, Mourinho foi mesmo chamado a assegurar o comando da equipa nos oito últimos jogos, em parceria com o jornalista Homero Serpa. E, tendo Mourinho continuado a ocupar o lugar entre os postes, os dois levaram a equipa até à sétima posição que repetia o resultado feito na época anterior por Mário Wilson.

Aos 33 anos, Mourinho ainda não pensava a 100 por cento na carreira de treinador. Fez mais duas épocas como totalista, sendo peça fulcral na equipa de Scopelli levou ao segundo lugar do campeonato de 1972/73. Antes disso, em Junho de 1972, foi um dos eleitos de José Augusto para a seleção nacional que ia jogar a MiniCopa, no Brasil. O titular era José Henrique, do Benfica, mas Mourinho ainda jogou seis minutos na vitória por 2-1 frente à Rep. Irlanda, obtendo a 25 de Junho de 1972, com 34 anos, a sua única internacionalização. Despediu-se das balizas a 4 de Novembro de 1973, num jogo pelo Belenenses contra o V. Setúbal, no Bonfim. Os azuis perderam por 3-2 (um golo de Otávio e dois de Duda, que foi o último a batê-lo) e, aí sim, Mourinho Félix passou a ser Félix Mourinho, num estranho fenómeno de inversão dos apelidos que para muitos transformou o nome de família em nome próprio. No banco teve um início retumbante. Levou o Estrela de Portalegre à Liguilha de 1976/77, depois de ser segundo na Zona Sul da II Divisão e subiu da terceira para a segunda divisão com o Caldas em 1977/78, antes de promover três equipas seguidas à I Divisão: U. Leiria em 1979, Amora em 1980 e Rio Ave em 1981. Em Vila do Conde, numa equipa onde estava o seu filho José Mário – que só fez 12 minutos frente ao Salgueiros, na Taça de Portugal de 1981/82 – chegou a ganhar ao FC Porto nas Antas e a atingir a final da Taça de Portugal de 1984. Perdeu com o FC Porto (4-1), acabando por ver a carreira esfumar-se na falta de oportunidades de subir um patamar, para equipas que pudessem dar-lhe títulos a ganhar.

Mourinho Félix pôde, ainda assim, vibrar com os sucessos do filho como treinador. O último – a vitória na Premier League de 2015 – já não foi motivo de alegria familiar. É que o patriarca da família acabara de sofrer um derrame cerebral e lutava pela vida numa cama de hospital.