Formado no FC Porto, Jesus destacou-se como guarda-redes de equipas de média dimensão. Elástico na baliza do Varzim, tirou o tricampeonato aos dragões em 1980, mas foi na segunda juventude, em Guimarães, que passou os 300 jogos na I Divisão.
2016-02-11

1 de 15
1976

Tinha a agilidade felina que o recomendava como guarda-redes de eleição, mas faltava-lhe a estatura para ser uma figura imponente entre os postes. Ainda assim, do alto do seu metro e 73, António Jesus conseguiu construir uma carreira impressionante nas balizas da I Divisão de Portugal, na qual somou mais de 350 jogos. E fez da capacidade para transformar o corpo num elástico a arma que haveria de o levar à seleção nacional, ainda que no período de vacas magras que se sucedeu à rebelião de Saltillo. Jogou até aos 39 anos, transitando diretamente da baliza para o banco dos responsáveis que haveria de ser a sua posição até ao dia da morte, vítima de um ataque cardíaco poucas horas depois de orientar o seu Sp. Espinho.

Muitos associam este guarda-redes de bigode farfalhudo ao V. Guimarães e, sendo verdade que fez mais de metade dos seus 364 jogos na I Divisão na baliza vimaranense, Jesus só lá chegou com 26 anos. Natural de Espinho, despontou nos juvenis dos tigres antes de chamar a atenção e de ser chamado a integrar a formação de juniores do FC Porto. Nunca teve uma oportunidade na equipa principal dos dragões, porque a qualidade que mostrava levou-o até Chaves, onde aos 18 anos já defendia na II Divisão. Uma época em Chaves e duas no Lusitânia de Lourosa, a última das quais terminada num excelente terceiro lugar da Zona Norte, permitiram-lhe chegar ao escalão principal em 1976, aos 21 anos. Entrou no Beira Mar de Manuel de Oliveira e começou a época como titular: estreou-se a 5 de Setembro de 1976, num empate caseiro (1-1) com o Varzim. A baliza do Beira Mar, nessa época, ia mudando ao ritmo dos jogos menos felizes que a equipa fazia: Jesus cedeu a vaga a Domingos após os 5-2 encaixados do FC Porto, voltou quando este esteve nos 4-0 contra o Sporting, voltou a sair após os 3-0 contra o Belenenses e a entrar na sequência dos 4-0 ante o Benfica. Esteve, ainda assim, no empate frente ao Sporting no Mário Duarte em que Eusébio fez o último golo no campeonato. Da mesma forma que era ele quem estava na baliza na derrota em Portimão (2-1) que significou a certeza da despromoção logo à penúltima jornada.

Um ano na II Divisão valeu a subida aos aveirenses, mas Jesus regressou para defender as redes do Varzim. Na Póvoa, António Teixeira estava a construir a equipa sensação da época e Jesus foi importante. Mesmo tendo começado como suplente de Freitas, ganhou a titularidade depois de uma derrota (0-3) contra o Benfica, na Luz, em início de Novembro, e segurou-a até ao fim da época. Foram épicas as duas últimas jornadas, com duas vitórias por 1-0 frente ao Boavista (no Bessa) e ao Sporting (na Póvoa) a garantirem o quinto lugar final. Estava lançado como guarda-redes de primeira divisão e, mesmo não tendo o Varzim repetido a proeza na época seguinte, Jesus fez com que falassem dele ao manter a baliza virgem nas visitas dos três grandes à Póvoa: 2-0 ao Benfica, 0-0 com o Sporting e 0-0 com o FC Porto, este na antepenúltima jornada, a permitir que o Sporting ultrapassasse os dragões na classificação. O Varzim, porém, ia de mais a menos e o 14º lugar em 1980/81 levou à descida de divisão. Desta vez, Jesus não acompanhou a equipa: aos 26 anos, assinou pelo V. Guimarães de Pedroto, que mostrava não ter ressentimentos em relação ao guarda-redes que impedira o tricampeonato portista e o quis para se bater com Damas pela titularidade. E a verdade é que Jesus relegou o internacional para o banco durante quase toda a primeira volta, só lhe cedendo a baliza em Janeiro. Mais uma vez, nenhum dos grandes fez um golo sequer nas deslocações ao terreno da equipa de Jesus, ainda que nesta época o espinhense só tenha sido responsável pelo 0-0 frente ao Sporting, pois foi Damas quem esteve nas partidas com FC Porto e Benfica.

No final da temporada, Damas seguiu com Artur Jorge para o Portimonense, mas a Guimarães chegou Silvino, que em 20 anos de carreira foi o único que conseguiu forçar Jesus à quase completa inatividade. Manuel José, o treinador que tinha sido colega de Jesus em Aveiro, só lhe deu 45 minutos em toda a temporada, mais precisamente a segunda parte da derrota frente ao Sporting em Alvalade (1-0, que já figurava no placar ao intervalo), na última jornada. Com Hermann Stessl as coisas melhoraram um pouco para Jesus, que já dividiu as jornadas com o guardião de Setúbal, ainda que o Vitória tenha caído dois lugares na tabela e passado de duas quartas posições para uma sexta. Quando Silvino saiu para o Benfica, em 1984, Jesus parecia poder finalmente tomar conta a baliza do Vitória – e assim foi no início de época. Goethals deu-lhe a titularidade, mas a partir da 11ª jornada, em Novembro, passou a confiar mais em Neno, que chegara do Barreirense. E só quando Neno seguiu também para o Benfica é que Jesus teve verdadeiramente a oportunidade de voltar a jogar com regularidade. O que ninguém sabia era que, aos 30 anos, o esperava uma segunda juventude: foi totalista no quarto lugar alcançado sob a batuta de António Morais em 1985/86 e no terceiro com Marinho Peres em 1986/87. Nesta época, fez ainda a estreia nas competições europeias – o empate a uma bola com o Sparta em Praga, início de uma caminhada que levou o Vitória até aos quartos de final da Taça UEFA – e chegou à seleção, chamado por Ruy Seabra na sequência da deserção dos jogadores que estiveram no Mundial do México. Jesus estreou-se de quinas ao peito numa vitória por 1-0 frente à Bélgica, em Braga, a 4 de Fevereiro de 1987, guardando as redes nacionais até ao fim do ano civil, mesmo depois do regresso dos proscritos, em Setembro.

A confusão gerada no Vitória de Guimarães em 1987/88, com três treinadores e um modesto 14º lugar no final da época, levou Jesus a optar por corresponder ao convite de António Morais para jogar no Leixões. Ali, foi sempre titular até que, a duas jornadas do fim, depois de Morais já ter sido substituído por Nicolau Vaqueiro, já com a despromoção matematicamente inevitável, a direção do clube decidiu confiar o comando da equipa a Jesus. Este preferiu ficar no banco e confiou as redes ao suplente, José Carlos. E no fim da época seguiu para Chaves. Mais uma grande época – quinto lugar final, com José Romão como treinador – valeu-lhe um regresso a Guimarães quando muitos já suspeitariam de que estava para se retirar. No Minho, Jesus ainda fez uma temporada a tempo inteiro, com Paulo Autuori, dividindo depois as redes com Madureira (1991/92) até as ceder a Nuno Espírito Santo (1992/93). Tinha 38 anos quando regressou a Chaves, mas para jogar na II Divisão de Honra. A meio da época, porém, teve de substituir Carlos Garcia no comando da equipa. Deu a baliza a Orlando e concentrou-se de tal forma na nova tarefa que ainda conseguiu a subida dos transmontanos à I Divisão. Começava ali uma carreira de treinador que, depois de comandar o Chaves nas primeiras 13 jornadas da nova época, antes de ser substituído por Vítor Urbano, o levou a vários clubes nos escalões secundários mas nunca mais à divisão principal.

Jesus veio a falecer em Setembro de 2010, com apenas 55 anos, horas depois de dirigir o Sp. Espinho numa partida com o Boavista, a contar para a segunda jornada da Zona Centro da II Divisão B. O jogo acabou empatado a uma bola e, à noite, quando foi dar um pequeno passeio, caiu fulminado por um ataque cardíaco. Ainda tentaram reanimá-lo, mas já chegou sem vida ao hospital de Espinho, onde foi confirmado o óbito.