Chamaram-lhe o sexto violino, porque era ele que, a meio-campo, municiava a linha avançada que fez a época áurea do Sporting. Canário era o mago do passe.
2016-02-10

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1944

Carlos Canário foi elemento preponderante da época dourada do Sporting, a dos Cinco Violinos. A sua precisão no passe longo, associada a uma visão de jogo ímpar, levaram mesmo a que lhe chamassem o sexto violino, pois era ele que, da posição de médio-direito, municiava a linha atacante que esteve na base de tantos títulos ganhos pelos leões durante a década de 40. Ao todo, foi sete vezes campeão nacional, ganhou três Taças de Portugal e sete campeonatos de Lisboa. E se colheu apenas dez internacionalizações foi porque à sua frente na hierarquia estava o belenense Amaro.

Nascido em Portalegre, Canário entrou aos 13 anos para as fileiras do Estrela, clube local onde integrava com qualidade a linha avançada. Jogava quase sempre como interior, porque tinha uma técnica apurada, e foi para essa posição que o Sporting o recrutou. Viajou para Lisboa aos 20 anos, para batalhar por um lugar na linha avançada leonina e cumprir no emprego num armazém. A queda para o desporto era tanta que, aliás, começou também a jogar basquetebol na equipa do Grémio dos Armazenistas de Mercearia. Nos futebóis, estreou-se na primeira equipa, lançado por Joseph Szabo como interior esquerdo numa vitória do Sporting frente ao Carcavelinhos (7-1), a 13 de Novembro de 1938. Fez um golo, mas o dono do lugar era Pedro Pireza, que depressa o recuperou, e Canário limitou-se a picar o ponto nesse título de campeão de Lisboa e, depois, no campeonato nacional, que os leões acabaram em segundo lugar. Canário até começou a prova como titular, mais uma vez no lugar de Pireza, mas as derrotas nas primeiras duas jornadas (1-2 com o FC Porto na Constituição e 0-1 com o Benfica em casa) não lhe auspiciavam nada de bom.

Os primeiros dois campeonatos foram de pouca utilização para o avançado alentejano. E ao terceiro – no qual conseguiu o primeiro título nacional – só à justa entrou na lista de jogadores campeões: fez apenas um jogo, na penúltima jornada, ainda por cima uma derrota clara por 5-1 contra o Belenenses. Viria a conseguir a tripla, juntando ao Nacional e ao regional de Lisboa a Taça de Portugal, mas também aí deu o seu último contributo num jogo dos quartos-de-final contra o V. Guimarães: marcou dois golos nos 12-0 que garantiam que a equipa seguiria em frente e depois ficou a ver os colegas ganharem na final ao Belenenses por 4-1. A vida de Canário, porém, estava prestes a mudar. As lesões de Pireza e, mais tarde, de Peyroteo, garantiram-lhe pela primeira vez uma época de grande utilização em 1941/42. Fez o primeiro golo no campeonato a 8 de Fevereiro de 1942, na quarta jornada, nuns 9-1 ao V. Guimarães. Bisou na ronda seguinte, quando a equipa bateu o Barreirense por 4-0. E nesse campeonato ainda haveria de fazer um hat-trick ao Olhanense, marcando 12 em toda a prova. O Sporting acabou a Liga no segundo lugar, mas Canário ganhava finalmente um lugar na equipa. Mal sabia ele que tudo iria mudar outra vez dali a uns meses.

É que, confrontado com nova onda de lesões, Szabo recuou Canário para o meio-campo. Aí, sim, tornou-se verdadeiramente importante para a equipa, pois podia explorar as suas caraterísticas, como a grande capacidade para o passe longo. Viu diminuir o total de golos, mas crescer as presenças no onze leonino, passando a ser visto como “o mago do passe” ou o “sexto violino”. Passou também a acumular títulos. Campeão de Lisboa em 1942/43, campeão nacional em 1943/44, outra vez campeão regional e vencedor da Taça de Portugal em 1944/45 (mais uma vez, porém, não esteve na final, ganha ao Olhanense), Canário não jogou um minuto na campanha da Taça de Portugal que os leões ganharam ao Atlético em 1945/46. A partir daí vieram três campeonatos nacionais consecutivos (1946/47, 1947/48 e 1948/49), aos quais a equipa somou os regionais de Lisboa de 1946/47 e 1947/48 e a Taça de Portugal de 1947/48, a única cuja final Canário ganhou no campo: 3-1 ao Belenenses, a 4 de Julho de 1948. Tanto título acabou por conduzi-lo à seleção nacional. Tarde, é verdade: teve a primeira internacionalização a 23 de Maio de 1948, já com 30 anos, lançado por Virgílio Paula numa vitória por 2-0 frente à República da Irlanda, no Jamor, mas lesinou-se e foi substituído antes da meia-hora de jogo, já com o placard definido. Jogou um total de dez vezes pela seleção, despedindo-se a 19 de Maio de 1951, numa derrota por 5-2 frente à Inglaterra em Goodison Park (Liverpool).

O último jogo pelo Sporting fê-lo a 7 de Outubro de 1951, numa vitória por 8-1 frente ao Estoril, que ainda lhe valeu mais um título de campeão nacional – o sétimo. Um mês antes tinha tido direito a uma festa de homenagem, num Sporting-Belenenses. O dérbi de Lisboa haveria de marcar também o seu falecimento. A 7 de Setembro de 1990, foi a Alvalade ver o Sporting vencer o Belenenses por 2-0 na meia-final da Taça de Honra da AF Lisboa. Voltou a casa, no Lumiar, onde faleceu nessa madrugada, vítima de acidente cardio-vascular.