Fez mais de 300 jogos na I Divisão, metade deles ao serviço do Boavista, onde foi durante anos a fio um motor do meio-campo.
2016-02-09

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1983

Associado ao Boavista por quem se lembra da montanha de músculos que dava rotatividade ao meio-campo das equipas de João Alves e Manuel José, Bobó só chegou ao Bessa com 27 anos. Para trás, já tinha deixado um lançamento auspicioso no FC Porto, uma subida de divisão em Águeda e épocas muito bem sucedidas em Guimarães ou na Amadora. Além do golo que deu uma vitória ao Marítimo frente ao Sporting, no Estádio de Alvalade, e originou dos títulos mais divertidamente brejeiros da história do jornalismo desportivo nacional. O nome, convenhamos, dava uma grande ajuda.

Mamadou Bobó Djaló nasceu em Canchungo, na Guiné-Bissau, no meio de acentuada mística portista. O FC Porto tinha uma filial na cidade e o jovem sonhava ser futebolista, vestir de azul e branco e pisar o relvado das Antas. Quando chegou a Portugal, foi direto à captação dos dragões, mas não ficou aprovado. À primeira, pelo menos, porque um ano depois lá o chamaram para integrar a equipa que foi campeã nacional de juniores. Bobó era, por esses tempos, avançado ou, pelo menos, médio de ataque e, a 3 de Janeiro de 1982, o austríaco Hermann Stessl chamou-o para o dérbi do Porto, contra o Boavista, que afinal tão importante viria a ser no seu futuro. Bobó ficou no banco mas, a 26 minutos do fim, com os portistas a ganhar por 1-0, fê-lo entrar para o lugar de João Pinto. O 2-0 final valeu-lhe nova oportunidade, uma semana depois, mais uma vez nas Antas, agora no jogo da Taça de Portugal contra o Lusitânia de Lourosa. Com 1-0 no marcador, Stessl trocou Teixeira por Bobó e o guineense fez a assistência para o segundo golo, marcado por Penteado.

As oportunidades, contudo, esfumaram-se e, no final da época, Bobó foi emprestado ao Recreio de Águeda. Com sucesso, pois a equipa ganhou a Zona Centro da II Divisão, subiu à primeira, e Bobó ficou no plantel que o regressado José Maria Pedroto montra para acabar com quatro anos sem títulos nacionais do FC Porto. E o guineense viu a sua história diretamente ligada à do velho mestre. A 4 de Dezembro de 1983, ainda no velho pelado do Estádio 25 de Abril, o FC Porto estava empatado ao intervalo, com o Penafiel, quando Pedroto se acercou de Bobó e lhe disse que o ia colocar em campo, mas para jogar como ponta-de-lança. Saiu Quinito, mas o 0-0 não se desfez até que, a meio do segundo tempo, Pedroto trocou Eduardo Luís por Vermelhinho, outro ex-Águeda. E foi após uma jogada do extremo pela esquerda que Bobó apareceu a fazer o golo da vitória naquele que foi o último jogo de Pedroto no banco, antes de perder a batalha com o cancro. Já seria, por isso, António Morais a dar-lhe a primeira titularidade, num jogo da Taça de Portugal frente ao Torreense, a 15 de Fevereiro de 1984, o que permitiu a Bobó juntar o seu nome ao dos vencedores dessa edição da competição, mesmo não tendo estado na final ante o Rio Ave.

Até final da época, Bobó ainda deu mais uma vitória ao FC Porto no campeonato – o 1-0 em Espinho – mas nem isso lhe chegou para se manter no plantel de 1984/85: rumou ao Varzim, outra vez por empréstimo, destinado a compensar os poveiros pela transferência de André. Na Póvoa ainda começou no banco, mas agarrou a titularidade à quarta jornada, só a largando, a partir daí, por impedimento. Foi o que sucedeu, por exemplo, na partida frente ao FC Porto, porque foi jogada na sequência da sua primeira expulsão no campeonato, um vermelho mostrado por Francisco Silva num jogo com o Sp. Braga. Bobó jogaria, ainda assim, na receção ao FC Porto, em Abril. A derrota por 2-1 era normal numa equipa que ganhou pela última vez no campeonato à oitava jornada, em Outubro, e que por isso mesmo acabou por ser despromovida. A Bobó restou mais uma época como emprestado, desta vez ao V. Guimarães, como moeda de troca para a passagem de Laureta para as Antas. Em Guimarães, outra vez com António Morais como treinador, fez a época que parecia ir lança-lo para mais altos voos: falhou apenas um jogo de campeonato e marcou quatro golos – entre eles um bis ao Sp. Covilhã e um grande golo ao Sp. Braga que ainda hoje recorda – numa campanha em que todos os grandes perderam no D. Afonso Henriques. Não chegou, contudo, para regressar às Antas.

Livre do compromisso com o FC Porto, Bobó escolheu o Marítimo para continuar a carreira. O sueco Stefan Lundin, porém, não apostava nele com regularidade. As coisas mudaram com a chegada ao Funchal de Manuel de Oliveira, mas Bobó nunca esteve verdadeiramente bem no Funchal. Fosse por inadaptação ou por receio das aterragens no aeroporto, fez uma primeira época muito abaixo das suas potencialidades e só na segunda subiu um pouco de rendimento. Foi nesta que fez o tal golo que valeu ao Marítimo uma vitória por 1-0 no terreno do Sporting, motivando os tais títulos brejeiros: “Bobó escandaliza Alvalade”. Mesmo assim, logo que pôde, o guineense deixou a Madeira. Assinou pelo E. Amadora, onde o esperava João Alves, um dos treinadores que mais o marcou e que já tentara levá-lo antes para o Leixões. Alves transformou Bobó em médio-defensivo, uma posição mais de acordo com as suas caraterísticas morfológicas: 1,75m de altura por 80kg de peso. E o guineense foi uma das figuras da equipa amadorense que acabou o campeonato de 1989 em oitavo lugar ou que ganhou a Taça de Portugal em 1990. Bobó jogou a final, contra o Farense, no Jamor, e voltou a estar na finalíssima, onde viu um cartão vermelho, por responder a uma agressão de Pitico, já muito perto do apito final e com o 2-0 definitivo no marcador.

O sucesso levou Alves até ao Boavista e o treinador não foi sem levar Bobó. Aos 27 anos, começava aquela que viria a ser a etapa mais constante do guineense no futebol português. No Bessa transformou-se no jogador rotativo e musculado, no médio de marcação que suportava o futebol rápido das equipas de Alves e, depois, de Manuel José. Em sete épocas viu decrescer a sua produção goleadora – fez apenas dois golos no campeonato com a camisola xadrez, o ultimo dos quais (a quem haveria de ser…) ao Sporting, a 26 de Fevereiro de 1995 – à medida que via crescer a montra de troféus ou que melhoravam os resultados. Aos quatro quartos lugares e a um terceiro – em 1991/92 – somou ainda mais uma Taças de Portugal, uma Supertaça e uma carreira interessante nas competições europeias, que levou os jornalistas italianos a falarem tanto da “equipa das camisolas esquisitas”. É que o Boavista de Manuel José, cujo cartão de visita ficara bem à vista na forma como venceu o FC Porto na final da Taça de Portugal de 1992, especializou-se em eliminar equipas de Itália, sempre com Bobó a dar força no meio do campo. Em 1996, com a saída do treinador algarvio e a sua crescente veterania, Bobó deixou de contar para Filipovic, o treinador que se seguiu. Ainda jogou 45 minutos nesse campeonato, entrando para o lugar de Ricardo Nascimento ao intervalo de um empate em Leiria (1-1), a 22 de Dezembro de 1996, mas seria essa a tarde da sua despedida do Boavista.

Terá sido ainda por influência de Valentim Loureiro, presidente do Boavista e da câmara de Gondomar, que jogou um ano naquela equipa da II Divisão B, mas a idade já aconselhava a que se dedicasse a outras tarefas: foi treinador-jogador em Gondomar, esteve na equipa técnica do Ermesinde e trabalhou como olheiro do Chelsea, em cujas camadas jovens chegou a colocar Kaby Djaló, seu filho por afinidade, que atualmente joga na Finlândia.