Formado no Atlético, em Alcântara, foi no Minho que Tito mostrou durante mais tempo os dotes de goleador que fizeram dele uma das referências entre os avançados portugueses da década de 70.
2016-02-08

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1966

Tinha a escola de Alcântara, cujo sotaque ainda se lhe nota, mesmo estando há mais de 40 anos a viver em Guimarães. Cresceu no Atlético, com Marinho e sob os auspícios de um Matateu que já deixara os melhores anos para trás, mas depressa se fartou do sobe e desce que a vida na Tapadinha ou no U. Tomar pressupunha. Em Guimarães, encontrou no Vitória o porto de abrigo para uma vida de goleador. Em várias equipas que, ano após ano, estabeleceram os minhotos entre as maiores forças do campeonato português, Tito passou a barreira dos 100 golos na I Divisão, tornando-se uma figura incontornável da história do futebol na região.

Tito era ponta-de-lança e goleador nas equipas jovens do Atlético e foi nessa função que atingiu a equipa principal, aos 18 anos. Os alcantarenses andavam pela II Divisão e mais perto de descer que de subir, mas essa realidade estava para mudar. Em 1964, a Tito e Marinho juntou-se o veteraníssimo Matateu, já com 37 anos e sem espaço no Belenenses. E em 1965 veio do Restelo outro reforço atacante, o internacional Angeja. O resultado foi o primeiro lugar na Zona Sul da II Divisão e o regresso ao convívio dos grandes. A 19 de Setembro de 1966, com 20 anos, Tito estreou-se no escalão principal, lançado por Angel Oñoro numa derrota por 2-0 contra a Académica, na Tapadinha. Marcou o primeiro golo a 27 de Novembro, em mais um desaire, desta vez por 4-1 frente o Beira Mar, em Aveiro – acabaria a época com quatro, entre os quais um ao Sporting, mas o Atlético quedou-se pelo penúltimo lugar, ficando com a certeza da despromoção na penúltima jornada, um empate a zero com o Sporting na Tapadinha. Tito já alinhava, nessa altura, como extremo-direito, por conveniências coletivas, sendo a partir dessa posição que, já sem Matateu mas com o peruano Rudolfo Seminário – chegado de Alvalade como moeda de troca pela transferência de Marinho – ajudou o Atlético a voltar ao escalão principal.

A época de 1968/69 foi a primeira em que Tito se mostrou goleador ao nível dos melhores. Fez dez golos na Liga, com uma sequência de seis jogos seguidos sempre a marcar, entre Setembro e Novembro – série na qual marcou a FC Porto, Benfica e Belenenses – mas depressa se viu que a equipa de Peres Bandeira ia direitinha de volta para a II Divisão: a certeza matemática da despromoção chegou ainda em Março, numa derrota caseira contra o Sp. Braga. Tito, no entanto, tinha golo a mais para descer de novo à II Divisão e foi recrutado para o U. Tomar de Oscar Tellechea. Já como avançado-centro, porém, limitou-se a adiar o destino: apesar de uma entrada de rompante, com vitórias sobre a CUF (2-1, com um golo e uma assistência de Tito) e o Boavista (4-2, com dois golos e uma assistência do alcantarense), os nabantinos foram últimos classificados e desceram. Tito haveria de fazer mais uma época no escalão secundário, ajudando o U. Tomar a subir, através da Liguilha, mas em 1971 seguiu para o Minho, onde o esperava a duradoura ligação ao V. Guimarães.

No Minho, com Mário Wilson, o alcantarense conheceu os seus melhores anos. A estreia não poia ser mais retumbante: um bis na baliza do Barreirense, onde estava Bento, a valer uma vitória por 2-0. Ao todo, foram 14 golos nesse primeiro campeonato vestido de branco, incluindo hat-tricks contra a CUF e o Tirsense (neste jogo, Tito conta que fez quatro golos, mas os jornais da época atribuíram um deles ao guarda-redes Barrigana, na própria baliza). O sexto lugar final valia uma continuidade que Tito aproveitou: depois de regressar, em Setembro de 1971, só voltou a falhar um jogo de campeonato por lesão, em Dezembro de 1974. Pelo meio, muitos golos, com especial destaque para a época de 1974/75, onde os seus 17 tentos carregaram o V. Guimarães até ao quinto lugar final. Nessa época, quem já não poderia vê-lo eram os adeptos do FC Porto, equipa à qual marcou sempre nos quatro jogos entre ambos: aproveitou um passe de Jeremias para fazer o golo que valeu o empate nas Antas (1-1), abriu o ativo na vitória por 2-0 em Guimarães, voltou a marcar no empate a três bolas na Póvoa, em jogo da Taça de Portugal, e na partida de desempate, que os dragões ganharam por 3-2, no Minho.

Os golos de Tito não eram um fenómeno passageiro nem tinham a ver exclusivamente com o treinador. Em 1975/76, tendo Wilson partido para o Benfica e Fernando Caiado chegado a Guimarães, fez mais 16 no campeonato e um na Taça de Portugal – ao FC Porto, pois a quem havia de ser… E em 1976/77, já para lá dos 30 anos, somou mais 13, incluindo um bis nas Antas, ainda que num jogo em que os vimaranenses acabaram derrotados por 4-2. A produção goleadora, para mais num jogador que começara tão cedo, tendia a baixar. Não espantou, por isso, que em 1977/78 começasse a fazer menos golos. Ainda marcou cinco, mas perdeu o lugar no onze do regressado Wilson nas últimas nove jornadas do campeonato, o que contribuiu para que se lhe abrisse a porta de saída. Fez o último golo a 19 de Fevereiro de 1978, num remate de longe que ainda deu uma vitória por 1-0 frente ao Portimonense, mas o último campeonato em que participou já foi ao serviço do Famalicão. Ali, ainda foi titular no arranque, mas acabou por perder a vaga na equipa do argentino Imbelloni. Despediu-se do campeonato a 27 de Janeiro de 1979, num empate a zero em casa, frente ao Varzim. Ainda seguiu com o amigo Marinho para o Canadá: o destino era o Toronto Blizzard, mas acabaram a jogar no First Portuguese, uma equipa dos emigrantes portugueses. Encerrou a carreira no Feirense, na II Divisão, e em duas épocas como treinador-jogador do Coelima, que levou a subir à III Divisão nacional. Terminado o futebol no campo, ainda treinou o Felgueiras – mais uma subida de divisão, da terceira para a segunda, em 1984 – antes de integrar as equipas técnicas de António Morais e de Eurico Gomes. Vive hoje na zona de Guimarães, tendo-se tornado minhoto por adoção.