Falhou no Benfica, por falta de oportunidades, mas fez as delícias dos adeptos do V. Guimarães e do Lusitano de Évora, que desceu de divisão um ano depois de ele abandonar a carreira.
2016-02-07

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1950

Alentejano de Évora, Caraça tornou-se um exemplo futebolístico das virtudes lutadoras dos que cresciam por aqueles lados: era um avançado forte e combativo, daqueles que chocava contra os defesas e não caía e que ainda era capaz de somar à força física muito sentido de oportunidade e capacidade de finalização. Nunca conseguiu impor-se para lá das reservas quando a fama de júnior o levou ao Benfica, mas deixou saudades em Guimarães e fez durante mais de uma década as delícias dos adeptos do Lusitano de Évora, onde assegurou a substituição do veterano Patalino, ajudando a equipa a manter-se entre os grandes.

Os golos marcados nos juniores do Juventude de Évora levaram este avançado alentejano a assinar pelo Benfica, quando tinha apenas 18 anos. Nas águias, contudo, nunca passou das reservas e após duas épocas frustrantes rumou ao Norte, dispensado para o V. Guimarães. Ali, Alberto Augusto deu-lhe a titularidade no centro do ataque minhoto: Caraça fez todos os jogos do campeonato de 1952/53, marcando onze golos, dez dos quais na segunda volta. Estreou-se na I Divisão a 29 de Setembro de 1952, numa derrota do Vitória em casa contra o FC Porto (0-1), fez o primeiro golo num 3-0 ao Estoril, a 26 de Outubro, mas só na segunda metade da época começou a mostrar verdadeiramente as qualidades. O hat-trick nos 6-1 à Académica, a 8 de Março, deu que falar, tal como o golo marcado ao mesmo Benfica que o rejeitara, ainda que num jogo que o Vitória perdeu por 5-1. Mas a lenda de Caraça em Guimarães foi alimentada sobretudo com o bis ao Sp. Braga, na última jornada. Já tinha sido ele a fazer o 2-1, mas os bracarenses empataram, por Gabriel, a 5 minutos do fim. Só que Caraça não esteve pelas medidas e fez o terceiro golo, no último minuto, permitindo ao Vitória subir três lugares, até à 10ª posição final.

Como aos 11 golos no campeonato o alentejano somou mais sete na Taça de Portugal – incluindo um póquer ao Sp. Covilhã e mais um ao Benfica, na eliminação vimaranense nos quartos-de-final – estava transformado numa certeza. A segunda época no Minho foi um desfilar de golos atrás de golos. Foram, ao todo, 14 no campeonato, entre os quais mais um no empate (2-2) que o Vitória arrancou da visita ao Benfica e dois apetecidos bis no derby contra o Sp. Braga e no jogo contra o Lusitano de Évora. A carreira de Caraça em Guimarães acabaria em Junho, com um golo ao Boavista, na tarde da eliminação da Taça de Portugal. A sua falta foi muito sentida nas épocas seguintes, mas o avançado escolheu ir marcar golos para a sua terra – Évora – assinando no entanto pelo Lusitano, rival do Juventude onde dera os primeiros passos. Não fez uma primeira época brilhante nos verde-brancos, pois ficou abaixo dos dez golos no campeonato e faltou a quase metade dos jogos, mas mesmo assim acabou com mais dois golos que Patalino, o veterano goleador alentejano que chegara à seleção nacional e que por isso mesmo era uma referência da região. E na Taça de Portugal, que como sempre encerrava a época, fez das dele: a 15 de Maio, marcou nos 2-0 com que o Lusitano eliminou o FC Porto nas Antas e duas semanas depois voltou a deixar marcas na baliza do Sporting, ainda que a derrota (1-2) tenha significado a eliminação nos quartos-de-final, em pleno Campo Estrela.

Ao longo dos anos, Caraça foi-se tornando figura incontornável no ataque do Lusitano. Os golos aos grandes eram sempre festejados de forma diferente e ele não era exceção: em Setembro de 1956 marcou a Carlos Gomes o segundo nos 2-1 com que o Lusitano ganhou ao Sporting, numa época brilhante, que os alentejanos acabaram em quinto lugar. Seria a melhor temporada da sua carreira a nível coletivo, só comparável à chegada às meias-finais da Taça de Portugal em 1958/59. Mas depois de ter contribuído com cinco golos na caminhada, Caraça também bloqueou nos dois jogos contra o FC Porto, que os alentejanos perderam por 3-0 e 7-1. A partir de 1959/60, a equipa do Lusitano voltou a decair e, apesar de uma excelente época do seu avançado-centro – mais onze golos no campeonato – teve de esperar pela última jornada para festejar a manutenção. Mais golo, menos golo, essa foi quase sempre a sua história até final da carreira. Fez o último golo oficial a 27 de Setembro de 1964, numa partida da Taça de Portugal frente ao V. Setúbal, que os alentejanos perderam por 3-2, acabando eliminados da prova. Já não marcou nesse campeonato, que o Lusitano acabou apenas um lugar acima da linha de água. Em 1965/66, já sem Caraça – que se despediu a 7 de Fevereiro de 1965, com uma vitória por 1-0 no terreno do Varzim – o Lusitano foi último no campeonato e desceu de divisão. Para não mais voltar.