Foi o terceiro estrangeiro a jogar no Benfica. Chegou com Baroti e brilhou na campanha que levou o Benfica de Eriksson à final da Taça UEFA, em 1983. Pendurou as chuteiras no Boavista, para começar uma meritória carreira de treinador logo a seguir.
2016-02-06

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1975

Um dos primeiros estrangeiros a jogar no Benfica foi Zoran Filipovic. Era um avançado alto e elegante, forte no jogo de cabeça mas ao mesmo tempo dono de bons pés e de um sentido de oportunidade e definição muito acima da média. Já chegou a Portugal numa altura em que aos seus atributos normais somava a força da experiência, pois naquela altura o regime jugoslavo não deixava os seus melhores futebolistas emigrar antes de fazerem 28 anos e ele ainda passou pela Bélgica, em trânsito do Estrela Vermelha. Mas ainda veio a tempo de deixar marcas no futebol português, como jogador ou treinador.

Zoran Filipovic nasceu em Titograd, na Jugoslávia, hoje Podgorica, capital do Montenegro, pois o Marechal Tito já faz parte dos livros de história e o país desmembrou-se nas suas diversas nacionalidades. Foi viver desde cedo para Belgrado e ali começou a mostrar dotes de goleador, com a camisola vermelha e branca do Estrela Vermelha. Internacional júnior, entrou de rompante na equipa sénior numa tarde de Outono de 1970 quando, aos 17 anos, fez dois dos quatro golos com que a sua equipa virou uma eliminatória da Taça dos Campeões Europeus contra o Ujpest, da Hungria. Os húngaros tinham ganho a primeira mão por 2-0, mas o Estrela Vermelha venceu em Belgrado por 4-0 e seguiu em frente na competição. Filipovic marcou o primeiro golo, logos aos 6’, de pé direito, ao primeiro toque, após recuperar uma bola rechaçada pela defesa na sequência de um remate de um colega, e encerrou a contagem aos 58’, de cabeça, após centro milimétrico de Dzajic. Estava logo ali o seu cartão de visita.

Logo nessa primeira época, Filipovic fez 13 golos no campeonato jugoslavo, aos quais juntou mais seis na caminhada do Estrela Vermelha até às meias-finais da Taça dos Campeões. Ainda é, aliás, o melhor marcador do Estrela Vermelha nas competições europeias, com um total de 28 golos entre Taça UEFA, Taça das Taças e Taça dos Campeões. Como, apesar do sexto lugar da sua equipa na Liga, marcou nas duas mãos da final da Taça da Jugoslávia, que o Estrela Vermelha ganhou ao Sloboda Tuzla em Maio de 1971, era impossível o selecionador ficar indiferente à capacidade goleadora do jovem ponta-de-lança. Por isso, a 9 de Maio, ele já estava a jogar pela seleção nacional. Estreou-se em Leipzig, com uma vitória por 2-1 frente à RDA, que contava para a qualificação do Europeu de 1972 e voltou a fazer um golo, mas apesar de ter estado em todos os jogos da equipa nacional até final do ano, acabou depois por ser preterido em favor de Dusan Bajevic, só regressando em 1977, o ano em que foi o melhor marcador do campeonato, com 21 golos. Encerrou a carreira na seleção a 16 de Novembro de 1977, em Salónica, num empate a zero com a Grécia que contou para a Taça dos Balcãs. Ao todo somou 13 internacionalizações, fazendo dois golos – o segundo em 1977, numa goleada de 6-4 à Roménia.

O panorama do futebol jugoslavo, por aquela altura, era super-competitivo. Depois dos 13 golos no campeonato de 1970/71, Filipovic baixou um pouco a produção: fez dois em 71/72 (ainda que mais cinco na Taça das Taças, incluindo um póquer ao Komloi Banyasz), cinco em 1972/73 (ano em que se sagrou campeão jugoslavo mas em que foi Lazarevic o principal goleador da equipa) e até ficou em branco em 1973/74. Voltou então para quatro épocas nos dois dígitos: 14 golos em 1974/75, onze em 1975/76, 21 em 1976/77 (melhor marcador do campeonato e outra vez campeão nacional) e 15 em 1977/78. Choviam convites do estrangeiro, mas só em 1980, depois de ser de novo campeão nacional, perdendo no entanto a final da Taça da Jugoslávia contra o Dynamo Zagreb (fez um golo a Ivkovic na segunda mão) é que entrou na época em que somou os 28 anos liberatórios e pôde aceitar um. Optou pelo Club Brugges, da Bélgica, mas não foi muito feliz: uma lesão tirou-lhe continuidade e os parcos oito golos que marcou nas contas feitas à época levaram os responsáveis belgas a aceitar libertá-lo. Quem o chamava era Lajos Baroti, treinador que sentira na pele o seu instinto goleador quando ainda liderava o Ujpest – estava no outro lado naquele bis da estreia europeia – e que decidira aproveitar a abertura recente do Benfica à contratação de estrangeiros. Antes de Filipovic, só os brasileiros Jorge Gomes e César tinham envergado as cores da águia.

Filipovic chegou ao Benfica em Junho de 1981. Vinha à experiência e ia jogar num amigável de fim de época contra a seleção da China. Fez um golo na vitória benfiquista por 2-1 e assinou contrato pelos então campeões nacionais. A 22 de Agosto estava entre os titulares da equipa que começou a defesa do título nas Antas, frente ao FC Porto. O Benfica perdeu por 2-1, mas o jugoslavo não deixou os créditos por pés alheios e fez o golo encarnado, já perto do final, em recarga a um primeiro remate de César. A primeira época não foi brilhante, contudo: o Benfica perdeu o título para o Sporting e Filipovic acabou com apenas cinco golos no campeonato, aos quais somou mais um na Taça de Portugal (ao Bragança) e outro na Taça dos Campeões Europeus (ao Omonia, de Chipre). A Europa seria, aliás, o seu grande palco de afirmação no Benfica, com uma grande caminhada na Taça UEFA de 1982/83, já com o jovem sueco Sven-Goran Eriksson à frente da equipa. O jugoslavo contribuiu com 14 golos para a vitória nesse campeonato (incluindo um póquer ao Varzim e três bis a V. Setúbal, Portimonense e Sp. Espinho), somou-lhe mais cinco na Taça de Portugal (cuja final o Benfica ganhou, mas só foi jogada no início da época seguinte, frente ao FC Porto, nas Antas) e sobretudo oito na Taça UEFA, na qual marcou em cinco jogos seguidos, entre os 16 avos e os quartos-de-final. Ficam na memória os dois golos em Roma, a bater a super-equipa de Falcão e Conti por 2-1 no Olímpico, o golo que permitiu o empate em casa (1-1) frente aos italianos e o que valeu a qualificação para a final, marcado em recarga a Diamantino contra o Un. Craiova, na Roménia.

O 1-1 valia a qualificação para os jogos decisivos, contra o Anderlecht. Filipovic foi titular na derrota (0-1) em Bruxelas, mas cedeu o lugar a Nené no jogo de retribuição, na Luz, no qual só entrou já na segunda parte, para o lugar de Shéu, quando Eriksson decidiu voltar aos dois pontas-de-lança. Não conseguiu, porém, desfazer o 1-1 que garantiu a entrega da Taça aos belgas. E, mesmo começando a nova época como titular – na tal final atrasada da Taça de Portugal – e marcando golos com regularidade, saiu da equipa em inícios de Dezembro. Só voltou para mais um jogo. Foi expulso contra o Estoril e fez o último jogo oficial pelo Benfica entrando para o lugar de Diamantino, a 21 de Março de 1984, na derrota por 4-1 em Liverpool que encerrava a participação encarnada na Taça dos Campeões. Após o Verão seguiu para Norte, onde assinou pelo Boavista. No Bessa, ainda foi o melhor marcador da equipa que, primeiro com Mário Wilson e depois com João Alves aos comandos, acabou o campeonato num belo quarto lugar, mas foi perdendo continuidade na segunda temporada. Fez o último golo a 30 de Novembro de 1985, num 3-2 ao V. Guimarães, tendo-se despedido do campeonato português na penúltima jornada dessa época, a 13 de Abril de 1986, substituindo Tonanha a 23 minutos do fim de um empate a uma bola frente ao Sp. Covilhã.

Ainda foi inscrito como jogador em 1986/87, mas já pensava mais na carreira de treinador, que também lhe trouxe muitas alegrias e alguns momentos bem significativos. Liderou clubes como o Salgueiros (com um belo quinto lugar e qualificação para a Taça UEFA logo na época de estreia), o Beira Mar, o V. Guimarães ou o seu Estrela Vermelha, foi selecionador do Montenegro e chegou a ter a seu cargo a equipa do Benfica durante alguns meses, em 1994/95, quando era adjunto de Artur Jorge mas este teve de ser submetido a uma delicada intervenção cirúrgica por causa de um tumor no cérebro. Soube da notícia quando a equipa estava de partida para Split, na Croácia, numa altura em que a guerra civil jugoslava ainda devastava Dubrovnik, a algumas dezenas de quilómetros. Deixou Split com um empate a zero, mas a noção de um país em desmembramento.