Campeão nacional pelo Belenenses, era um extremo que marcava golos. Fez, aliás, o primeiro golo oficial da história do Atlético, quando foi apanhado pela fusão do Carcavelinhos e do União de Lisboa.
2016-02-04

1 de 4
1943

Dele se escreveu que era um extremo direito talentoso, sabendo-se que esteve na equipa do Belenenses que se sagrou campeã nacional em 1946, embora essa tenha sido uma das épocas em que foi menos preponderante no esforço coletivo. E fazia golos, também, não se limitando a servir o avançado-centro. Foi o autor do primeiro golo da história do Atlético, após a fusão do Carcavelinhos com o União de Lisboa. E foram dele os dois golos azuis num empate frente ao Real Madrid, em Chamartín, de que ainda hoje falam os adeptos belenenses mais saudosos do passado glorioso do clube.

Mário Coelho apareceu pela primeira vez no Carcavelinhos, clube popular de Alcântara que por vezes batia o pé aos grandes: estava na equipa titular que, a 18 de Janeiro de 1942, abriu contra o Benfica o campeonato nacional desse ano. Haveria de fazer oito jogos nessa época, estreando-se a marcar logo com um bis, na deslocação ao campo do Leça, a 22 de Março, num jogo que os alcantarenses venceram por 3-0, deixando a última posição da tabela a caminho do nono lugar final. No Verão, porém, o Carcavelinhos e o União de Lisboa fundiram-se, dando lugar ao Atlético, que entrou no campeonato de Lisboa em busca de um lugar no campeonato da Liga – nessa altura ainda não havia subidas e descidas e eram os melhores colocados dos regionais a disputar, numa segunda fase da temporada, os nacionais. O primeiro jogo oficial do novo clube decorreu a 11 de Outubro de 1942, na Tapadinha, e o adversário foi o Benfica. A derrota por 5-1 era o prenúncio de um campeonato difícil – o Atlético foi penúltimo e falhou o acesso ao campeonato nacional – mas Mário Coelho fez, a oito minutos do fim, o golo de honra dos alcantarenses, o primeiro da história do clube.

O talento do extremo direito era demasiado para ficar fora das grandes competições, pelo que um ano depois estava a assinar a ficha para jogar no Belenenses. E logo na estreia veio o primeiro troféu: campeão de Lisboa de 1943/44, com golos marcados ao Sporting e ao Benfica. No campeonato nacional marcou ao Atlético o primeiro golo de azul vestido, à quarta jornada: foi um golo dramático, porque evitou, no último minuto, a derrota do Belenenses na Tapadinha. Uma expulsão frente ao Salgueiros e o subsequente castigo roubaram-lhe parte da época, que o Belenenses terminou num modesto sexto lugar, mas Coelho viria a redimir-se na Taça de Portugal, na qual fez mais dois golos, em dois jogos contra o Atlético, que por esta altura já nem quereria vê-lo pela frente.

A propensão do extremo para os golos viria a revelar-se sobretudo em 1945, depois de um campeonato de Lisboa normal – terceiro lugar, atrás de Sporting e Benfica. O Belenenses viria a repetir o terceiro lugar no Nacional, mas com 15 golos de Coelho, que foi o segundo melhor marcador da equipa, apenas atrás de Armando, que fez 18. Destaque para um hat-trick ao FC Porto, a ajudar numa vitória por 6-2 no Campo do Lima, e para duas jornadas finais de loucos, com quatro golos nos 15-2 à Académica e três nos 14-1 ao Salgueiros. O Belenenses começava a carburar e no final da época foi convidado pelo Real Madrid para a festa de homenagem ao jogador Alonzo, em Chamartín. Empatou a duas bolas, com os dois golos portugueses assinados por Mário Coelho. Previa-se uma grande época de 1945/46. O que veio realmente a acontecer, com a conquista dupla do campeonato de Lisboa, com mais três pontos que o Sporting, e do campeonato nacional da I Divisão. Mário Coelho, que bisou na vitória decisiva (4-2) frente aos leões, nas Salésias, para a prova regional, desapareceu do onze após a derrota contra o Benfica, na oitava jornada do campeonato nacional. Até final da época só surgiu mais uma vez nas escolhas de Augusto Silva, assinalando a entrada no onze contra o V. Setúbal com mais um golo, o quarto da temporada. Na tarde do jogo decisivo, em Elvas, viu de fora os companheiros ganharem por 2-1, de virada, assegurando a manutenção da vantagem de um ponto sobre o Benfica e o regresso a Lisboa em cortejo de vitória.

Mário Coelho ainda fez uma bem preenchida época de 1946/47, contribuindo para os dois terceiros lugares – no campeonato de Lisboa e no nacional da I Divisão – do Belenenses. Fez o último golo no campeonato a 8 de Junho de 1947, numa vitória por 3-0 frente ao Estoril. O mesmo Estoril que o acolheria mais tarde quando, após um ano de ausência dos futebóis de mais alto nível, reapareceu para se despedir. O último jogo no campeonato fê-lo no Algarve, a 16 de Janeiro de 1949, num empate a uma bola frente ao Lusitano de Vila Real que mantinha os estorilistas num surpreendente segundo lugar da tabela. No início da década de 70, veio a fazer parte de uma direção do Belenenses, presidida por Batista da Silva, mas não restam dúvidas de que o maior contributo que deu ao clube do Restelo foi mesmo no campo, na criação da equipa que lhe valeu o único título nacional.