Três anos de grande nível, na super-Académica de Mário Wilson, levaram Ernesto ao Sporting. Mas ali nunca confirmou os dotes de goleador ágil, acabando a carreira como avançado útil no Farense e no Portimonense.
2016-02-02

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1966

Ernesto foi uma espécie de cometa que passou pelo futebol português. Apareceu de rompante e desapareceu com a mesma velocidade. Teve três épocas de auge, na Académica, que o levaram ao Sporting e a uma chamada à seleção B, mas a esse período áureo seguiu-se um ocaso difícil de explicar, quando a Alvalade chegou Fernando Vaz, o mesmo treinador que não lhe dera um minuto de jogo em dois anos na CUF. Acabou no mesmo Algarve que o vira nascer, a jogar pelo Farense e pelo Portimonense, com mais de 50 golos na I Divisão entre as ricas memórias de futebolista.

Natural de Portimão, Ernesto revelou-se um goleador precoce no Esperança de Lagos, cuja equipa de juniores ajudou a sagrar-se campeã do barlavento quando ainda tinha idade de juvenil. O futebol a sério começou a praticá-lo um pouco mais a Norte, nos alentejanos do Serpa, onde partilhou balneário com o lendário Patalino, antiga glória do Elvas e do Lusitano de Évora. Mostrou potencial na II Divisão e, aos 19 anos, estava na CUF, na altura uma das equipas mais fortes da Liga portuguesa. Só que marcou passo: em dois anos, como a equipa andava bem – um sexto e um quarto lugar – Fernando Vaz fazia sempre confiança nos mesmos atacantes e Ernesto nunca passou das reservas. Podia ter desistido, mas optou por baixar dois patamares e seguir para a III Divisão. Jogou um ano no Tramagal e dois no U. Tomar, levando a equipa nabantina à subida de divisão e chamando a atenção da Académica. Aos 24 anos, estava pronto para regressar ao campeonato principal. E de que maneira.

Na I Divisão teve logo uma estreia de fogo. Mário Wilson deu-lhe a titularidade no primeiro jogo do campeonato, a 12 de Setembro de 1965, no qual a Académica recebia o Benfica tricampeão nacional. E Ernesto não se fez rogado: aos 21 minutos de jogo respondeu a um primeiro golo de Eusébio, empatando a um golo uma partida que acabaria num excitante 2-2. Repetiu a graça no segundo jogo, marcando na vitória frente ao Sp. Braga (3-2), no Minho, e ampliou-a ao terceiro, com um bis nos 4-1 ao V. Setúbal. Totalista nas 26 jornadas, formou com Artur Jorge uma dupla atacante de respeito, terminando a época com 16 golos no ativo. E mesmo tendo perdido alguma preponderância na segunda temporada, na qual Artur Jorge o suplantou como melhor marcador da equipa, manteve sempre o registo nos dois dígitos. Aos onze golos no campeonato de 1966/67, que a Académica acabou num brilhante segundo lugar, juntou mais doze na Taça de Portugal, um dos quais na épica final perdida após prolongamento (3-2) para o V. Setúbal. E como a seguir apareceu uma terceira época de destaque – mais 19 golos no campeonato, incluindo um póquer ao Sp. Braga e um bis ao Sporting, e dois na Taça de Portugal – Ernesto acabou por sair para um grande.

Chegou ao Sporting em 1968, mas apanhou uma equipa em convulsão. O treinador Fernando Caiado, que vinha fragilizado da época anterior, caiu ao fim de nove jornadas, sendo o seu lugar ocupado por Mário Lino, até então treinador dos juniores leoninos. Ernesto, que começara a época como titular nos 5-0 ao Varzim e até fizera um golo ao terceiro jogo – o quarto nos 4-0 ao Valência, a contar para a primeira eliminatória da Taça das Feiras – foi perdendo fulgor. Fez apenas dois golos em todo o campeonato, mais um na Taça de Portugal, mas perdeu a vaga no onze em Fevereiro para o regressado Lourenço, tendo vestido a camisola leonina pela última vez a 2 de Março, quando entrou perto do fim para o lugar de Lourenço num empate a zero contra o Benfica, na Luz. No fim da época chegou ao Sporting Fernando Vaz, o treinador que não dera um minuto de jogo a Ernesto em dois anos na CUF, bem como mais alternativas para o ataque, como Nelson ou Dinis. E, mesmo tendo a equipa melhorado a ponto de ser campeã nacional, para o avançado algarvio a história repetiu-se. Foi mais um ano a ver os colegas jogar e a noção de que o melhor era mesmo sair.

Acolheu-o o Farense, onde Manuel de Oliveira achou que a agilidade do atacante podia ser útil. E Ernesto voltou a ser importante numa equipa: jogou em todas as partidas da época, apenas uma delas como suplente utilizado, sendo o melhor marcador do Farense, ainda que com a marca modesta de cinco golos. Com a particularidade de um deles ter sido marcado na baliza de Damas, num jogo em que a filial algarvia complicou a vida à casa mãe: o Farense esteve a ganhar e o Sporting só fez o 2-1 definitivo a seu favor a cinco minutos do final da partida. Ernesto foi opção de Manuel de Oliveira até 27 de Março de 1972. Na última vez que foi titular do Farense, marcou: foi num jogo em casa contra a Académica, que os algarvios ganharam por 4-2, tendo ele feito o primeiro do rol. Despediu-se do campeonato a 21 de Maio, em Santo Tirso, jogando em vez de Ferreira Pinto nos últimos 29 minutos de uma derrota com o Tirsense, por 2-0. O Farense conseguiu a manutenção na I Divisão, mas Ernesto já não voltaria para a nova época, que jogou no segundo escalão, com a camisola do Portimonense da sua cidade natal. Pendurou as chuteiras em 1974, passando a trabalhar na Câmara Municipal de Lagos. Veio a falecer aos 66 anos, vítima de cancro.