Nasceu em Marrocos, filho de pais portugueses, mas mudou-se para o algarve com meses de vida. Goleador no Farense, Famalicão, e Sp. Braga, chegou ao FC Porto para fazer esquecer Gomes. E foi melhor marcador do campeonato antes do caminho de regresso.
2016-02-03

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1975

Olhava-se para ele e, dada a baixa estatura, não se diria que pudesse ser ponta-de-lança. Mas Jacques conhecia cada palmo da área, era lutador e parecia adivinhar onde as bolas iam cair. No seu auge, no início da década de 80, depois de ter andado dois anos perdido na II Divisão, não haveria muito melhores do que ele no futebol nacional: só assim conseguiu levar para casa um título de melhor marcador do campeonato, disputado ao milímetro com o sportinguista Jordão, e transformar-se no mouro predileto de quem ia ao Estádio das Antas.

Mouro, no caso de Jacques, não era exagero. O nome de ascendência francófona vem do facto de ter nascido em Casablanca, Marrocos, filho de pais portugueses que lá trabalhavam. Nos documentos oficiais aparece Vila Real de Santo António, na fronteira oriental do Algarve com Espanha, porque foi para lá que a família regressou ainda Jacques era bebé. Foi no Lusitano local que começou a jogar futebol, destacando-se tanto pelos golos que cedo se transferiu para o Farense e mereceu a chamada à seleção nacional de juniores, que representou por quatro vezes. Em Faro, passou um ano em lista de espera, pois ainda tinha idade de júnior e Carlos Silva tinha em Mirobaldo e Adilson opções mais fiáveis para o ataque. Só a 22 de Dezembro de 1974 chegou à formação principal. Farias e Adilson estavam indisponíveis para a viagem a Setúbal e Mário Lino chamou o miúdo. A quatro minutos do fim, com o jogo muito bem encaminhado graças ao talento de Mirobaldo, que assistiu Sério para o primeiro golo e fez ele mesmo o segundo de uma vitória do Farense por 2-1, Lino trocou o brasileiro por Jacques, dando-lhe a cheirar o que era o futebol de I Divisão. Foi sol de pouca dura, porque depois disso só nas últimas quatro jornadas Jacques voltou a saltar do banco, mas ele tinha tempo.

Chegada a nova época, com Pedro Gomes aos comandos da equipa algarvia, Jacques passou a ter maior destaque. Entrou pela primeira vez à quarta ronda, jogando a última meia-hora de uma vitória sobre o FC Porto no São Luís (1-0) e participando ativamente no golo algarvio, feito por Mirobaldo em recarga a um primeiro remate seu. Duas semanas depois, foi pela primeira vez titular, contra a Académica, marcando o segundo golo de uma vitória por 3-0. Jacques estava a tomar-lhe o gosto e não queria parar. Impôs-se como titular, voltou a marcar ao Belenenses e acabou com as dúvidas em inícios de Novembro, com um hat-trick nos 5-1 ao Sp. Braga. Ao todo, marcou doze golos no primeiro campeonato em que foi titular, cinco dos quais nas cinco últimas jornadas, nas quais o Farense tentou desesperadamente evitar a descida de divisão. Não o conseguiu, porém. E Jacques rumou a Norte, para vestir a camisola do Famalicão, que nesse ano apostava forte na subida de divisão, recrutando também Vítor Oliveira (ex-Paredes), Reinaldo (ex-Régua), António Borges (ex-Chaves), Domingos e João Almeida (também eles vindos do Farense).

A subida de divisão falhou na primeira época, mas aconteceu com grande à-vontade na segunda: a festa da promoção fez-se a cinco jornadas do fim, com um 5-0 ao Vianense que desde logo garantia matematicamente o primeiro lugar da Zona Norte e tempo para a equipa preparar a fase final, na qual se sagrou campeã nacional do segundo escalão, à frente do Barreirense e do Beira Mar. Jacques regressou à Liga principal como titular na equipa de Mario Imbelloni, mas só fez o primeiro golo à sexta jornada, já no mês de Outubro. Fez logo dois, aliás, na vitória no dérbi regional contra o V. Guimarães  (2-0). O algarvio bisou mais três vezes na época (contra o Belenenses e o Barreirense e num desafio da Taça de Portugal ante o Montijo), mas isso não chegou para impedir que a equipa baixasse de novo para o segundo escalão. Jacques não iria com os colegas, porém: os golos que ia marcando valeram-lhe a passagem para o Sp. Braga, que lutava por se impor como equipa de classe média no futebol nacional. E apesar de uma primeira época difícil em Braga – fez apenas dois golos, ainda que ao Sporting e ao Benfica, este último tendo valido um empate – apareceu em grande na segunda, que coincidiu com a chegada a Braga de Mário Lino, o treinador que o lançara no Farense. Jacques foi o melhor marcador no sexto lugar do Sp. Braga em 1980/81, com 17 golos no campeonato (incluindo cinco bis a Penafiel, Amora, Académica, Marítimo e Sporting) e mais dois na Taça de Portugal, ajudando por exemplo à eliminação do Sporting (4-2) no início da caminhada que levou os bracarenses aos quartos-de-final da prova.

Foi a primeira vez que Jacques lutou ativamente pelo título de melhor marcador do campeonato. A três jornadas do fim seguia a par de Nené, ambos com 17 golos. Mas enquanto o benfiquista marcou por duas vezes ao Belenenses, Jacques ficou em branco na deslocação a Setúbal. E não jogou mais até final da época, entregando o troféu de bandeja ao rival. O destaque, porém, valeu-lhe subir de patamar e assinar pelo FC Porto, que procurava um substituto para Gomes desde que este saíra para Gijón. Jacques começou a época como titular na equipa do austríaco Hermann Stessl, e a partir do primeiro golo, feito à terceira jornada, contra o Portimonense, nunca mais parou. A glória suprema teve-a em Dezembro, numa noite maravilhosa em que fez um hat-trick ao Benfica, assistindo Costa para o quarto golo portista numa vitória por 4-1 que deu a conquista da Supertaça, após uma derrota por 2-0 na Luz. Uma semana depois, Jacques estava a vestir a camisola da seleção nacional, convocado por Juca para um Bulgária-Portugal em que substituiu Manuel Fernandes, mas no qual o 2-5 encaixado pelos portugueses não lhe deixou muitas hipóteses de repetir a experiência. O FC Porto não foi campeão, que a Liga foi disputada entre Sporting e Benfica, mas desta vez o algarvio levou a melhor no sprint pelo título de melhor marcador. A quatro jogos do fim, tinha 19 golos, tantos como o sportinguista Jordão. Ganhou a dianteira (21-20) com um bis ao Sp. Espinho, enquanto Jordão fazia apenas um golo ao Amora. Destacou-se ainda mais (23-21) voltando a bisar frente ao Rio Ave, na tarde em que Jordão contribuiu com um golo para a vitória do Sporting frente ao Estoril, que assegurava matematicamente a conquista do título aos leões. Veio depois a festa de Alvalade e, com cinco golos ao Rio Ave, Jordão passou a sua conta para 26, tantos quantos tinha Jacques, que nesse mesmo dia fez um hat-trick ao Boavista. A última jornada tinha um FC Porto-Sporting: Jacques fez, ainda na primeira parte, o primeiro golo de uma vitória portista por 2-0 e celebrou, por um golo, o título de melhor marcador da Liga.

À alegria, contudo, sucederam-se as dificuldades. No Verão de 1982 regressaram às Antas Pinto da Costa, Pedroto e, sobretudo, Fernando Gomes. Aliada ao regresso do goleador mais querido dos portistas, uma lesão tirou a Jacques a hipótese de começar a época a jogar. Estreou-se apenas em Dezembro e só marcou o primeiro golo em Março, ao V. Setúbal. À exceção de um jogo da Taça de Portugal contra o Famalicão, só ganhou a titularidade na equipa em Maio, para a ponta final de uma época que só acabou… na seguinte: Jacques foi titular na final da Taça de Portugal, que o FC Porto perdeu contra o Benfica nas Antas, já em Agosto de 1983. Mesmo com menos utilização, viria a inscrever o seu nome na lista de vencedores da Taça de Portugal de 1983/84 – jogou as três primeiras rondas e marcou ao Ginásio de Alcobaça e ao Valonguense – bem como na Supertaça da mesma época, alinhando nas duas partidas contra o Benfica. Foi ainda fundamental na chegada da equipa à final da Taça das Taças, pois marcou golos decisivos ao Glasgow Rangers (1-2 na Escócia, a permitir a remontada com um 1-0 nas Antas) e ao Shakthar Donetsk (fez o último do 3-2 nas Antas). Já não era, porém, uma primeira escolha na equipa portista, pela qual jogou uma última vez a 26 de Agosto de 1984, entrando aos 72 minutos para o lugar de Quim, num 3-0 ao Rio Ave com que o FC Porto abriu a época. Foi o que chegou para poder juntar o nome à lista dos que, nove meses depois, se sagraram campeões nacionais. Jacques, contudo, deixou o clube nessa altura e regressou a Braga.

Aos 30 anos, ainda poderia dar muito ao futebol. Só que os golos já não vinham com a mesma regularidade. Em dois campeonatos pelo Sp. Braga e um no Sp. Covilhã, só marcou mais sete, o último numa vitória (1-0) dos serranos contra o Salgueiros, a 27 de Dezembro de 1987. Despediu-se da Liga a 20 de Março de 1988, alinhando os 90 minutos num empate a zero entre Sp. Covilhã e Sp. Braga. Ainda jogou mais três anos no Lusitano de Vila Real de Santo António, que ajudou a promover da III Divisão à II Divisão de Honra, e um nos amadores do Castromarinense, no distrital de Faro, numa altura em que já fazia pela vida no ramo da hotelaria.