Grande figura nos últimos anos dourados da CUF, Arnaldo assistiu à implosão da equipa fabril do Barreiro e teve depois de fazer pela vida. Mais de 300 jogos na I Divisão e atividade nos distritais até aos 43 anos dão muito que contar.
2016-02-01

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1966

Dono de uma das histórias mais ricas no futebol português, Arnaldo nunca viu ser-lhe feita justiça. As circunstâncias estiveram sempre contra um futebolista de quem todos os que com ele partilharam balneário diziam ser um profissional de mão cheia. Enquanto esteve no auge das suas capacidades, viu a Lei da Opção tirar-lhe a possibilidade de trocar a CUF por um clube maior, que lhe abrisse as portas da fama e da seleção, que mesmo assim representou uma vez. Quando podia tirar proveito da longa ligação ao clube-empresa, encontrando ali um emprego para a velhice, viu o 25 de Abril pulverizar a organização e teve de fazer pela vida. Jogou até aos 43 anos, sem vergonha de mostrar a sua experiência nos pelados dos distritais, e morreu jovem, aos 55, depois de ter tido vários outros empregos.

Arnaldo despontou para o futebol no Sport Bissau e Benfica, a filial guineense do Benfica. O talento que mostrou fez com que chegasse ao continente e acabasse na CUF, equipa que na altura vivia o seus tempos áureos, fruto da industrialização que começava a mostrar a cabeça no Estado Novo. Manuel de Oliveira, o então jovem treinador da equipa do Barreiro, deu-lhe a primeira titularidade na Taça de Portugal, a 13 de Outubro de 1963, quando levou a Braga uma equipa sem várias primeiras figuras, pois a CUF vencera a primeira mão da eliminatória, no Lavradio, por 6-1. A derrota por 3-0 permitiu passar à fase seguinte, mas levou a que Arnaldo ficasse em doca seca durante mais uns meses. O treinador voltou a lembrar-se dele para o dérbi do Barreiro, jogo que encerrava a primeira volta do campeonato, a 12 de Janeiro de 1964. A CUF ganhou por 2-1, subiu do décimo ao oitavo lugar e Arnaldo ficou no onze. Duas semanas depois fez o primeiro golo, a valer um empate a uma bola com o Belenenses, no Restelo. E no início de Fevereiro bisou nos 3-1 em casa ao V. Guimarães.

Titular fixo até final da época e peça importante no quinto lugar final da CUF, Arnaldo viveu na segunda época momentos de alguma inconsistência. Marcou à Oliveirense um golo que permitiu à equipa continuar na Taça de Portugal, ainda em Setembro, mas teve de esperar até Janeiro para entrar num jogo de campeonato. E mesmo tendo também feito um golo, num empate a três bolas, foi surpreendentemente pouco utilizado no surpreendente terceiro lugar dos cufistas. Manuel de Oliveira, que preferiu sempre Vieira Dias e Espírito Santo para formar o meio-campo, viu-o sair para o Vilanovense, por empréstimo, no final da época, mas acabou por recuperá-lo quando, um ano depois, lhe coube dirigir o Leixões. E Arnaldo, que passara uma época no distrital do Porto, regressou à I Divisão como se nada fosse, marcando ao Benfica no Estádio da Luz, logo à segunda jornada, e obtendo dois bis contra o Torres Novas, na Taça de Portugal. Totalista até Março, despediu-se da camisola listada do Leixões com um empate a zero no Lavradio, contra a CUF, que haveria de recuperá-lo em 1968, depois de mais um ano no ostracismo da III Divisão, a representar outro clube fabril – o Riopele.

Com o ex-guarda-redes Costa Pereira aos comandos da equipa da CUF, Arnaldo deu então início, aos 24 anos, a um processo de afirmação irreversível. No ano de regresso, não falhou um minuto nos 34 jogos que a CUF fez, entre campeonato e Taça de Portugal. Marcou mais dois golos, ambos ao Varzim, e foi providencial pela forma como arrastava a equipa para a frente nas vitórias frente a Sporting (1-0) e Benfica (3-0), no Lavradio. E na memória dos adeptos da CUF ficou um bis ao Barreirense, em Maio, a valer a qualificação para a meia-final da Taça de Portugal, em que a CUF baqueou frente ao Benfica de Otto Glória. E a história repetia-se ano após ano. Entre o regresso ao Barreiro, em Agosto de 1968, e Maio de 1975, Arnaldo falhou apenas cinco jogos da CUF. Em sete anos, é obra. Pelo meio, substituiu Fernando no papel de capitão de equipa (em 1972), tendo tido a honra de usar a braçadeira na última partida europeia da equipa verde do Barreiro, uma vitória por 1-0 frente ao Kaiserslautern, em Novembro de 1972.

O papel preponderante que Arnaldo desempenhara na equipa que Fernando Caiado levou ao quarto lugar do campeonato de 1971/72 fez com que se falasse dele para um grande, mas a CUF nunca o deixou sair. E a Lei de Opção, que permitia que, mesmo em fim de contrato, os jogadores fossem obrigados a renovar desde que o clube quisesse ficar com eles, fez com que ficasse pelo Barreiro, mesmo depois de uma época formidável em 1973/74: foram ao todo 13 golos no campeonato, mais um na Taça de Portugal, com destaque para um hat-trick ao Beira Mar ou um póquer ao Olhanense. É dessa altura a sua estreia na seleção nacional, pois apesar dos seus 30 anos, José Maria Pedroto não podia mais ignorá-lo, tendo-lhe dado a titularidade no meio-campo que defrontou a Inglaterra, na Luz, em jogo particular, a 3 de Abril de 1974. Semanas depois, veio a revolução, o fim da Lei da Opção, a liberdade que, enquanto futebolista, Arnaldo já não pôde desfrutar na plenitude. A CUF ainda se aguentou no primeiro campeonato pós-Abril, acabando em oitavo lugar, mas as ondas de choque que se abateram sobre a unidade fabril após o Verão quente de 1975 foram demasiado arrasadoras para que a equipa de futebol pudesse manter o nível. Em 1975/76, a CUF acabou o campeonato em último lugar e desceu à II Divisão para nunca mais voltar. Arnaldo aproveitou a liberdade para sair, mas apesar de manter a energia e a velocidade ou a técnica individual superior, já não era o jogador dos 20 anos. Aos 32, assinou pelo Montijo e começou a sua segunda vida.

Incapaz de impedir a despromoção do Montijo, respondeu ao chamamento de Manuel de Oliveira, o treinador que o lançara e que o recuperara no Leixões. Problema: era para jogar no Barreirense, rival da CUF, cuja camisola sempre vestira. Arnaldo foi e voltou a ser preponderante na equipa que ganhou a Zona Sul da II Divisão, subindo ao escalão principal. Ali chegado, contudo, o Barreirense não evitou a descida. Arnaldo já jogava na frente, como avançado, tendo sido o melhor marcador da equipa, com oito golos. Seguiu então para o Amora, onde Mourinho Félix, pai de José Mourinho, o transformou em defesa central. Aos 35 anos, voltou a ser um dos heróis da subida de divisão e a ganhar pelo próprio pulso o direito a jogar com os melhores. A última época de I Divisão fê-la em 1980/81, voltando a ser totalista da sua equipa. Voltou a fazer três golos (mais dois na Taça de Portugal), o último a 25 de Janeiro de 1981, ao Boavista, uma semana antes de fazer 37 anos. Despediu-se do campeonato com duas vitórias retumbantes, a garantir in-extremis a permanência do Amora: 3-0 ao Sporting, nos quais assistiu Francisco Mário para o terceiro golo, e 2-1 face ao Belenenses no Restelo.

Esse dia 1 de Junho de 1981 marcou o fim da segunda etapa de Arnaldo no futebol português, dando início à terceira, a da luta pela sobrevivência. O que ele sabia fazer era jogar futebol – e foi-o fazendo enquanto teve forças. Ainda passou um ano na II Divisão, outra vez com a camisola do Barreirense, mas depois vestiu as cores de equipas tão modestas como o U. Almeirim, o Estrela de Vendas Novas, o Seixal ou o Vilafradense. Ao mesmo tempo, chegou a trabalhar como segurança nos estádios, vendo de fora muitos daqueles que, com menos talento do que ele tivera um dia, podiam amealhar o que a ele lhe faltava. Arnaldo, que morreu jovem, com 55 anos, foi o exemplo perfeito de quem passou ao lado de uma grande carreira e por isso teve de fazer uma carreira longa.