Um espírito livre, de grande qualidade técnica e visão de jogo, mas sempre sem a competitividade que podia ter-lhe permitido outros voos.
2016-01-30

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1993

Tinha o aspeto de menino de bem que parecia não se coadunar muito com as malandrices próprias de um campo de futebol. E a personalidade sempre descomprometida, de quem estava ali por prazer e não para competir. Olha-se para trás, para a carreira de Rui Esteves, e fica-se com a ideia de que este médio podia ter sido muito mais do que foi, que as longas estadias na II Divisão não tinham nada a ver com a sua qualidade técnica e até com a capacidade que revelava para pensar futebol. Mas o “Varetas”, alcunha que lhe deram por ter as pernas muito fininhas, não era um monstro competitivo e só se revelava quando encontrava o contexto certo de liberdade criativa. Por isso mesmo diz que os melhores jogos de futebol da sua vida os fez na rua, com os amigos.

Depressa esses jogos de rua lhe souberam a pouco, no entanto. Se tinha jeito para a bola – e ele tinha-o – era preciso revelá-lo num ambiente de competição, que Rui Esteves não tinha no Real Benfica, onde se entretinha enquanto miúdo. No primeiro ano de sénior foi parar ao Torreense treinado por Pedro Gomes, ex-jogador do Sporting e da seleção nacional. E dali seguiu para o Algarve, onde Manuel Cajuda lhe abriu as portas do Olhanense. O quarto lugar na Zona Sul da II Divisão catapultou o treinador para a I Divisão, para o comando do Portimonense, mas Rui Esteves ficou e só voltou a encontrar Cajuda, um dos treinadores que mais lhe marcaram a carreira, em Loulé, na segunda tentativa fracassada de subir o Louletano ao escalão principal: segundo lugar da Zona Sul em 1988/89 e terceiro em 1989/90. A regularidade criativa que vinha mostrando valeu a Rui Esteves a entrada no Farense, na continuação do seu périplo por todo o Algarve.

Na equipa de Paco Fortes, um treinador defensivo e muito atreito às marcações individuais, não foi feliz. Estreou-se na I Divisão a 30 de Setembro de 1990, entrando para o lugar do ex-portista Quim a nove minutos do fim de uma derrota em Guimarães, por 2-0. E só fez mais cinco partidas durante toda a temporada, nenhuma delas como titular. Restou-lhe o regresso a Loulé, para o ambiente da recém criada II Divisão de Honra, onde chegou a marcar ao FC Porto, na Taça de Portugal, um golo cuja anulação ainda hoje é difícil de compreender. Dali regressou ao Torreense e, quando já parecia que estava condenado a viver toda a carreira no segundo escalão, reapareceu Manuel Cajuda, um treinador que era o contrário de Fortes, que gostava de fomentar a liberdade aos seus médios, e que chegou a Torres Vedras a meio da época de 1992/93. Os seis golos com que contribuiu para o sétimo lugar da equipa de Torres no segundo escalão valeram-lhe um contrato com o V. Setúbal e a entrada na melhor fase da sua carreira.

Em Setúbal, Rui Esteves foi uma forças criativas do Vitória que Raúl Águas conduziu ao sexto lugar do campeonato, mesmo depois de um arranque catastrófico, com apenas um ponto ganho à sétima jornada. Foi dele um dos golos na primeira vitória da época, um 2-1 ao Estoril, a 24 de Outubro de 1993. E um bom arranque de época em 1994, com mais um golo à U. Leiria, deu-lhe a hipótese de assinar contrato com o Benfica, que Artur Jorge estava a tentar reconstruir. Na Luz, porém, só veio a fazer dois jogos e, após uma passagem pelo Birmingham, do terceiro escalão do futebol inglês, onde já estava José Dominguez, outro espírito livre do futebol nacional, acabou por ingressar no Belenenses. No Restelo, voltou a ser o Rui Esteves de Setúbal: imaginativo e tecnicista, capaz de ser a força motriz do ataque da equipa. Fez uma boa primeira época, com João Alves, e uma excelente segunda temporada, mais uma vez com treinadores adeptos da liberdade: Quinito e depois Vítor Manuel. Nesta temporada marcou mais três golos, entre eles um a valer um empate frente ao Sporting (2-2), no Restelo. E despediu-se da I Divisão sem o saber, a 15 de Junho de 1997, com uma vitória contra o Benfica (1-0) no Restelo.

Até final da carreira, andou pelo Oriente, a jogar na Coreia do Sul e na China, tendo-se sagrado campeão coreano logo à chegada, pela equipa da Daewoo. Depois de pendurar as chuteiras, andou pelo jornalismo – a mãe, Edite Esteves, tem uma carreira riquíssima na área da palavra escrita – pelo mundo dos “reality shows” e ainda jogou na seleção nacional de futebol de sete. Ao mesmo tempo, experimentou a carreira de treinador, que desenvolveu em várias equipas nos escalões secundários, como por exemplo o Torreense ou o Farense, que já tinha representado como jogador.