Jogador fetiche da primeira passagem de Pedroto pelo comando do FC Porto, era um camaleão tático, que se adaptava a qualquer posição e permitia mudar o sistema com o jogo em curso.
2016-01-29

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1966

Foi uma das armas secretas de José Maria Pedroto no primeiro ataque ao título nacional como treinador do FC Porto. Este guineense, que tinha chegado a Lisboa para jogar no Sporting, mas nunca tivera oportunidade de passar das reservas de Alvalade, era avançado de origem e tinha sido reconvertido pelo “Zé do Boné” à posição de defesa-direito. E quando as coisas corriam mal, lá subia Bernardo da Velha para o ataque. Fez muitos golos decisivos, mas quando a ofensiva portista esbarrou em meia-dúzia de casos de indisciplina e Pedroto se foi, nunca mais teve o mesmo fulgor. Ainda assim, entrou para a história de clubes como o V. Guimarães, o Boavista ou o Sp. Espinho antes de se retirar e emigrar para Toronto, no Canadá.

Revelado na Guiné, Bernardo da Velha chegou ao Sporting aos 20 anos, para tentar uma chance na equipa verde-branca. Nunca lha deram, pois nem mesmo na preenchida época de 1963/64, em que os leões tiveram longa caminhada europeia até à vitória na final da Taça das Taças, teve direito sequer a uma passagem pelo banco de suplentes. Cansado de jogos de reservas, acabou no FC Porto, onde Otto Glória o estreou na equipa titular a 4 de Outubro de 1964, na receção ao Benfica que contava para a segunda mão da segunda ronda da Taça de Portugal. A tarefa que se apresentava aos portistas não era fácil, pois tinham perdido por 4-1 na Luz, e o empate final (1-1) levou a que o jogo só ficasse na história por duas razões: a estreia de Bernardo da Velha e a primeira expulsão de Eusébio, por ter mudado a bola de sítio antes da marcação de um livre direto. O guineense ainda jogou na semana seguinte, em mais um empate do FC Porto (0-0 com o Vitória, em Guimarães), mas depois desapareceu das escolhas de Otto Glória. Haveria de voltar apenas a 18 de Setembro de 1965, para uma visita ao Leixões, já com Flávio Costa aos comandos da equipa portista. E apesar de ter feito o golo da vitória (3-2), a um minuto do fim, esperava-o mais um longo período de esquecimento.

Só com a chegada de Pedroto às Antas, no Verão de 1966, Bernardo da Velha se tornou útil. O “mestre” fez várias experiências, à procura do melhor onze, e em Outubro começou a apostar no extremo guineense. Bernardo esteve nos 5-0 à CUF, com tarde mágica de Djalma, e nas duas semanas seguintes manteve a titularidade na eliminatória da Taça de Portugal contra o Sporting, que o desaproveitara. Depois do empate a uma bola em Alvalade, fez o golo que eliminou os leões (1-0), nas Antas, batendo Barroca após passe de Francisco Batista. Até Março, Bernardo da Velha foi escolha permanente para o onze e foi respondendo com golos. Voltou, aliás, a marcar ao Sporting, num empate a duas bolas, em Alvalade, agora para o campeonato. Por alguma razão, no entanto, Pedroto achou que o guineense não era atacante. E no ataque ao campeonato de 1967/68 começou a trabalhá-lo para posições defensivas, ora como médio, ora mesmo como defesa lateral. A partir de meio da época, Bernardo lá apareceu na sua nova missão, ganhando grande importância tática: sempre que a equipa precisava de recuperar um resultado, o guineense deixava a sua posição como defesa, ia para o ataque, e o 4x3x3 do FC Porto transformava-se num 3x3x4.

Foi já como defesa-direito que Bernardo da Velha apareceu na final da Taça de Portugal, em 1968, ganha pelo FC Porto ao V. Setúbal, por 2-1. E foi como defesa-direito que fez quase toda a temporada de 1968/69, aquela em que o FC Porto ficou bem perto do título de campeão. E nela, Bernardo voltou a ser importante, como desbloqueador de resultados, fazendo três golos, quando Pedroto o enviava para a frente. Voltou a marcar em Alvalade, na altura a fazer um empate a uma bola com o Sporting – mas os leões ainda chegaram à vitória, por 2-1, com um penalti a dois minutos do fim. E marcou na semana seguinte o importante golo da vitória em Guimarães (2-1), resultado que mantinha o FC Porto a um ponto do Benfica no topo da tabela e que afastava os dragões dos vimaranenses, que nessa época entravam na discussão. A importância do momento levou Pedroto a decretar a entrada dos jogadores em estágio durante a semana, mas alguns, alegando que tinham negócios a tratar, recusaram-se. Ato contínuo, o treinador afastou-os da jornada seguinte, que enfrentou com meia-dúzia de miúdos. Nessa tarde, no Barreiro, o FC Porto ainda venceu a CUF e Bernardo da Velha jogou a meio-campo, para dar entrada na lateral direita a Leopoldo, o júnior a quem simbolicamente Pedroto deu a braçadeira de capitão. A derrota do Benfica em Guimarães deixou os dragões na frente da tabela, a quatro jornadas do fim. Só que uma derrota em casa com a Académica precipitou o fim – já sem Pedroto, demitido pela direção e declarado “persona non grata”, o FC Porto acabou o campeonato em segundo lugar. E Bernardo da Velha acabou transferido para Guimarães, como moeda de troca para a aquisição de Gualter.

Em Guimarães, Fernando Caiado optou por utilizar o guineense a meio-campo, mas o guineense só se destacou verdadeiramente com um bis e um hat-trick em duas goleadas ao Lusitânia dos Açores (11-0 e 9-0) na Taça de Portugal. Voltou a fixar-se no quarteto defensivo com Jorge Vieira, e depois com Peres, em 1970/71, mas no final da época acabou por regressar ao Porto, para vestir a camisola axadrezada do Boavista, onde Joaquim Meirim viu nele condições para ser dono da lateral-direita. No Bessa fez mais duas épocas de nível muito razoável, até se deixar atraiçoar pelos nervos num dérbi contra o FC Porto, para a Taça de Portugal, a 18 de Março de 1973. Viu o árbitro marcar-lhe um penalti, por ter jogado a bola com a mão, ainda na primeira parte e, à entrada para o segundo tempo, já com o resultado empatado (1-1), foi expulso, por agressão a Armando Luís, gerando-se uma cena de pancadaria geral entre jogadores, dirigentes, treinadores, adeptos e polícia. O jogo recomeçou, o FC Porto ainda o ganhou por 2-1, mas Bernardo ficou castigado, só regressando à equipa em Junho, para as últimas duas jornadas do campeonato. E em 1974, depois de uma época de pouca utilização por Aimoré Moreira – só entrou na equipa em finais de Março – trocou o Boavista pelo Sp. Espinho.

Bernardo da Velha ainda fez mais uma época na I Divisão – e até marcou um golo ao Benfica com a camisola listada do Sp. Espinho –, competição da qual se despediu a 11 de Maio de 1975, a jogar no Estádio das Antas que lhe vira as maiores tardes de glória. A derrota por 4-0 veio confirmar a inevitabilidade matemática da despromoção dos espinhenses e desmobilizou o lateral de 33 anos. Ainda assinou pelo Leixões, mas já não jogou. Após abandonar o futebol, emigrou para o Canadá, onde chegou a matar saudades, visitando um estágio de pré-época que o FC Porto lá fez, após a conquista do título europeu de 2004.