Jogador utilitário que ajudou o Estoril e o Caldas nas melhores fases das suas histórias, só se despediu da I Divisão com 37 anos.
2016-01-28

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1948

Manuel Fragateiro nunca terá sido dos que preenchiam com mais frequência o imaginário dos miúdos que colecionavam os cromos dos caramelos nas décadas de 40 e 50, mas isso não o impedia de ser um jogador sólido e fiável, que esteve nos períodos áureos dos dois clubes que representou na I Divisão. Defesa-esquerdo ou médio combativo, esteve presente nas três épocas seguidas em que o Estoril se classificou sempre acima do quinto lugar, depois de se sagrar campeão da II Divisão, e andou depois pela melhor equipa que o Caldas alguma vez teve, também no escalão principal, até abandonar a carreira de futebolista já com uns respeitáveis 37 anos.

Fragateiro era natural do Montijo, onde começou a jogar no Aldegalense, um dos clubes que mais tarde deu origem ao também já extinto CD Montijo. Por ali andou na II Divisão, até que o último lugar da série, em 1943, o fez mudar de ares. Escolheu o Estoril, que tinha acabado de ser goleado pelo Benfica na final da Taça de Portugal. A equipa era boa e Fragateiro teve algumas dificuldades para se impor: na primeira época, ainda por cima marcada por uma inesperada descida de divisão, não fez mais do que o jogo de estreia, uma derrota por 2-1 em Guimarães, em 3 de Dezembro de 1944. A despromoção serviu-lhe para ir ganhando espaço na equipa que, na temporada seguinte, se sagrou campeã nacional da II Divisão, apenas com dois empates e uma derrota durante toda a época, e voltar com outro estatuto ao escalão principal: regressou em vez de Alberto, a 2 de Março de 1947, para uma vitória por 5-3 no terreno da Académica e acabou por beneficiar depois do afastamento de Elói para se fixar como titular no onze que garantiu o quinto lugar final para o Estoril – e que a cinco jornadas do final, antes das derrotas com o Belenenses e o Sporting, era mesmo terceiro, à frente dos azuis do Restelo e do FC Porto e apenas atrás dos dois grandes de Lisboa.

Mais duas épocas na alta roda permitiram a Fragateiro participar nalgumas vitórias históricas do Estoril. São disso exemplo os 3-2 sobre o Benfica na Amoreira em Janeiro de 1948, numa época em que os canarinhos só baixaram de terceiro para quarto lugar na Liga na última jornada, quando foram empatar com o FC Porto à Constituição e se viram ultrapassados pelo Belenenses, que no mesmo dia ganhou em casa ao Sp. Braga. Ou os 5-1 ao FC Porto em Dezembro do mesmo ano, numa altura em que o Estoril passou três meses como principal perseguidor do Sporting no topo da tabela, acabando por baquear no final e por terminar a Liga na quinta posição. A força do Estoril, contudo, extinguiu-se em 1949. Fragateiro já era, por esses tempos, titular absoluto na equipa que lutou arduamente para evitar a descida em 1950 (12º lugar) e 1951 (11ª posição). Nessa altura, porém, já com 30 anos, regressou a casa. E se os dois anos no Montijo, na II Divisão, deram lugar à mudança para as Caldas da Rainha, onde o clube local também andava pelo segundo escalão, podiam fazer pensar num fim de carreira tranquilo, a subida de divisão de 1955 ainda assegurou a Fragateiro um inesperado regresso à alta roda.

A 18 de Setembro de 1955, o montijense estava de volta à I Divisão, desta vez com a camisola branca e negra do Caldas SC, para uma partida em Setúbal, em que a sua equipa foi derrotada por 3-0 pelo Vitória local. Ainda veio a tempo, por exemplo, de marcar o seu primeiro golo no escalão principal: foi a 7 de Janeiro de 1956, com um remate de longe, dando início a uma extraordinária recuperação de 0-2 para 2-2 no Campo da Mata, frente ao Torreense, que já tinha sido o grande rival do Caldas na temporada de subida à I Divisão. Fragateiro fez todos os jogos do Caldas nessa época até ser expulso e consequentemente suspenso, a 18 de Março, de um jogo com o FC Porto, por se ter “embrulhado” com Monteiro da Costa. O empate nesse dia, porém, deixou o Caldas a salvo da ameaça de descida, quando ainda faltavam três jornadas para o final do campeonato. Com maior ou menor dificuldade, a equipa assegurou também a manutenção nas duas épocas em que Fragateiro jogou: um complicado 12º lugar em 1956/57, com uma vitória dramática sobre o Atlético no último dia a evitar a queda na II Divisão; e um décimo posto muito mais tranquilo em 1957/58, num campeonato em que Fragateiro voltou a fazer um golo, outra vez em remate de longe, desta vez a valer um empate contra a Académica. O montijense despediu-se do futebol de mais alto nível a 23 de Março de 1958, com uma derrota por 3-0 frente ao Sporting, que nesse dia celebrava mais um título nacional. Ainda esteve nas duas derrotas com o Salgueiros, na Taça de Portugal, mas já não voltou em 1958/59, época que marcou a despedida do Caldas da I Divisão.

Já falecido, Fragateiro foi recentemente homenageado quando Caldas e Estoril se defrontaram em partida da Taça de Portugal. É que mesmo não tendo preenchido o imaginário dos miúdos, foi um jogador muito importante no período áureo das duas equipas.