Carlos Xavier foi subindo no campo à medida que avançava na carreira. Polivalente, cresceu como defesa-central e acabou como pensador do futebol da equipa. O Sporting foi o clube da sua vida, mas arrepende-se de ter deixado a Real Sociedad.
2016-01-26

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1981

Olha-se para o Carlos Xavier que acabou a carreira profissional com um golo numa final da Taça de Portugal, quando já jogava como grande pensador e estratega do meio-campo do Sporting, e tem-se dificuldade em imaginar que aquele jogador dotado de excelentes pés e uma visão de jogo ímpar tenha crescido como defesa-central. Mas cresceu. Foi, aliás, a jogar no centro da defesa que conquistou o seu único título de campeão nacional, aos 20 anos, sob o comando do inglês Malcolm Allison. Outro britânico, John Toshack, terá sido o treinador da sua vida, porque o levou para Espanha, de onde mais tarde veio a confessar ter-se arrependido de ter saído. Fê-lo para voltar a Alvalade, por amor a um Sporting que nem sempre o compreendeu.

A história de Carlos Xavier começa em Moçambique, onde nasceu e viveu uma infância ligada ao desporto ao lado do irmão gémeo, Pedro. Natação, judo, hóquei em patins, basquetebol… Tudo servia para satisfazer a inclinação dos irmãos pela prática desportiva. O futebol só entrou nas vidas dos Xavier quando a independência de Moçambique forçou a família a mudar-se para Lisboa. O pai levou-os ao Casa Pia, onde jogaram nos juvenis. Até que um dia, na praia, leram que havia treinos de captação no Sporting. Lá foram e depararam-se com centenas de rapazes à espera de uma oportunidade. Pedro foi ao café e perdeu a chamada; Carlos estava presente e ficou aprovado. Fez dois anos de júnior no Sporting – Pedro, que jogava como ponta-de-lança, juntou-se a ele no segundo – e em 1980, aos 18 anos, estava pronto a ser chamado à equipa principal que acabara de se sagrar campeã nacional. Fernando Mendes levou-o para o banco numa vitória em Penafiel, a 21 de Setembro, mas foi despedido à 13ª jornada, após uma derrota em Portimão, em Dezembro. Sucedeu-lhe o jugoslavo Srecko Radisic, até então preparador-físico. E, no primeiro jogo que fez, Radisic não teve dúvidas: Xavier foi titular.

Carlos Xavier teve uma estreia de sonho. A 21 de Dezembro de 1980, o Sporting jogava em casa com o Amora e a ele cabia-lhe formar dupla de centrais com Eurico. Não só ganhou o jogo de forma clara, como a equipa não sofreu golos e ele fez um dos golos nos 5-0 finais: marcou o terceiro, numa recarga a um primeiro remate de Manuel Fernandes. As derrotas nas Antas com o FC Porto e em casa com o Ac. Viseu e a eliminação da Taça de Portugal, frente ao Sp. Braga, levaram Radisic a sacrificar o miúdo ao fim de um mês. Mas quando chegou a Alvalade, o inglês Malcolm Allison não teve dúvidas: contava com ele. E Carlos Xavier fez como titular quase toda a época da dobradinha, tendo como aspeto negativo o facto de ter falhado a final da Taça de Portugal, ganha ao Sp. Braga por 4-0, depois de ter sido titular em cinco dos seis jogos que conduziram o Sporting até ao Jamor. Pôde ainda assinalar a estreia europeia, a 30 de Setembro de 1981, com uma goleada de 7-0 sobre o Red Boys, no Luxemburgo. E, sobretudo, chegou à seleção nacional, lançado por Juca ao intervalo de um particular contra a Bulgária, em Haskovo, a 16 de Dezembro de 1981. Portugal perdeu por 5-2 e Xavier entrou ao intervalo, para o lugar do portista Simões, já com 3-1 no marcador.

Em Alvalade, no rescaldo do título nacional, veio a confusão. Malcolm Allison foi despedido durante o estágio de pré-temporada, sucedendo-lhe António Oliveira, na qualidade de treinador-jogador. Para Xavier, a época foi de altos e baixos. Fica tão marcada por um golão a mais de 30 metros em Sofia, que deixou o Sporting em excelentes condições para seguir em frente na Taça dos Campeões frente ao CSKA, como pelo facto de só em Fevereiro se ter fixado como titular. Fez mais um golo nessa época (nos 6-2 ao Sp. Braga) que só não foi uma perda de tempo porque o Sporting ganhou a Supertaça, com mais uma goleada (desta vez 6-1) à equipa arsenalista. Josef Venglos, o eslovaco que entretanto chegara para comandar o futebol do Sporting, adaptou Xavier a meio-campo e aí ele começou a ganhar mais regularidade. Mas é com a chegada de John Toshack e o seu sistema de três centrais que Xavier dispara. Passa a ser ala direito e contribui com golos e assistências para um Sporting que é o único a dar luta ao FC Porto de Artur Jorge. Ao todo foram seis golos na época (três deles na Taça de Portugal), mas a saída do galês, incompreensivelmente despedido antes do final da época, voltou a provocar ondas de choque na carreira deste polivalente. Chegou Manuel José, treinador com o qual Carlos Xavier voltou a perder influência – só por uma vez fez três jogos seguidos e foi nas últimas três jornadas do campeonato – e se desentendeu, acabando por sair do Sporting, rumo à Académica, por empréstimo.

Uma das razões para Carlos Xavier aceitar a proposta dos estudantes foi o facto de lá jogar o seu irmão Pedro, que tinha sido o melhor marcador da equipa na temporada anterior. Mas Pedro lesionou-se com gravidade logo em Dezembro, ao serviço da seleção de esperanças. E o próprio Carlos Xavier, que Vítor Manuel faz alinhar ora como defesa central, ora como médio, perdeu as últimas quatro partidas da temporada, fruto de uma fratura na cabeça sofrida fora dos relvados. Ainda assim, o que mostrou chegou para que voltasse a Alvalade, onde o esperava mais um treinador inglês: Keith Burkinshaw. Ajudou o Sporting a ganhar mais uma Supertaça, com um par de vitórias sobre o Benfica, mas tanto essa época, na qual a equipa chega aos quartos-de-final da Taça das Taças, como a seguinte, vivida no cúmulo da instabilidade provocada pela ascensão ao poder de Jorge Gonçalves e pela chegada das suas famosas “unhas”, foram pouco regulares para Xavier, que entretanto se fixara a meio-campo. Acabou por ser em 1989, com Manuel José de volta a Alvalade, que o moçambicano regressou à regularidade exibicional, voltando também à seleção nacional, pela qual não jogava há sete anos e pela qual fez mais oito jogos até se despedir, em Fevereiro de 1993, com uma derrota frente à Itália (1-3), na fase de qualificação do Mundial.

Antes disso, a regularidade que atingiu com Marinho Peres, a jogar como defesa-direito, e a participação na campanha europeia leonina de 1990/91 – chegada às meias-finais da Taça UEFA – chamaram a atenção de John Toshack, que no Verão seguinte o chamou a ele e a Oceano, dois jogadores que tinha orientado em Alvalade, para a Real Sociedad. Xavier chegou a Espanha aos 29 anos. Era um jogador maduro, em quem Toshack confiava em absoluto, dando-lhe liberdade total para se mover a meio-campo. Em três épocas, marcou 13 golos na Liga espanhola, ficando sempre acima das 30 partidas por ano. Era, por isso, um jogador diferente quando regressou a Alvalade, em 1994. No Sporting de Carlos Queiroz, já a meio-campo, impunha um futebol cerebral, onde a qualidade de passe e o remate de meia-distância ditavam leis. Até acbar a carreira, ainda ganhou uma Taça de Portugal – final contra o Marítimo, na quebra do jejum de troféus leonino, em 1995 – e uma Supertaça – finalíssima contra o FC Porto em Paris, em 1996. Se no jogo do Jamor foi o maestro que comandou a equipa, no de Paris fez mesmo um golo, a confirmar uma tendência estranha de final de carreira: Carlos Xavier marcou golos nos últimos cinco jogos que fez como profissional, a Gil Vicente, FC Porto, Chaves, Leça e Benfica.

Despediu-se do campeonato com um empate (1-1) em Leça, a 12 de Maio de 1996, e jogou ainda a final da Taça de Portugal que ficou tragicamente marcada pela morte de um adepto leonino na sequência do lançamento de um “very-light” após o primeiro golo do Benfica. Carlos Xavier, que nesse momento estava no banco, ainda marcou, de penalti, o golo com que os leões reduziram para 3-1. Tinha mais um ano de contrato, mas acabou por não o cumprir, por falta de vontade do clube. Não aceitou também propostas para jogar noutros clubes, porque, depois de o ter feito em tempos pela Académica, não se via a defrontar o Sporting. Resolveu assim pôr fim à carreira, vindo posteriormente a jogar futebol de praia pelo clube do coração. No futebol de onze, Carlos Xavier só voltou a entrar como treinador-adjunto de Litos, no Estoril de 2004/05. Revoltado com o que diz ter-se passado nesse campeonato (o do Estoril-Benfica no Algarve), retirou-se. É atualmente empresário no ramo da restauração: é sócio e até cozinha no Bar 19, o restaurante que fica junto ao “clubhouse” da Quinta da Beloura.