Chegou de Moçambique para o Benfica e mudou o panorama hegemónico do futebol português. Obteve consagração nacional e mundial com a camisola encarnada, mas nunca lhe foi permitido jogar nos grandes campeonatos da Europa.
2016-01-25

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1960

Nenhum jogador teve no futebol português o efeito que teve Eusébio. Peyroteo acabou com uma melhor média de golos, mas nunca jogou um Mundial e, além de ainda não ter a Taça dos Campeões Europeus, também viveu sem televisão e com uma imprensa insípida. Figo e Ronaldo conseguiram maior consagração internacional, mas fizeram grande parte das suas carreiras no estrangeiro, nunca chegando sequer a ser campeões nacionais. Além de uma categoria quase inigualável, que lhe permitiu mudar o panorama hegemónico do futebol português em década e meia com a camisola do Benfica, Eusébio deu sempre o melhor de si em Portugal, impedido que foi de se transferir para um grande clube do estrangeiro enquanto esteve no auge. Foi, por isso, um ícone da cultura nacional nas décadas de 60 e 70 e uma saudade que passou a matar em longos e frequentes convívios à mesa com os amigos, aqueles que continuaram a tratá-lo por “King” quando dos tempos de craque já só lhe sobravam as memórias e as dores de um joelho massacrado.

Para perceber a dimensão de Eusébio bastaria olhar-lhe para o palmarés. Onze vezes campeão em 15 anos no Benfica – que tinha ganho apenas dez campeonatos em toda a sua história até à chegada de Eusébio – foi melhor marcador em sete desses campeonatos, somou-lhe uma Bola de Ouro como melhor jogador da Europa, duas Botas de Ouro como maior goleador de todo o continente. Estrela maior do Benfica que acumulava finais europeias na década de 60, tornou-se também a figura maior do Mundial de 1966, o primeiro para o qual Portugal se qualificou, tanto pelo que jogou e marcou como pela imagem icónica da sua saída de campo a enxugar as lágrimas de um choro convulsivo após a derrota com a Inglaterra nas meias-finais. A partir desse dia, Eusébio era a imagem de Portugal no Mundo, o mesmo Mundo que lhe foi sempre faltando porque só pôde jogar no estrangeiro quando já era uma sombra do jogador que tinha sido. Não é possível dizer o que teria sido Eusébio se Salazar o tivesse deixado sair para a Juventus em 1965 ou se, na sequência da hecatombe que foi o Mundial’66 para os italianos, estes não tivessem fechado as fronteiras a jogadores estrangeiros, fazendo abortar a transferência que já estava acertada para o Inter de Milão. Da mesma forma que impossível se torna perceber o que seria Cristiano Ronaldo se tivesse ficado sempre amarrado ao Sporting. Daí que a discussão em torno do nome do melhor futebolista português de sempre não possa valer mais do que vale qualquer esgrimir de argumentos apaixonados. E que o melhor elogio que pode ser feito a um e ao outro é dizer-se que se comparam.

Eusébio nasceu em 1942 no bairro da Mafalala, em Lourenço Marques, hoje Maputo, capital de Moçambique. Órfão de pai desde tenra idade, cresceu à sombra da influência de uma mãe sempre presente, a dona Elisa. Os primeiros pontapés numa bola de trapos, na rua, valeram-lhe a atenção do Chico cauteleiro, que lhe descobriu o talento quando ainda tinha a alcunha de Pelé e jogava nos Brasileiros, clube local. Hilário, já craque do Sporting, era amigo dos seus irmãos mais velhos e recomendou-o ao Sporting de Lourenço Marques, hoje Maxaquene, mas Eusébio gostava mais do Desportivo, a filial local do Benfica, onde jogava o seu ídolo, Mário Coluna, e foi lá tentar a sorte. Recusado por duas vezes, acabou por vestir mesmo a camisola verde e branca tornando-se rapidamente a maior figura do futebol moçambicano. O passo seguinte foi decisivo. Em Lisboa, os responsáveis do Sporting quiseram chamar o rapaz para um período de testes. Do Benfica, foram mais incisivos e assinaram de imediato um contrato com a mãe de Eusébio, o que gerou um caso de difícil resolução. Eusébio chegou a Lisboa a 17 de Dezembro de 1960, com 18 anos, para jogar no Benfica, mas a Federação Portuguesa de Futebol não aceitou a inscrição do jogador porque na documentação faltava a carta de desobrigação passada pelo seu clube anterior. O processo durou cinco meses, com pareceres favoráveis ao Benfica no Conselho Jurisdicional da FPF e ao Sporting na Direção Geral dos Desportos. Durante boa parte desse tempo, para evitar que dos leões alguém o convencesse a mudar de ideias, Eusébio esteve em Lagos, no Hotel Meia Praia, hospedado sob o nome de código Rute. E o problema só se resolveu quando Maurício Vieira de Brito, presidente do Benfica, abriu os cordões à bolsa e pagou 400 contos ao Sporting de Lourenço Marques, recebendo a documentação necessária na volta do correio.

A estreia de Eusébio com a camisola do Benfica, a 23 de Maio de 1961, efetuada num particular contra o Atlético que serviu de despedida à equipa que ia jogar a final da Taça dos Campeões Europeus, foi uma pequena amostra do que o rapaz podia dar: fez três golos na vitória dos encarnados por 4-2. Eusébio estreou-se oficialmente a 1 de Junho, num jogo da Taça de Portugal que a FPF obrigou o Benfica a fazer apenas um dia depois da final da Taça dos Campeões Europeus e que os encarnados enfrentaram, naturalmente, com uma equipa de reservas. Perdeu por 4-1, foi eliminado da Taça de Portugal pelo V. Setúbal, mas fez um golo. No campeonato entrou a 8 de Junho, no lugar de José Águas, fazendo também um golo nos 4-0 com que o Benfica venceu o Belenenses na última jornada e sagrando-se assim campeão nacional pela primeira vez. O húngaro Bela Guttman, à data treinador dos encarnados, repetia para quem o queria ouvir que o jovem moçambicano valia o seu peso em ouro. E entre os jogadores titulares, campeões da Europa – numa final que Eusébio não jogou porque não tinha sido inscrito a tempo – a grande dúvida era: “qual de nós vai sair para entrar o Eusébio?” Dúvida que se tornou numa inevitabilidade quando, em Junho, na final de um torneio em Paris, o Benfica campeão europeu defrontou o Santos de Pelé. Eusébio começou no banco e entrou ao intervalo, com 4-0 favoráveis aos brasileiros. Num ápice, fez três golos e ganhou uma grande penalidade, que José Augusto desperdiçou. Pelé ainda fez o 6-3 final, mas o desafio estava lançado: havia em Portugal um atacante capaz de se bater com o Rei.

Como é natural, Eusébio começou a nova época como titular. Fosse com o sacrifício de Santana, o recuo no terreno de Coluna ou de Cavém, era preciso encontrar lugar para o miúdo, porque ele valia golos. Bisou nos 2-1 com que o Benfica abriu o campeonato, contra o Leixões; fez quatro nos 8-1, na segunda jornada. A fonte de golos, porém, começou a secar e, em Dezembro, logo se viu porquê: Eusébio jogava com dificuldades e foi submetido à primeira de seis operações ao joelho esquerdo. Ainda acabou o campeonato com 12 golos, aos quais juntou dez na Taça de Portugal – incluindo dois na final, ganha por 3-0 ao V. Setúbal – e cinco na Taça dos Campeões – também com bis na final, ganha por 5-3 ao Real Madrid. Dessa final, a última ganha pelo Benfica na Europa, contam-se duas histórias. A primeira quando, com o resultado empatado a três golos, Eusébio se preparava para cobrar uma grande penalidade e o uruguaio Santamaria se aproximou dele e lhe chamou “Maricón!”. Sem perceber o que lhe diziam, o moçambicano foi perguntar a Coluna o que fazer. O compatriota sorriu e respondeu-lhe: “Não ligues. Faz o golo e a seguir chama-lhe ‘Cabrón’!” O que Eusébio fez, assim que viu a bola no fundo das redes. A segunda história mostrava bem quão humilde era o jovem Eusébio: no final, trocou de camisola com Di Stéfano, o seu ídolo, e temendo que lha roubassem nos festejos, guardou-a dentro dos calções, não se separando dela por nada deste Mundo.

Por essa altura já Eusébio tinha chegado à seleção. Estreou-se a 8 de Outubro de 1961, com um misto de sensações. Por um lado, a alegria da primeira internacionalização, aos 19 anos, e de ter feito um golo. Por outro, a vergonha da derrota por 4-2 com uma das piores seleções da Europa e a certeza do afastamento do Mundial de 1962, no Chile. A ausência regular das grandes provas de seleções foi um dos maiores entraves à coroação de Eusébio como melhor jogador mundial da sua geração. No final de 1962, por exemplo, tendo sido a figura do Benfica campeão europeu, perdeu a Bola de Ouro do “France-Football” para o checoslovaco Masopust, finalista vencido do Mundial. Eusébio centrava-se, dessa forma, nas proezas com a camisola do Benfica. Campeão nacional em 1963, 64 e 65, iniciou nas últimas duas épocas uma série de cinco campeonatos consecutivos com mais golos do que jogos. Eusébio marcava quase sempre e marcava muito. Fê-lo, por exemplo, na final da Taça dos Campeões de 1963, não impedindo, ainda assim, a derrota do Benfica frente ao Milan, por 2-1, em Wembley. Fê-lo em nove jornadas consecutivas de campeonato, entre Novembro de 1964 e Janeiro de 1965, obtendo nesse período 21 dos 28 golos que lhe permitiram ser pela segunda vez melhor marcador da prova. Por essa altura já tinha sido chamado a uma seleção do Mundo, na celebração do centenário da Federação Inglesa, e a uma seleção da Europa, para um jogo na Dinamarca. Complementava com estes cachets um salário que não era ao nível do futebol que jogava, pelo que começou a falar-se da sua passagem para o estrangeiro. Em 1965, a Juventus propôs-lhe muito dinheiro para se mudar para Itália. O Benfica hesitou e foi Salazar, o ditador que governava Portugal, a convencê-lo: chamou-o à sua residência oficial e declarou-o “património nacional”. Um ano depois, o Inter de Milão foi mais longe. Moratti (o pai…) convidou-o a passar uns dias nas margens do lago Como, onde Eusébio e Flora, a mulher, até escolheram casa. Estava tudo acertado para a mudança quando a Federação Italiana decidiu impedir a contratação de jogadores estrangeiros pelos seus clubes.

A razão estava diretamente ligada ao mesmo fator que deixara o Mundo louco por Eusébio. É que, eliminados logo na primeira fase do Mundial de 1966, os italianos adotaram medidas drásticas de proteção aos seus futebolistas. O mesmo Mundial fortalecera o mito de Eusébio, o goleador implacável que virou sozinho o jogo contra a Coreia do Norte, nos quartos-de-final (de 0-3 para 5-3 com quatro golos seus), mas ao mesmo tempo simpático, pois cumprimentava os guarda-redes depois de os bater. Eusébio já entrara no Mundial como Bola de Ouro europeu, ganha em 1965 à conta de mais uma final da Taça dos Campeões (0-1 com o Inter, no jogo do frango de Costa Pereira e da sua misteriosa lesão, que levou Germano para a baliza) e do que fez na caminhada de Portugal até à fase final do Mundial. No Mundial, marcou à Bulgária, bisou contra o Brasil, eliminando Pelé, fez os quatro golos na reviravolta face à Coreia do Norte e ainda assinou mais dois golos à Inglaterra (1-2 nas meias-finais) e à União Soviética (2-1, no jogo que valeu o terceiro lugar). Ficaram célebres duas imagens: uma em que vai a correr buscar uma bola ao fundo da baliza coreana, tamanha era a pressa de recomeçar o jogo; outra em que sai a chorar compulsivamente após o final do sonho que foi a derrota contra os ingleses. Bobby Charlton, o autor dos golos ingleses nessa partida com Portugal, haveria de bater Eusébio mais uma vez, na votação para a atribuição da Bola de Ouro de 1966: o inglês teve mais um voto, mas causou estranheza que o membro português do júri não tivesse dado um único ponto a Eusébio, dessa forma decidindo o resultado final.

Frustrada a passagem para o futebol italiano, Eusébio viveu em 1969 uma dura negociação para renovar contrato com o Benfica. Os 42 golos que marcara no campeonato de 1967/68, que lhe valeram a sua primeira Bota de Ouro como maior goleador de todas as Ligas na Europa, tinham acentuado uma realidade incontornável: sempre que o Benfica ia jogar a algum lado, o cachet era um se estivesse Eusébio e outro se ele faltasse. O jogador queria receber percentagens dos cachets, mas acabou por abdicar disso em troca de uma festa de homenagem. Esta realizou-se em Setembro de 1973, depois de o jogador contrariar os que diziam estar acabado para o futebol por ter permitido que os médicos o infiltrassem no sacrificado joelho esquerdo e tivessem atrasado em demasia uma operação só para que ele pudesse continuar a entrar em campo a cada compromisso. Os 40 golos que fez no campeonato de 1972/73 deram-lhe a segunda Bota de Ouro, mas essa foi a última grande época de Eusébio. A confusão gerada pela sua festa de homenagem – Jimmy Hagan pediu a demissão no dia seguinte por ter sido desautorizado pela direção do clube quando decidiu punir alguns jogadores menos empenhados nos treinos com a ausência no referido jogo e os dirigentes forçaram a sua entrada na lista de convocados – minou a época do Benfica, que pela terceira vez consecutiva viu o Sporting roubar-lhe a possibilidade do tetra-campeonato. Eusébio, que já se ausentava de quando em vez para jogar particulares de prestígio no estrangeiro a troco de cachet, viu a sexta operação ao joelho, em Novembro de 1974, arruinar-lhe essa época, a última que passou no Benfica. O último jogo que fez pelo Benfica no campeonato foi a 30 de Março de 1975, um 4-0 sobre o Oriental na Luz. Partiu então para a América do Norte, onde estava a nascer a NASL, uma Liga profissional que se esforçava por captar a atenção dos adeptos contratando estrelas europeias e sul-americanas.

A primeira experiência levou Eusébio ao Rhode Island Oceaners, do campeonato regional, e ao Boston Minutemen, equipa da multinacional Lipton que já entrava no campeonato principal. A eliminação na primeira ronda do play-off permitiu-lhe ainda jogar no México, pelo Monterrey, antes de assinar pelo Toronto Metros. Pela equipa canadiana, sagrou-se mesmo campeão da NASL em 1976, marcando um golo na vitória por 3-0 frente aos Minesotta Kicks. E Eusébio quis então regressar a Portugal, porque a época da NASL durava apenas entre Abril e Agosto. Falou com o Benfica, mas disseram-lhe que só se quisesse vir à experiência. Ainda vestiu a camisola encarnada num particular que o Sporting organizou para homenagear Carlos Lopes, depois da medalha de prata que este conquistou nos Jogos Olímpicos de Montreal. E recusou pela última vez a possibilidade de jogar pelos leões, pois João Rocha convidou-o a assinar contrato mas ele preferiu o Beira Mar. Em Aveiro, defrontou pela primeira e única vez o Benfica, a 5 de Janeiro de 1977, vindo mais tarde a declarar que, com 2-2 no marcador, preferiu não bater um livre frontal, pois tinha a noção de que muito provavelmente faria golo: deu a honra a Sousa e o jogo acabou mesmo empatado. Mais à frente, ajudou a equipa aveirense a tirar ao Sporting o ponto que tinha tirado ao Benfica, marcando, a 6 de Março, o golo que valeu o empate frente aos leões no Mário Duarte. Foi o seu último golo no campeonato português.

Despediu-se a 20 de Março, saindo ao intervalo – entrou Sousa – numa derrota por 3-0 em Braga, que deixava o Beira Mar na penúltima posição e com elevado risco de descida de divisão. Que viria mesmo a acontecer, mas já com Eusébio em Las Vegas, onde jogou a NASL de 1977 pelo Quicksilver. Até final da carreira ainda representou os New Jersey Americans, no regional norte-americano, e o U. Tomar, na II Divisão portuguesa de 1977/78. Aceitou o abandono da carreira em Fevereiro de 1979, passando primeiro a membro das equipas técnicas de sucessivos treinadores do Benfica e depois a “embaixador” do clube e do futebol português. O último serviço relevante que prestou ao clube terá sido o apoio manifesto a Manuel Vilarinho, ajudando a virar as eleições de 2000, que pareciam encaminhar-se para a recondução de João Vale e Azevedo. Faleceu em Janeiro de 2014, dias antes de completar 72 anos e de um clássico contra o FC Porto em que todos os jogadores encarnados envergaram o seu nome nas camisolas. Até hoje, mesmo com Eusébio no Panteão Nacional, os adeptos continuam a entoar religiosamente o cântico “Tu és o nosso Rei, Eusébio!” ao minuto 72 de todos os jogos do Benfica. Eusébio celebra-se onde deve ser celebrado: num campo de futebol.