Apesar de ser internacional brasileiro e de ter sido dez anos titular do Vasco da Gama, Acácio entrou em Portugal pela II Liga, na baliza do Tirsense. Defendeu ainda o Beira Mar, antes de voltar a casa.
2016-01-24

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1984

Há muitas coisas difíceis de explicar no futebol e uma delas é a forma como, em 1991, o guarda-redes Acácio, que dois anos antes defendia as balizas da seleção brasileira, se mudou do Vasco da Gama para o Tirsense, da II Divisão portuguesa. Certo que o homem já tinha 32 anos e queria experimentar a Europa, mas ainda há um ano estivera nos estádios italianos, como reserva de Taffarel no Mundial e o segundo escalão de Portugal não parecia uma porta de entrada digna da qualidade de um dos melhores guarda-redes do Brasil nos anos 80. Veio a jogar ainda pelo Beira Mar, que durante a sua permanência fez sempre a vida negra aos grandes, mas apetece dizer que devia ter chegado mais cedo para que os portugueses pudessem apreciar a sua qualidade como guarda-redes.

Filho de um operário e membro de uma família extensa, com mais sete irmãos e duas irmãs, Acácio era um menino grande, de estatura elevada e ombros largos. Entrou cedo no futebol, pela porta do Americano, de Campos dos Goitacazes, sua cidade natal. Andou pelo Goytacaz, o clube rival, pelo Rio Branco e pelo Comercial, de Campo Grande, e já pensava em desistir do futebol para ajudar o pai no sustento da família quando, aos 21 anos, fez um teste no Serrano, de Petrópolis, e agradou. A vida melhorou, fruto dos cinco mil cruzeiros que passou a receber por mês, mas não ficou tranquila, porque a verdade é que nem sempre os recebia. A história repetia-se vezes sem conta: o clube não pagava, os jogadores faziam greve, o clube suspendia-lhes o acesso à cantina. Acácia, indivíduo sempre bem disposto e pronto a aceitar as piadas dos companheiros – que lhe chamavam “Jumentão”, face ao seu tamanho – recorria à casa de Dona Laura, a irmã do roupeiro do clube. Ia lá almoçar e ainda tinha o à-vontade para dormir uma soneca no sofá a seguir. Não foi estranho que tenha acabado por casar com a filha da senhora, Andreia.

No campo, as coisas começavam a correr-lhe bem. Ficou na retina uma exibição monstruosa que fez contra o Flamengo, no campeonato carioca de 1980, ajudando a segurar uma vitória por 1-0 que deixou o rubro-negro em má posição na tabela e encheu de alegria o pai, vascaíno de coração. Dois anos em Petrópolis chegaram para que Acácio se revelasse um dos melhores guarda-redes cariocas e para que António Lopes pensasse nele quando se tratou de assegurar a substituição de Mazarópi na baliza do Vasco. Acácio transferiu-se por seis milhões de cruzeiros, em 1982, e a 20 de Novembro teve uma estreia de sonho: foi escalado para defrontar o Flamengo, em pleno Maracanã. Nunca mais saiu da baliza cruz-maltina, a ponto de António Lopes – que mais tarde viria a ser treinador do Belenenses – o considerar “o melhor goleiro” que alguma vez dirigiu. “Nos treinos, o Roberto Dinamite não marcava nele nem de penalti”, ria o técnico. Trabalhando muito, Acácio corrigiu aquele que era o seu ponto fraco – a lentidão, fruto do seu 1,88m e dos 88kg – e manteve todas as armas que o físico imponente lhe conferia. A ponto de começar logo a ser exigida por alguns a sua chamada à seleção brasileira.

Ao “escrete”, porém, Acácio só chegou muito mais tarde. O Vasco andou arredado das grandes decisões durante uns anos e só cresceu quando o seu guarda-redes o elevou. Campeão carioca em 1987 e 88 – ano no qual Acácio passou 879 minutos seguidos sem sofrer golos – o guarda-redes foi chamado à seleção por Lazaroni em inícios de 1989, na preparação da Copa América. Estreou-se a 15 de Março, em Cuiabá, com uma vitória por 1-0 frente ao Equador, e foi titular em todos os jogos que se seguiram até à derrota com a Dinamarca, em Copenhaga (0-4), a 18 de Junho, entre eles uma vitória por 4-0 frente a Portugal no Maracanã. Na Copa América, que o Brasil viria a ganhar, Sebastião Lazaroni optou por Taffarel e, mesmo tendo estado no Mundial de 1990, Acácio não voltou a jogar pela canarinha. Vingou-se sendo campeão brasileiro em 1989, mais uma vez fechando a baliza na final, ganha por 1-0 face à super-equipa do São Paulo. E foi neste contexto que, em 1991, aos 32 anos, Acácio chegou a Santo Tirso, para defender as redes do Tirsense, cujo grande objetivo passava por regressar à I Divisão de Portugal.

O Tirsense de Rodolfo Reis foi, de longe, a defesa menos batida desse campeonato, com apenas 14 golos sofridos em 34 jogos e acabou a época em terceiro lugar. Chegava para subir, mas no final da época Acácio mudou-se para o Beira Mar. A estreia no campeonato português teve-a a 23 de Agosto de 1992, numa derrota por 2-1, frente ao Vitória, em Guimarães. Logo nessa época, Acácio destacou-se no empate frente ao Sporting (1-1) no Mário Duarte, e sobretudo nos 0-0 que a equipa aguentou na Luz, contra o Benfica, e nas Antas, frente ao FC Porto. Em toda a época, aliás, o Benfica não conseguiu marcar-lhe um golo, pois perdeu em Aveiro (1-0) no jogo da segunda volta. E o jogo com o FC Porto nas Antas foi mais tarde motivo de história, graças a declarações atribuídas ao guarda-redes brasileiro, segundo as quais teriam tentado suborná-lo para facilitar, numa altura em que águias e dragões corriam pelo título. O FC Porto ganhou por 1-0 e foi campeão nesse mesmo dia, face a um empate do Benfica no Estoril, mas nunca se apurou nada acerca da veracidade das acusações.

O Beira Mar acabou essa época num honroso oitavo lugar e a tendência de Acácio para brilhar nos grandes jogos manteve-se em 1993/94, onde, mesmo caindo para uma 14ª posição que assegurava a manutenção à justa, o Beira Mar voltou a empatar com o Benfica e o FC Porto em casa. A descida aconteceria em 1994/95, época em que Acácio jogou menos vezes, precipitando o seu regresso ao futebol brasileiro. Despediu-se das balizas portuguesas a 6 de Maio de 1995, com uma derrota frente ao Marítimo, nos Barreiros, por 3-2, com o golo decisivo a ser-lhe marcado a quatro minutos do final por Paulo Alves, que tinha sido seu colega no Tirsense. Duas semanas antes, na sequência da derrota em Santo Tirso, que deixava o Beira Mar no penúltimo lugar, a direção decidira despedir o treinador Rodolfo Reis – também ele ex-Tirsense – e confiar a direção da equipa a Acácio. Estreou-se como técnico a ganhar ao Sp. Braga (2-0, a 30 de Abril), acumulando ainda a posição com o lugar na baliza, mas após a tal derrota nos Barreiros decidiu concentrar-se na direção da equipa e confiar as redes a Tó Ferreira. O Beira Mar manteve o penúltimo lugar e desceu. Acácio, por seu turno, regressou ao Brasil, onde ainda jogou durante dois anos no Madureira.

Após deixar as balizas, tornou-se treinador de guarda-redes. Lançou Júlio César (ex-Belenenses e Benfica) no Botafogo, foi auxiliar de Paulo César Gusmão nas equipas técnicas do Ceará e do Vasco da Gama, e emancipou-se ao assegurar ele mesmo a direção do Americano (onde tinha começado a jogar) e do Olaria. A sua experiência e reconhecimento permitiram-lhe ainda ser comentador em vários programas de rádio e televisão.