Bebé do Leixões, treinador-jogador aos 23 anos em Angola, durante a guerra colonial, Albertino foi estrela do Boavista e do FC Porto e esteve na origem da frase "largos dias têm 100 anos", proferida por Pinto da Costa.
2016-01-23

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1968

Albertino era como futebolista um pouco a antítese da sua personalidade. A criatividade que lhe permitiu, depois de abandonar os relvados, firmar-se como artista plástico de sucesso, não era tão valorizada pelo avançado que cresceu no Leixões como o sentido prático das coisas. A jogar futebol, destacava-se pela velocidade que lhe permitia ganhar supremacia nos corredores laterais e pela capacidade de dar passes de golo para o ponta-de-lança que o acompanhava. Foi isso que o levou à seleção, já tarde, é certo. Mas no futebol este portuense nunca foi homem de se precipitar.

Isso viu-se na forma como entrou na modalidade. Albertino jogava com os amigos nas ruas, mas não era um dos craques do grupo onde brilhava, por exemplo, Humberto Coelho, seu amigo de infância. Jogava basquetebol, onde impunha bem o físico e a velocidade, pelo que terá sido sem grandes expectativas que, aos 14 anos, se inscreveu com um grupo de amigos num torneio de futebol de salão. Tendo gostado da experiência, resolveu experimentar treinar no Leixões, de onde Óscar Marques já não o deixou sair sem lhe dar uma ficha de inscrição para assinar. É que os atributos que valem no futebol a sério são diferentes e o que o miúdo podia dar valia muito mais num campo de 105 por 70 metros do que nas peladinhas de rua. Prova disso é que, depois de uma época nos juvenis do Leixões, Albertino só fez um ano nos juniores, sendo chamado no final da temporada para trabalhar com os seniores de António Teixeira.

Albertino estreou-se no campeonato a 8 de Setembro de 1968, lançado por José Águas a 20 minutos do fim de um empate a zero em Guimarães. A saída de Chico Faria para o Sporting tinha aberto uma vaga no ataque matosinhense e o rapaz de 18 anos era o mais bem colocado para a ocupar. Apesar da estreia nas competições europeias – empate em casa a uma bola com o Arges Pitesti, da Roménia, a 19 de Setembro – e de ter marcado presença em quase todos os jogos da caminhada do Leixões até ao 11º lugar do campeonato, Albertino só fez um golo em toda a época, nos 6-1 ao Alhandra, a 9 de Fevereiro de 1969, para a Taça de Portugal. E apesar do regresso de António Teixeira – o homem que o chamara aos seniores – em 1969/70, acabou por ver esgotar aquela primeira chama sem grande fulgor. A segunda época foi marcada apenas pela chegada às meias-finais da Taça de Portugal, mas com menos jogos de Albertino que, a fazer o serviço militar em Leiria, acabou por se mudar para o Peniche, que disputava a II Divisão com ideias de subir.

O destaque que obteve no escalão secundário – Albertino veio posteriormente reconhecer o papel do treinador argentino Gonzalito no seu despertar – não lhe permitiu subir, pois o Peniche acabou a Zona Sul da II Divisão em quarto lugar, mas valeu-lhe o regresso à casa mãe. A época de 1971/72, porém, foi catastrófica em Matosinhos, com quatro treinadores e um 14º lugar que obrigava o clube a jogar a Liguilha para lutar pela permanência. Acabou por consegui-la, na última jornada de um torneio em que Albertino, que entretanto tinha sido mobilizado para a guerra em África, se despediu a jogar contra o Peniche. Partiu para o Norte de Angola, onde passou vários meses no mato, como radio-telegrafista do exército português que procurava travar a luta pela independência. E só ao fim de quase um ano é que os responsáveis do Recreativo de Uíge souberam que ele ali estava. Ainda o inscreveram como jogador, mas já não a tempo de evitar a descida de divisão. E em Agosto de 1973 pediram-lhe algo invulgar: apesar dos seus 23 anos, Albertino foi treinador-jogador do Recreativo, recolocando a equipa no escalão principal e sagrando-se melhor marcador do torneio.

Finda a época, com o 25 de Abril, Albertino voltou ao Porto. Como já apanhou o comboio em andamento, o treinador brasileiro Haroldo Campos não depositou logo nele toda a sua confiança. Estreou-o como suplente utilizado à segunda jornada, uma derrota em casa com o U. Tomar por 1-0, e só lhe deu um lugar no onze à quinta, num empate a zero com o Boavista no Estádio do Mar. O primeiro golo no campeonato, Albertino fê-lo a 27 de Outubro de 1974, estabelecendo já perto do final o empate (3-3) com o Oriental em Lisboa. A partir daí, foi titular em todos os jogos até final da época, ajudando o novo técnico, Filipo Nuñez, a conseguir um excelente nono lugar final. De caminho, fez seis golos no campeonato, um ao Sporting e outro ao FC Porto, tendo este valido um empate a uma bola com o FC Porto nas Antas, que deixava o Leixões em sétimo lugar a duas jornadas do fim.

Melhor seria a época de 1976/77, aquela que deixou os maiores clubes do futebol português a correr atrás de Albertino. Chegou aos 13 golos no campeonato, com uma série de quatro jogos seguidos a marcar entre Dezembro e Janeiro. É dessa altura o assédio. Fala-se no interesse do Benfica e do Sporting, mas parece ser o FC Porto a ganhar a dianteira para a sua contratação. Albertino terá saído uma noite das Antas, com quase tudo certo para se transferir, mas no dia seguinte acaba por assinar pelo Boavista. A derrota na corrida ao jogador terá sido, segundo veio depois a contar Pinto da Costa – que assumiria o cargo de diretor do futebol no FC Porto uns meses depois – a origem da frase “largos dias têm 100 anos”, proferida a um grupo de amigos no Café Orfeu. Mais difícil foi a vida do jogador, que ainda teria de acabar a época no Leixões e tinha o jogo seguinte precisamente contra o Boavista. Os axadrezados ganharam no Estádio do Mar por 1-0 e, face aos assobios que vinham da bancada leixonense em direção a Albertino, o treinador, o húngaro Janos Hrotko, decidiu substituí-lo a 20 minutos do final. Até final da época, mesmo mantendo a titularidade, Albertino só fez mais três golos, dois deles na partida de despedida, um 3-2 à CUF que permitiu evitar a descida de divisão.

No Bessa, Albertino já não encontrou o treinador que quis contratá-lo, pois José Maria Pedroto respondeu ao chamamento de Pinto da Costa e foi para o FC Porto. Mesmo assim, chegou à seleção nacional, com a qual se estreou a 5 de Dezembro de 1976, ganhando por 2-1 em Chipre, no apuramento para o Mundial’78. E voltou a marcar ao FC Porto, numa vitória por 2-1 dos axadrezados que deu a certeza matemática do título ao Benfica, a três rondas do fim. Apesar de ter subido muito de produção com Caiado e depois Hagan (13 golos no campeonato, incluindo um hat-trick ao Estoril e um bis numa vitória de 3-1 sobre o Sporting, aos quais somou mais três na Taça de Portugal), Albertino não voltaria à seleção depois das duas internacionalizações na época de estreia pelo Boavista. E, mesmo tendo o recuo no campo levado à diminuição da sua produção goleadora, ganhou a Taça de Portugal de 1978/79 – 1-0 na finalíssima contra o Sporting – e acabou mesmo por ser uma das armas recrutadas por Pedroto para o ataque do FC Porto ao tri-campeonato que o clube nunca conseguira. Nas Antas, porém, apesar de um início fulgurante – foi titular pela primeira vez na vitória em Milão, por 1-0, que valeu a passagem à segunda eliminatória da Taça dos Campeões – nunca foi opção regular. Era a arma secreta que o FC Porto lançava quando queria virar jogos, como aconteceu na final da Taça de Portugal, perdida para o Benfica por 1-0, no Jamor, partida na qual jogou a segunda parte em vez de Rodolfo.

A perda de campeonato para o Sporting e Taça para o Benfica levou ao Verão Quente das Antas, com a saída de Pinto da Costa, Pedroto e de vários jogadores. Albertino ficou, mas não teve mais minutos de jogo com Herman Stessl, o austríaco que substituiu o mítico “Zé do Boné”. Marcou o golo da vitória (2-1) contra o Sporting em Alvalade, logo na primeira jornada, juntou-lhe um bis ao Belenenses na segunda, mas foi perdendo constância ao longo da época, que ainda assim, tendo em conta os poucos jogos em que participou, terminou com um total interessante de golos: sete. Não jogou a final da Taça de Portugal, mais uma vez perdida para o Benfica (3-1) nem o jogo da reviravolta na Supertaça (4-1 nas Antas depois do 0-2 na Luz, no qual tomou parte, em Dezembro de 1981). Restava-lhe, aos 32 anos, baixar o nível da exigência, pelo que se deixou convencer e foi jogar para o Marítimo treinado pelo homem que o levara para os seniores do Leixões: António Teixeira. Ainda fez dois golos – o último ao Salgueiros, num empate a uma bola, a 6 de Março de 1983 – e despediu-se do campeonato nas Antas, a perder com o FC Porto, por 3-0, a 17 de Abril. O Marítimo desceu de divisão e Albertino também. Ainda jogou um ano na Sanjoanense e outro no Leixões, tendo-se retirado aos 35 anos para ser treinador do Estarreja, no terceiro escalão. Chegou a ser treinador de I Divisão, no Sp. Covilhã, onde entrou em Fevereiro de 1988, com a equipa serrana bem destacada no último lugar do qual já não conseguiu tirá-la. O futuro de Albertino, contudo, não estava no futebol. Passou a dedicar-se mais à arte, sendo hoje um pintor consagrado e de muito sucesso.