Fazia golos com naturalidade e ajudou muito o V. Setúbal na altura em que os sadinos se implantaram na I Divisão. Saiu com uma descida, mas ainda viu de fora a glória do Vitória europeu
2016-01-21

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1949

Jogava como extremo, sobretudo pela direita, mas começou como avançado-centro, porque era uma máquina de fazer golos. Jogador habilidoso, foi uma das armas ofensivas mais importantes no tempo em que o Vitória de Setúbal lutava para se implantar na I Divisão, a década de 50. Já não estava na equipa das maiores conquistas, mas viu-a nascer e terá deixado muito de si próprio em campo para permitir o crescimento que, anos depois de Inácio se ter retirado para a Moita, levou ao nascimento do Vitória Europeu.

Natural da Moita, António Inácio da Silva fez parte da equipa do Futebol Benfica que jogou o campeonato da II Divisão, em 1947/48. Aos 22 anos teve a hipótese de ir jogar para o V. Setúbal e aproveitou-a. Demorou a entrar na equipa, no entanto. Estreou-se apenas a cinco jornadas do fim, a 20 de Fevereiro de 1949, estava o Vitória em penúltimo lugar e com apenas um ponto de avanço sobre o Boavista, que ocupava o lugar de descida. Na estreia, o jogo em casa com o Atlético, no qual ocupou o lugar de Vasco,  que fez logo um golo, contribuindo para a vitória por 5-1 que aliviava um pouco o clube da pressão da despromoção. E fez mais outro na jornada seguinte, ao Sporting, líder da tabela – ainda que o Vitória tenha perdido por 3-1. Um “hat-trick” na última jornada ao Boavista chegou-lhe para acabar o campeonato com cinco golos em outros tantos jogos e antecipar um final de época memorável, na Taça de Portugal, prova na qual marcou ao Portimonense (3-1), fez quatro dos oito golos do Vitória à Académica (8-1), participou na vitória sobre o FC Porto e só caiu nas meias-finais, perdidas por 5-0 contra o Benfica.

Inácio assumia-se como elemento importante na organização atacante do Vitória que Armando Martins montou para atacar a época de 1949/50. Jogava como avançado-centro e por isso acabou a época com nove golos, entre eles um ao Sporting, numa vitória por 3-1, a 12 de Fevereiro de 1950, que permitia ao Vitória fixar-se num importante quinto lugar. A equipa ainda caiu até à 10ª posição final, prenunciando o que estava para vir. Apesar de um bom início de época, Inácio desapareceu das escolhas do treinador antes do fim da primeira volta. A troca de Armando Martins pelo basco Pedro Areso também não ajudou, mas o que mais afetou o Vitória foi o caso de tentativa de suborno a jogadores do Oriental, na última jornada. O Vitória, que era último a duas jornadas do fim, começou por ganhar à Académica – no único jogo em que Inácio participou durante toda a segunda volta – mas mesmo assim entrou para o último dia a precisar de ganhar fora ao Oriental para assegurar que se salvava. Ganhou, mas foi acusado de entregar dinheiro a jogadores do adversário para facilitarem e acabou punido com suspensão de toda a atividade durante um ano. Uma enorme manifestação popular em Setúbal acabou por levar à redução da pena, mas ainda assim a equipa sadina foi condenada a disputar a II Divisão na temporada seguinte.

Regressou ao convívio dos grandes em 1952, depois de ter ganho a Zona Sul do segundo escalão. E Inácio voltou de pontaria afinada, marcando nas primeiras três jornadas, nas quais a equipa sadina ganhou ao Benfica – 2-1, com golo da vitória de Inácio a 4’ do fim – e ao FC Porto – 3-0, com Inácio a fechar a contagem. Ao longo da época, Inácio foi perdendo fulgor, mas ainda contribuiu com sete golos para o excelente sexto lugar do Vitória comandado por Janos Biri. O campeonato de 1953/54 correu pior ao Vitória – que o acabou em 12ºlugar – mas melhor a Inácio, que apesar de começar a ser desviado para extremo-direito pelo treinador húngaro, que tinha Mendonça para o centro do ataque, ainda o terminou com 12 golos. Com destaque para um bis ao Benfica, numa vitória por 5-3 em Outubro de 1953, e para os cinco golos que fez num só jogo, uma vitória por 7-1 contra o Boavista, em Maio. O Vitória aquecia para o que viria a ser uma ponta final de época fantástica, culminada com a presença na final da Taça de Portugal, perdida por 3-2 contra o Sporting. Inácio participou nos sete jogos da caminhada e ainda marcou ao Boavista, nas meias-finais.

A partir de 1955, porém, a irregularidade passou a sero maior problema de Inácio, que nem sequer jogou entre Fevereiro e Novembro. Biri dera lugar ao italiano Rino Martini, que chegou ao final da temporada em nono lugar, mas apenas com um golo (em sete jogos) de Inácio. O jogador da Moita apareceu mais com Umberto Buchelli, a partir de 1956/57, e até fez um golo ao Sporting, fundamental para eliminar os leões nos quartos-de-final da Taça de Portugal da primeira época do italiano. Só que o sonho de mais uma final caiu por terra quando o Vitória foi eliminado pelo Sp. Covilhã. Nas três épocas que lhe restaram antes de deixar o Vitória, aos 34 anos, Inácio voltou a ser importante. Despediu-se do campeonato a 29 de Maio de 1960, da mesma forma como tinha entrado: com um golo, desta vez ao Boavista. A derrota por 3-1, no entanto, condenou o Vitória à descida de divisão. Inácio retirou-se para a Moita, onde explorou uma bomba de gasolina e onde veio a falecer já na casa dos 80 anos.