Foi uma das Torres de Belém, fundamentais para a conquista do único título nacional do Belenenses, em 1946. E como treinador teve responsabilidade na formação de três gerações de craques no FC Porto.
2016-01-19

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1944

Olha-se para as imagens de Feliciano enquanto jogador e a primeira impressão que provocam é a de um gigante bonacheirão, capaz de contagiar toda a gente com a sua boa disposição. Foi uma das “Torres de Belém”, trio que formou com Vasco e o guarda-redes Capela na defesa do Belenenses e que se destacava pela estatura elevada. Aos companheiros, Feliciano juntava uma particularidade: jogava a sorrir. E isso, se não tornava as coisas mais fáceis, deu pelo menos registos gráficos à ideia de que o serrano que crescera na Casa Pia depois de ficar órfão de pai era feliz com a camisola azul. Fundamental no único título de campeão nacional do Belenenses, por lá ficou até se sentir a mais, recusando propostas financeiramente vantajosas. Depois, como treinador, ainda deu um grande contributo ao futebol nacional, formando várias gerações de talentos na escola do FC Porto.

Filho de um tintureiro de fazendas e de uma tecedeira da Covilhã, António Feliciano ficou órfão de pai aos seis anos. Com mais bocas para alimentar, a mãe conseguiu encaminhá-lo para a Casa Pia de Lisboa, onde começaram as aventuras do rapaz atrás de uma bola. Viram-lhe jeito para a coisa e entrou na equipa da Casa Pia, que na altura jogava a Série Extremadura da II Divisão, recebendo apenas o dinheiro para apanhar o elétrico a caminho dos campos. Ali, no entanto, não chamaria atenções. Só que havia a Taça de Portugal e ao Casa Pia coube em sorte defrontar o Benfica logo na primeira eliminatória. O jogo decorreu nas Salésias, campo do Belenenses que os gansos utilizavam porque o deles tinha sido destruído para dar lugar à Exposição do Mundo Português, nesse mesmo ano de 1940. E a vê-lo estava Alejandro Scopelli, o argentino que tinha pendurado as chuteiras para passar a ser apenas treinador do Belenenses e que andava numa ansiedade enorme porque ia perder Oscar Tarrio, o seu compatriota que tinha sido pioneiro na marcação individual em Portugal e se aprestava para regressar ao San Lorenzo. Ao ver Feliciano, Scopelli não teve dúvidas: “é este que quero!”

O problema é que também o FC Porto andava de olho em Feliciano. O rapaz, que tinha apenas 18 anos, chegou a estar 15 dias instalado na Pensão Alegria, no Porto, para assinar a ficha pelos dragões, mas, ao que depois veio a revelar, intimidado pela ideia de jogar com tantos craques – o FC Porto tinha sido campeão nacional – acabou por dar meia volta e por ir ter com Scopelli. A transferência fez-se, o Casa Pia recebeu três contos e a Feliciano arranjaram um emprego no Grémio dos Armazenistas de Mercearia, pelo qual receberia 300 escudos por mês. Conta-se que o novo recruta se estreou com a camisola azul num jogo que ficou na história: os 6-0 à CUF, no dia em que Horacio Tellechea fez os seis golos. No campeonato da Liga, porém, só entrou à quarta jornada, a 19 de Janeiro de 1941, numa vitória por 13-0 contra o Unidos de Lisboa. Como chutava forte com o pé esquerdo, nesse primeiro campeonato ainda fez dois golos, ambos de livre, nos 10-0 ao Boavista e num 3-2 ao Unidos de Lisboa. Titular absoluto na equipa que acabou o campeonato em terceiro lugar, foi ainda totalista na caminhada até à final da Taça de Portugal, perdida por 4-1 frente ao Sporting nas Salésias.

Foi mais feliz o Belenenses na final da Taça de Portugal de 1942, jogada no Lumiar contra o V. Guimarães. Quaresma e Gilberto fizeram os golos da vitória por 2-0 que deu o primeiro troféu a Feliciano, que nessa época alinhou em todos os jogos do Belenenses no campeonato e na Taça, bisando, desta vez com duas grandes penalidades, numa vitória frente ao Académico do Porto, por 4-2. Boa parte dos seus golos, aliás, eram de bola parada. Em 1942/43 voltou a marcar dois golos, um livre numa derrota (2-4) com o Benfica e um penalti num esclarecedor 5-0 com que o Belenenses arrasou o Sporting. E se a época de 1943/44 foi mais fraca, com o Belenenses a ficar-se pelo sexto lugar no campeonato nacional, teve a abrilhantá-la a vitória no campeonato de Lisboa, que se jogava no Outono e foi o primeiro prenúncio do que estava para vir: o título de campeão nacional de 1945/46. Antes, Feliciano teve a honra de ser chamado à seleção nacional. Estreou-se a 6 de Maio de 1945, numa derrota por 4-2 frente à Espanha, na Corunha e a viagem teve história. É que na comitiva ia a mulher de Peyroteo, que tinha acabado de se casar e aproveitou o jogo para fazer a lua de mel. A senhora ofereceu a Feliciano uma santinha, que o jogador, religioso, passou a usar em cada jogo, convencido de que o protegeria.

Terceiro classificado no campeonato de 1944/45, o Belenenses conseguiu o seu único título de campeão nacional em 1945/46, graças a uma vitória em Elvas, na última jornada. Feliciano, que só falhou dois jogos em toda a época, voltou a fazer dois golos e, finda a temporada, partiu de férias para a Galiza. Aí, encontrou o lendário Zamora, que quis levá-lo para o Celta de Vigo. Os espanhóis pagavam 200 contos ao Belenenses, mais outro tanto em luvas ao jogador pelo qual se tinham enamorado. A Torre de Belém ficou de pensar. No início da época, porém, voltou às Salésias para assinar a ficha por mais um ano. Os dois terceiros lugares que o Belenenses obteve nas épocas que se seguiram foram, para Feliciano, diferentes, pois em 1947/48 esteve em todos os jogos do campeonato, marcando cinco golos, entre eles um que foi fundamental para a vitória contra o Sporting, que haveria de ser campeão, por 3-2. Os duelos de Feliciano com Peyroteo eram um dos chamarizes para os adeptos do futebol e assim foi também na final da Taça de Portugal de 1948, em que o Sporting se impôs ao Belenenses por 3-1, com dois golos do seu avançado-centro.

Feliciano atingira o estatuto de intocável. Entre 8 de Junho de 1947 e 16 de Outubro de 1949 não faltou a um único jogo da equipa do Belenenses. Em 1951, porém, o Belenenses baixou do seu habitual terceiro lugar para uma dececionante nona posição. E em 23 de Março de 1952 o central serrano foi pela primeira vez expulso de campo, num jogo contra o Salgueiros: Braga Barros mandou-o sair para punir uma tentativa de agressão a um adversário, Campos. A entrada na casa dos 30 e a chegada ao Restelo de Fernando Riera para dirigir a equipa fez ver a Feliciano que estava a tornar-se parte da mobília. E assim que viu que não ia ser titular, pediu para ir embora. Despediu-se do campeonato a 16 de Maio de 1954, numa derrota por 2-1 contra o Atlético. Ainda fez a campanha da Taça de Portugal, que culminou com uma derrota por 6-0 contra o Sporting, no Jamor, a 20 de Junho. Na nova época fez as malas e seguiu para a Marinha Grande, onde se tornou jogador-treinador do Marinhense. O périplo pelo país que fez a seguir levou-o até locais tão díspares como Beja, Famalicão ou Chaves, até que em 1965 Pinto de Magalhães o convidou para coordenar a formação do FC Porto. De caminho, ainda foi adjunto de Fernando Riera, o treinador que o tinha encostado no Belenenses e que entretanto rumara ao FC Porto, e até dirigiu a equipa principal dos dragões em 1972, quando o brasileiro Paulo Amaral foi afastado.

Feliciano morreu em 2010, em Espanha, onde vivia, mas o seu amor à formação e o orgulho em ter moldado pelo menos três gerações douradas de jogadores que os dragões viram nascer fez com que tivesse pedido para ser cremado e para que as suas cinzas fossem espalhadas pelo Campo da Constituição, onde essas fornadas foram crescendo.