Há quem diga que foi o melhor guarda-redes português de todos os tempos. Seguro é que foi, pelo menos, o mais subversivo. Cinco vezes campeão pelo Sporting, fugiu do país ao intervalo de um jogo para escapar à PIDE.
2016-01-18

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1952

A subversão estava-lhe no sangue: tudo o que fosse poder lhe cheirava mal. E ele, provocador como poucos, não calava a revolta, antes a amplificava, a ponto de depois sofrer constantemente na pele as consequências dos sucessivos desvarios. Não foram só as passagens efémeras pelos calabouços da PIDE ou o rótulo de personagem incómoda que lhe colaram na testa a impedir Carlos Gomes de conhecer nos campos a honra que a sua imensa qualidade justificava. Deixou o Sporting e a selecção nacional aos 26 anos e fugiu do país aos 29. Até morrer, em Outubro de 2005, no mesmo Barreiro que o viu nascer, aquele que muitos consideram o melhor guarda-redes português de sempre foi sempre uma fonte permanente de polémicas.

Carlos António do Carmo Costa Gomes, que nasceu a 18 de Janeiro de 1932, em casa do avô materno, sempre quis ser guarda-redes. Seduzido pelo carácter individualista do posto maldito, o petiz vivia os dias de jogo atrás da baliza do Barreirense, para aprender com Francisco Silva, o ídolo a quem dava laranjas durante os desafios e com quem veio a partilhar o balneário entre 1947 e 1950, o curto período entre a sua chegada aos juniores do Barreirense e a saída para o Sporting. A ligação ídolo-criança manteve-a viva para todo o sempre, valendo-se Carlos Gomes dela um dia quando, já guarda-redes do Sporting e da selecção, entregou as luvas ao presidente leonino, que não queria deixar entrar sem pagar um magote de garotos que o veneravam – entre os rapazes estava Vítor Damas que, reza a lenda, terá nesse dia decidido o que queria ser quando fosse crescido.

O incidente com os miúdos não foi, contudo, o primeiro de Carlos Gomes no Sporting. No momento em que lhe disseram que o Barreirense e o Sporting tinham chegado a acordo para a sua transferência por 50 contos, ele, que até ouvira uns rumores acerca do interesse do Benfica, revoltou-se, disse que não era mercadoria e que queria ter voto na matéria. Conseguiu dessa forma aumentar a parte que lhe cabia no negócio, pois as “luvas” terão crescido de 10 para outros 50 contos, mas seguiu mesmo para o Sporting, em cujas reservas se estreou em Setembro de 1950. A baliza da primeira categoria, essa, pertencia ainda a Azevedo, colega com o qual nem a origem barreirense comum chegou para estabelecer boas relações. Carlos Gomes veio mesmo a dizer que nos dois anos que passaram juntos no Sporting nunca chegou sequer a dirigir a palavra ao “Tigre de Frankfurt”.

O primeiro jogo de Carlos Gomes pelo Sporting no campeonato foi a 19 de Novembro de 1950, uma vitória frente ao Estoril por 2-1, mas a época de estreia, que foi também a do primeiro dos seus cinco títulos nacionais, deu-lhe apenas quatro desafios na Liga e mais dois na Taça de Portugal, prova de que os leões saíram à primeira ronda, afastados pelo Belenenses. Quatro foram também os golos que Azevedo sofreu na abertura do campeonato de 1951/52, frente ao mesmo Belenenses. A 30 de Setembro de 1951 fez-se a passagem de testemunho: frente à Académica, Carlos Gomes tornou-se titular de pleno direito. A sua ascensão foi, a partir daí, fulgurante: campeão nacional em 1952, 53 e 54, falhou apenas mais um jogo nessas três temporadas, que foi uma derrota frente ao Boavista (0-3), a 3 de Fevereiro de 1952, com Tormenta na baliza. Nesse primeiro ano como titular jogou ainda a final da Taça de Portugal, no Jamor, o mítico 4-5 que favoreceu o Benfica. Consequência dessa ascensão e dos 9-1 que a seleção encaixou da Áustria, na qualificação para o Mundial de 1954, substituiu Barrigana na baliza nacional em Novembro de 1953. A estreia aconteceu aos 21 anos, chamado por Salvador do Carmo para um particular com a África do Sul, que Portugal venceu por 3-1.

Foi por essa altura que Carlos Gomes teve o segundo arrufo sério com os dirigentes do Sporting: foi ter com Góis Mota, ao mesmo tempo presidente do clube e figura do regime salazarista, para lhe pedir aumento. Afinal, ganhava os mesmos cinco contos por mês desde que chegara ao clube e já era titular, campeão e internacional. O dirigente disse-lhe que não e, de acordo com a versão tornada pública pelo próprio Carlos Gomes, na sua biografia, “O Jogo da Vida” (ed. A Regra do Jogo, 1984), ter-lhe-á mesmo perguntado: “Mas para que queres tu mais dinheiro? Para putas e automóveis?”. Começavam os problemas de Carlos Gomes com a autoridade, que o levaram a aventuras diversas: numa, foi detido e espancado pelos funcionários da PIDE que insultara no parque de estacionamento da polícia; noutra, foi preso por se rir de um discurso de Santos Costa, quando este recebeu uma selecção militar de que ele fazia parte; noutra ainda, foi suspenso da selecção por se ter recusado a juntar-se à comitiva que visitou o Papa. Haveria de voltar à selecção, para mais duas partidas, a última das quais em Maio de 1958, aos 26 anos, uma derrota por 2-1 com a Inglaterra, em Wembley. Estava, por essa altura, a despedir-se também do Sporting, que aceitou um milhão de pesetas para o vender ao Granada, de Espanha.

Para trás, Carlos Gomes deixava um percurso desportivamente rico. Totalista nos títulos nacionais de 1952/53 e 1953/54, esteve ainda na baliza leonina na final da Taça de Portugal desta última época, ganha por 3-2 ao V. Setúbal, depois de afastados Benfica, FC Porto e Belenenses durante a caminhada. Depois daquela derrota em Fevereiro de 1952, contra o Boavista, só voltou a falhar uma partida dos leões para o campeonato em Outubro de 1955, uma deslocação a Braga que os leões ganharam por 3-2, com Juan Santos nas redes. Por essa altura guardou ainda a baliza verde e branca no primeiro jogo da recém-criada Taça dos Campeões Europeus, um empate a três golos com o Partizan de Belgrado, no Jamor. Apesar de todos os problemas, voltou a ser campeão nacional na última época de leão ao peito, na qual só deixou o suplente Otávio de Sá fazer quatro partidas. Mas o caminho seguia em Espanha, onde depois do modesto Granada se passou para o Oviedo, equipa que andava pelo meio da tabela. Três anos depois, estava de volta a Portugal, com um convite do Salgueiros. Temendo que a proposta fosse um ardil que o levaria depois ao Benfica, o Sporting fez valer o seu direito de opção, mas nem assim voltou a tê-lo na baliza, porque não quis pagar-lhe o que ele entendia ser justo. É dessa altura a frase “No hay diñero, no hay portero”.

Carlos Gomes foi então suspenso de toda a actividade no clube e já se concentrava mais nos negócios: tinha uma bomba de gasolina, uma leitaria e uma loja de fotografia que haveria de desempenhar um papel fundamental na sua queda. Em 1961, já o Sporting acedera em deixá-lo jogar pelo Atlético, uma senhora que respondera a um anúncio de emprego para a loja acusou-o de violação. Ele sustentou que estava a ser vítima de uma cilada, montada pelo Sporting e pela PIDE, pelo que nunca acreditou que fosse capaz de provar a sua inocência em tribunal. Optou, por isso, por preparar a fuga, que concretizou num jogo com o V. Guimarães, a 21 de Janeiro de 1962: ao intervalo, com 2-2 no marcador, simulou uma lesão, foi substituído por Pinho e, já de noite, fez-se à estrada. Passou por Espanha mas só parou no Norte de África, onde obteve o estatuto de refugiado político, tendo sido jogador e treinador em Marrocos, na Argélia e na Tunísia.  Carlos Gomes, que só pôde voltar a Portugal em 1983, ainda viu um filho (Carlos Gomez) jogar três vezes na I Divisão pelo V. Setúbal, mas optou por viver em Viena quase até aos últimos dias.