Fez 16 épocas na I Divisão, onde jogou por Belenenses, FC Porto e V. Guimarães. Nos quase 400 jogos que fez, em qualquer posição do quarteto defensivo, foi duas vezes campeão e ganhou uma Taça de Portugal.
2016-01-17

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1969

Jogador polivalente, que cumpria o seu papel em qualquer das posições do quarteto defensivo, Alfredo Murça fez quase 400 jogos na I Divisão, representando apenas três clubes: Belenenses, FC Porto e V. Guimarães. Depois, prolongou a carreira até aos 39 anos nos escalões secundários e fez-se treinador, chegando a dirigir a equipa portista em períodos de interinato. E se jogou até tão tarde, morreu demasiado cedo, vítima de cancro quando ainda não tinha 60 anos. Duas vezes campeão nacional, representou a seleção e foi um dos grandes da sua geração, exemplo de profissionalismo e entrega que tanto agradava a José Maria Pedroto, o treinador que lhe deu os títulos a ganhar e o levou para Guimarães quando se viu suplantado nas Antas.

Alfredo Murça era o mais velho de cinco irmãos – um dos quais, Joaquim, também chegou a jogar na I Divisão – filhos de Esperança e Manuel Raul. O pai, pescador, tinha sido avançado do Pescadores da Costa da Caparica, a localidade onde os miúdos cresceram, e até encorajou o filho a tentar a sorte no clube. Não o quis a guarda-redes, que era a primeira inclinação de Alfredo, pelo que o rapaz começou como ponta-de-lança. Treinado por Albano, um dos “Cinco Violinos” do Sporting na década de 50, começou a destacar-se, a ponto de ver o seu nome recomendado ao Belenenses pelo influente Calisto Gomes. Chegado ao Restelo para a equipa de juniores, continuou a marcar golos, motivando o apetite da Sanjoanense, que quis levá-lo para Norte no Verão de 1968. Acabou por ficar e estreou-se com a camisola azul a 8 de Setembro, logo na primeira jornada do campeonato, lançado pelo basco Ángel Zubieta a 15 minutos do fim de um jogo com o Benfica, na Luz, para o lugar de Freitas. Foi ocupar a posição de defesa-central, a mesma que o viu evoluir na estreia a titular, no final desse mês, no empate a um golo frente ao Vitória, em Setúbal.

Titular absoluto desde Novembro até final do campeonato, Murça viu as exibições serem recompensadas com a chamada à seleção de esperanças que em Abril de 1969 defrontou a Inglaterra em Coventry. Só que Fernando Caiado, o selecionador, colocou-o a defesa esquerdo e, apesar da derrota pesada da equipa nacional, a ideia vingou na cabeça de Mário Wilson, que entretanto substituíra Zubieta nos Restelo. O jovem da margem sul do Tejo fixou-se como lateral na equipa que alcançou dois sétimos lugares na Liga, em 1970 e 1971, falhando apenas três jogos nesses dois campeonatos e ajudando a equipa azul a chegar à meia-final da Taça de Portugal na primeira das temporadas. Pelo meio, chegou à seleção principal. O palco foi o imponente Estádio de Wembley, onde a 10 de Dezembro de 1969 uma equipa portuguesa remendada pela ausência de vários titulares perdeu por 1-0 com a Inglaterra. Haveria de somar apenas cinco internacionalizações na seleção principal, a última das quais em Novembro de 1979, uma vitória sobre a Noruega no Jamor, mas ao longo da carreira foi sempre jogador a ter em conta pelos diversos selecionadores, tendo estado, por exemplo, como suplente não utilizado, na Mini-Copa de 1972.

Com a chegada de João Cardoso ao Restelo, em 1971, Murça voltou a mudar de posição: o brasileiro Zezé Moreira transferiu-o para o corredor direito da defesa. O jogador não se ressentiu e continuou a ser importante para a equipa, sobretudo depois da chegada de Alejandro Scopelli. Com o argentino aos comandos, o Belenenses cresceu e classificou-se mesmo em segundo lugar na Liga de 1972/73. Nessa época, em que falhou apenas um jogo de campeonato, Murça fez os primeiros golos da carreira senior – ele que fazia tantos quando era ponta-de-lança dos juniores. Estreou-se a 12 de Novembro de 1972, fazendo o segundo de uma vitória clara sobre o Leixões, no Restelo (4-0). E duas semanas depois repetiu a graça, em novo 4-0 dos azuis, desta vez face ao Beira Mar. A segunda posição trouxe a qualificação para a Taça UEFA, tendo Murça sido titular nas duas partidas frente ao Wolverhampton, em Setembro e Outubro de 1973. Outra vez os ingleses a apadrinharem-lhe uma estreia, outra vez com derrota, pois os do Restelo acabaram eliminados, depois de perderem por 2-0 em casa e por 2-1 no terreno do adversário. Ainda assim, foi Murça quem fez o golo azul em Inglaterra, logo aos 7’, fazendo pensar na hipótese de uma recuperação que não veio a verificar-se.

Totalista no campeonato de 1973/74, que o Belenenses acabou na quinta posição, Murça foi alvo de uma proposta de transferência vinda do FC Porto. E seguiu para o Norte com a família, onde o esperava uma equipa à procura de emancipação face a década e meia sem ser campeão nacional. Nas Antas, viu a estreia ofuscada pela de outro jogador: Gomes, que a 8 de Setembro de 1974 fez os dois golos de uma vitória por 2-1 sobre a CUF com que o FC Porto arrancava na Liga. Murça começou a época como defesa direito, a meio transitou para a esquerda, e teve ainda a oportunidade de vingar a eliminação do Belenenses na Taça UEFA anterior, alinhando nas duas partidas frente ao Wolverhampton que desta vez valeram ao FC Porto o apuramento, com um score global de 5-4. Os dragões foram segundos na Liga, apenas atrás do Benfica, mas deu-se nova mudança no comando técnico, com a chegada de Stankovic, que olhou para Murça e deu novo veredicto: defesa central. Foi a jogar ao meio que ele fez mais uma época a titular absoluto. Falhou apenas um jogo e marcou o primeiro golo num clássico, o célebre FC Porto-Sporting do nevoeiro, que os leões ganharam por 3-2 e em que os golos portistas foram obtidos por Murça e por um apanha-bolas colocado atrás da baliza de Damas.

Com a chegada de Pedroto às Antas, contudo, a vida de Murça mudou. Fixou-se definitivamente como lateral, entrando o recém-contratado Freitas para o centro da defesa. E, aos 28 anos, começou a ganhar títulos. Em 1976/77, foi a Taça de Portugal, em cuja final o FC Porto bateu o Sp. Braga por 1-0, no Estádio das Antas. E em 1977/78, época na qual fez todos os jogos dos portistas no campeonato, veio o primeiro título de campeão nacional. Foi ainda o ano do jogo mais infeliz da sua carreira sob o ponto de vista individual. Aconteceu em Old Trafford – outra vez a Inglaterra… – onde, a 2 de Novembro, os azuis e brancos se deslocaram para defender a vantagem de 4-0 que tinham conseguido na primeira mão. Valeram os dois golos de Seninho, porque Murça teve a infelicidade de fazer dois autogolos, contribuindo involuntariamente para que os ingleses marcassem cinco. O 5-2 permitiu a passagem da eliminatória, mas Murça terá deixado o relvado com um sentimento misto de alegria e frustração. A época foi boa para ele, porém. Fez três golos, dois deles irrelevantes a Feirense e Riopele, em duas “chapas seis” dos dragões no campeonato, mas um muito importante, pois valeu uma vitória por 1-0 frente ao Colónia, na Taça das Taças. E voltou à final da Taça de Portugal, desta vez no Jamor. Lesionou-se nesse empate a um golo como Sporting e já não pôde jogar a finalíssima, que os leões ganharam por 2-1 com arbitragem de Mário Luís, que dias depois seguiu com o adversário para um digressão à China.

Ao campeonato, seguiu-se o bicampeonato. Devido à lesão, Murça só esteve disponível a partir de Outubro, mas ainda foi importante na equipa que Pedroto levou a ganhar a segunda Liga consecutiva. Como o foi na tentativa de obter o tri, falhada em 1979/80 em benefício do Sporting. Lesionado na Póvoa de Varzim, na antepenúltima jornada, o jogador da Costa voltou, porém, a primar pela ausência na final da Taça de Portugal, que o FC Porto perdeu para o Benfica no Jamor. Veio depois o Verão Quente das Antas, com o afastamento de Pedroto e Pinto da Costa. Com o austríaco Herman Stessl, Murça não chegou a jogar em 1980/81. Chegou-lhe então o chamamento de Guimarães, onde tinha chegado Pedroto. E Murça mudou de camisola, assinando pelo Vitória aos 33 anos. Engana-se quem pensa que foi à procura de uma reforma no ativo, pois o lateral ainda alinhou em 24 jogos em cada uma das duas primeiras Ligas ali feitas – marcando, na primeira, um golo ao Sporting que viria a ser campeão nacional mas que, à conta desse golo, não ganhou em casa ao Vitória. Quarto classificado com Pedroto em 1982 e com Manuel José em 1983, Murça ainda manteve a importância quando à cidade-berço chegou Stessl. Em 1983/84 falhou apenas duas partidas na Liga e voltou a marcar dois golos, o último ao Benfica, a 29 de Abril, em pleno Estádio da Luz, quando já era ele, a meias com Djunga, o treinador-jogador. Despediu-se da I Divisão a 13 de Maio de 1984, com 36 anos, alinhando a tempo inteiro numa vitória por 1-0 frente ao Penafiel, mas ainda encontrou forças para jogar mais três épocas na II Divisão, a primeira no Leixões e as duas seguintes no Tirsense.

Assim que pendurou as chuteiras, assumiu a carreira de treinador. Dirigiu o Marialvas, na Zona Centro da II Divisão, antes de ser chamado às Antas para fazer parte da equipa técnica de Quinito, em 1988. O treinador setubalense não durou muito e, em Novembro, Murça via-se com a equipa nos braços. Dirigiu-a por três partidas, até à chegada de Artur Jorge, todas elas ganhas: 2-0 ao Vilafranquense e ao PSV Eindhoven e 1-0 ao Leixões. Continuou nas Antas por mais uns anos como adjunto, mas não voltou a ser chamado a cargos de perfil mais elevado, acabando por falecer prematuramente, vítima de cancro.