Dedicado à Académica por toda a carreira, Nini esteve na equipa que ganhou a primeira edição da Taça de Portugal e pendurou as chuteiras para casar e abrir uma farmácia em Olhão
2016-01-16

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1936

A história de Nini, interior esquerdo da equipa da Académica que ganhou a primeira edição da Taça de Portugal, é uma história de dedicação à Briosa. Por lá começou a jogar com 19 anos, quando se mudou para Coimbra para estudar farmácia, e por lá ficou até pendurar as chuteiras, aos 29 anos, para se casar e mudar-se para o Algarve, de onde era originária a mulher. Não quis jogar em mais nenhum clube. Nem quando, no auge, tentaram convencê-lo com ofertas de dinheiro; nem quando, já a viver em Olhão, os dirigentes locais lhe pediram que reconsiderasse para jogar no Olhanense.

Natural de Viseu, Nini começou a jogar futebol no Lusitano de Vildemoinhos, que por aqueles tempos dominava a modalidade na região, como avançado-centro. Quando se mudou para Coimbra, para prosseguir os estudos e licenciar-se em farmácia, passou a jogar na Académica, por influência de Flávio de Matos, ex-colega de liceu. Ali, porém, a vaga de avançado-centro estava ocupada por Rui Cunha e Albano Paulo, o treinador da Briosa, adaptou-o a interior esquerdo. Ainda assim, fez três golos no jogo de estreia, um 8-0 ao Nacional, a 25 de Outubro de 1936. O grau de dificuldade não era muito, mas à chegada do campeonato da Liga, em Janeiro de 1937, Nini manteve a titularidade e a posição. Estreou-se na Liga a 10 de Janeiro, pouco menos de uma semana antes de fazer 20 anos, com uma derrota por 7-2 frente ao Sporting no Campo Grande. E apesar da juventude foi totalista nesse campeonato, que a Académica terminou em quinto lugar, marcando seis golos, entre os quais se contaram um bis ao FC Porto e outro ao Leixões. No Campeonato de Portugal, prova que antecedeu a Taça de Portugal, fez até um “hat-trick”, na vitória por 4-1 frente ao Boavista.

Valor seguro na equipa da Académica, Nini voltou a ser totalista na segunda época, que os estudantes terminaram em sexto lugar. Fez mais dois golos, ao Carcavelinhos e ao Benfica, seguindo ainda até ás meias-finais do Campeonato de Portugal, onde a maior capacidade dos encarnados de Lisboa falou mais alto. Tudo mudou em 1938/39. Outra vez quinta na Liga – e Nini desta vez faltou a um jogo –, a Académica foi eliminando toda a gente na recém-criada Taça de Portugal até chegar à final, precisamente contra o Benfica. O viseense, que tinha feito um hat-trick na vitória contra o Académico do Porto, foi dos que subiu ao Campo das Salésias para a vitória por 4-3 que ainda hoje é celebrada pelos adeptos de Coimbra. Era o primeiro troféu nacional da Académica, que se refletiu depois na chamada de alguns dos vencedores à seleção que se deslocou a Paris para defrontar a França, em Janeiro de 1940. Alberto Gomes, colega de Nini na linha avançada de Coimbra, jogou nessa partida que os portugueses perderam por 3-2, mas Nini ficou a ver de fora, perdendo nesse dia a oportunidade de se tornar internacional português.

Veio mais tarde a dizer que o selecionador, Cândido de Oliveira, lhe teria afirmado que para jogar na seleção teria de se mudar para um dos clubes grandes, mas Nini nunca o quis, apesar de ter chegado a ser convidado. Por isso continuou vestido com o negro da Académica. Contribuiu com três golos – dois deles a Sporting e Benfica – para o sexto lugar de 1939/40 e com mais quatro – para a quinta posição de 1940/41. Em 1941/42 a Académica não deu o salto, repetindo o quinto lugar final, mas Nini desatou a marcar golos: chegou aos onze na Liga, incluindo um hat-trick ao Académico do Porto e um belo tento em jogada individual numa vitória por 3-1 contra o Benfica. A 8 de Março de 1943, sofreu a primeira lesão grave da sua carreira, depois de marcar um dos golos na derrota da Académica frente ao Benfica, no Campo Grande. A equipa de Severiano Correia, que já tinha empatado no terreno do FC Porto e ganho por 4-2 ao Sporting, ressentiu-se da sua ausência e passou cinco jogos sem ganhar. Acabaria a época em sexto lugar. O viseense voltaria na última jornada, mas na época seguinte já não teve a mesma continuidade: ainda fez quatro golos no campeonato, somando-lhes o único póquer da sua carreira em competições nacionais – num 7-1 ao Salgueiros, para a Taça de Portugal, a 23 de Abril – mas a equipa já lutava pela manutenção, em vez de fazer cócegas aos grandes. Nini saiu com um golo no último jogo que fez para o campeonato: a 9 de Dezembro de 1945, marcou ao Atlético na jornada inaugural, mas o seu golo não evitou a derrota academista por 3-2. Casou e mudou-se para Olhão, terra da mulher, que conhecera num baile que antecedeu uma visita da Académica ao Algarve, já não estando entre os que lutaram bravamente para conseguir a manutenção na I Divisão. No Algarve, abriu uma farmácia e fez vida, mas sempre longe do futebol. “Depois da Académica, não poderia haver mais clube nenhum onde jogasse”, explicou mais tarde, em entrevista a “A Bola”.

Veio a falecer em Fevereiro de 2006 e o futebol não se esqueceu dele, reservando-lhe um minuto de silêncio a anteceder um Académica-Sporting.