O antigo guarda-redes de Atlético, Torreense e CUF já foi muitas vezes lembrado pelos acontecimentos do famoso caso-Calabote. Mas antes tinha estado numa final da Taça de Portugal. E depois, como treinador, levou o Boavista da terceira à I Divisão.
2016-01-15

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1955

Guarda-redes de nível médio no panorama do futebol nacional durante a década de 50, Gama ainda é hoje lembrado por muitos como o guarda-redes da CUF na tarde do célebre caso-Calabote. Mas pode uma tarde infeliz apagar uma carreira? A resposta deste lisboeta, que já tinha estado numa final da Taça de Portugal com a camisola do Torreense, só foi dada mais tarde, enquanto treinador, quando conseguiu levar o Boavista da terceira à primeira divisão em dois anos. Passou a ter, pelo menos, mais uma razão para que os adeptos do futebol o recordassem.

Lisboeta, Gama cresceu no Atlético à sombra de Ernesto e Correia, os dois guarda-redes que iam dividindo as balizas alcantarenses entre eles. Durante duas épocas, foi-se limitando, por isso, aos jogos de reservas. Estreou-se na Liga a 17 de Setembro de 1950, lançado pelo espanhol Pedro Areso na jornada inaugural do campeonato, mas a derrota por 4-1 frente ao Olhanense fê-lo voltar ao patamar inferior, numa época em que o Atlético acabou em quarto lugar, logo atrás de Sporting, FC Porto e Benfica. Já viu mais ação em 1951/52, participando em cinco partidas entre Outubro e Novembro – seriam seis, se a receção ao Barreirense não tivesse sido adiada devido ao mau tempo – até perder a titularidade para Correia, na sequência da derrota por 5-2 frente ao Sporting. Os alcantarenses escaparam à descida por um lugar, mas apesar de ter sido promovido a segundo na hierarquia das balizas, Gama continuava sem jogar com a regularidade e depois de apenas dois jogos em 1952/53 decidiu sair, indo à procura de uma oportunidade no Torreense, que jogava na II Divisão mas tinha discutido a subida até ao fim com o Oriental.

Na primeira época em Torres Vedras, o Toreense não subiu por diferença de golos – ficou em segundo lugar, com os mesmos pontos da CUF. Na segunda, ganhou a Zona Norte e sagrou-se mesmo campeão do torneio final, à frente do Caldas. Gama regressava à I Divisão, mas agora como titular. E teve um regresso de arromba, com três vitórias sem sofrer golos nas primeiras três jornadas, contra Lusitano de Évora (2-0), Sporting (1-0 na Tapadinha, que ele tão bem conhecia) e Académica (2-0). Os torreenses acabaram a época num confortável sétimo lugar e Gama só falhou uma partida, a derrota em casa frente ao Sp. Covilhã, por 4-2. No final do campeonato, foi também totalista na campanha da equipa liderada por Oscar Tellechea até à final da Taça de Portugal, que incluiu mais uma vitória sobre o Sporting (outra vez 1-0, desta vez no Campo das Covas) e outra sobre o Belenenses (3-2, na Tapadinha). A 27 de Maio de 1956, Gama estava entre os postes do Torreense para a final da Taça, jogada no Jamor contra o FC Porto. Perdeu por 2-0 (bis de Hernâni), mas o jogo fica como uma marca na carreira deste guarda-redes, que manteve a importância no clube. Em 1956/57 voltou a falhar apenas um jogo em mais um sétimo lugar que o Torreense obteve na Liga – derrota por 3-0 contra o Barreirense – e a marcar presença em mais uma campanha honrosa na Taça de Portugal, da qual a equipa grená saiu eliminada pelo Benfica mas só ao terceiro jogo, depois de empatar a uma bola em Torres Vedras e a duas no recém-construído Estádio da Luz.

Essa campanha na Taça de Portugal assinalou a despedida de Gama do Torreense. No Verão de 1957 estava a jogar na CUF. Começou como suplente de José Maria, mas ganhou-lhe o lugar em Outubro, a tempo de participar na vitória sobre o FC Porto (2-1) e num empate com o Sporting (3-3), no Barreiro. A equipa fabril escapou à descida por três pontos e a época seguinte já foi mais dividida entre Gama e José Maria, com o epílogo no famoso jogo com o Benfica. Tudo aconteceu na última jornada. Benfica e FC Porto discutiam o título por diferença de golos, os dragões jogando com o Torreense em Torres Vedras e o Benfica recebendo a CUF. No fim, o FC Porto ganhou por 3-0 e foi campeão, mas só depois de alguma espera, porque o jogo dos encarnados só acabou uns largos minutos mais tarde, com vitória benfiquista por 7-1, num caso que levou à irradiação do árbitro Inocêncio Calabote, que nessa tarde assinalou três penaltis a favor da equipa. Antes desse final dramático, houve outro caso: o da substituição do guarda-redes da CUF. Com a goleada a avolumar-se, na segunda parte, Cândido Tavares, treinador da equipa barreirense, trocou Gama por José Maria, ao que se escreveu a pedido dos próprios colegas de equipa, abrindo caminho a especulações. “Embora não seja seu costume falhartantas jogadas, creio na honestidade de Gama”, disse no final o treinador, que justificou a substituição com um pedido feito pelos outros jogadores. “Além disso ele estava muito nervoso e mostrava sintomas de total desorientação”, acrescentou.

Gama pediu para ser ouvido pela direção do clube e continuou na CUF, que acabara a Liga em 11º lugar, escapando mais uma vez à despromoção. Mas em 1959/60 perdeu a titularidade para José Maria, fazendo apenas três partidas no campeonato. Despediu-se a 17 de Janeiro de 1960, dois dias depois de ter feito 31 anos, com uma derrota em casa frente ao Leixões, por 3-1. Só voltou a ouvir-se falar dele quando assumiu a carreira de treinador. Trabalhou em clubes como o Torres Novas ou o Portimonense e fez-se notar no Boavista, em cuja equipa pegou em 1967, na terceira divisão, conseguindo duas subidas consecutivas, até deixar o clube no escalão principal. Aqui chegado, ainda dirigiu os axadrezados nas primeiras dez jornadas de 1969/70, acabando por ser demitido em Novembro de 1969, após uma derrota frente à CUF (ironia…), que deixava a equipa no último lugar da tabela. Gama não voltou a treinar na I Divisão, vindo a falecer aos 84 anos, não sem antes ter visto o Boavista – de que ficou a gostar – ser campeão nacional, sabendo que as primeiras pedras do edifício tinha sido ele a colocá-las.