Formado no Benfica, Rui Bento acabou por ser bicampeão nacional com as camisolas do Boavista e do Sporting. Eriksson chamava-lhe "Piccolo Baresi", mas foi a meio-campo que teve mais reconhecimento.
2016-01-14

1 de 14
1990

Chegou de Silves, no Algarve, para jogar nos juvenis do Benfica e, apesar de não ter sequer um metro e oitenta, foi como defesa-central que Rui Bento se sagrou campeão mundial de juniores, num Estádio da Luz a abarrotar de sentimento pela seleção de Carlos Queiroz. Compensava a falta de estatura com velocidade e um raro sentido posicional e de desarme, atributos que levaram Sven Goran Eriksson, o treinador que o lançou nos seniores, a chamar-lhe o “Pequeno Baresi”. Não ficou muito tempo no Benfica, porém, o que não o impediu de se sagrar duas vezes campeão nacional, no Boavista e no Sporting, os outros dois clubes que lhe preencheram a carreira, boa parte dela feita a meio-campo.

Algarvio, Rui Bento começou a jogar nos infantis do Silves. Ali chamou a atenção dos olheiros do Benfica, que o chamaram para a equipa de juvenis, em 1987. Simultaneamente, entrou no crivo que Carlos Queiroz montava, sobretudo com base nos Torneios Inter-Associações e já fez parte da equipa nacional que se sagrou vice-campeã europeia de sub-16, em 1988. Quando se entrava naquela família das seleções jovens, o sucesso ficava mais próximo e Rui Bento foi andando de mãos dadas com ele: repetiu o segundo lugar no Europeu de sub-18 em 1990, garantindo desde logo a entrada no plantel sénior, que na época seguinte ia continuar a trabalhar às ordens de Sven Goran Eriksson, regressado de Itália. A concorrência para o centro da defesa era feroz. Havia Ricardo Gomes, William, mas ainda Paulo Madeira e Samuel, pelo que o jovem Rui pouco pôde jogar: estreou-se a 13 de Março de 1991, como médio-defensivo, numa vitória do Benfica no Bonfim frente ao V. Setúbal (3-2) a contar para a Taça de Portugal, mas Eriksson tirou-o ao intervalo, para lançar Isaías de forma a forçar o ataque. Mesmo tendo ido algumas vezes para o banco, não fez um único minuto no campeonato, que os encarnados haveriam de ganhar. A glória dessa época só a conheceu em Junho, quando com a atípica camisola 11 nas costas, formou com Jorge Costa a dupla de centrais que haveria de renovar o título mundial de sub-20 para Portugal.

O estatuto de campeão mundial de juniores deu-lhe força na reivindicação de um lugar no grupo com o qual Eriksson haveria de atacar o bi-campeonato. Ricardo Gomes saiu para o Paris St. Germain, Samuel para o Boavista, pelo que Bento, Paulo Madeira e Valido ficaram como lugar-tenentes de William na defesa do campeão nacional. O jovem algarvio só foi titular em Outubro e num jogo de menor responsabilidade: a receção ao Hamrun Spartans, que o Benfica já goleara por 6-0 na primeira mão, em Malta. Aí, ainda jogou à direita, mas logo a seguir, frente ao Marítimo, Eriksson deu-lhe um lugar ao lado de Paulo Madeira no centro da defesa. E Rui Bento impôs-se como central, alinhando, entre outros jogos, na muito festejada vitória frente ao Arsenal, em Londres, que garantiu a entrada na fase de grupos da Liga dos Campeões. Consequência disso e da renovação que Carlos Queiroz estava a levar na seleção principal, estreou-se na seleção A a 20 de Novembro, formando com Fernando Couto a dupla de centrais que encerou, contra a Grécia (vitória por 1-0) a fase de qualificação para o Europeu do ano seguinte. Ponto negativo da época, só mesmo a expulsão frente ao FC Porto, na Luz, por derrubar Rui Filipe, quando este seguia isolado para a baliza de Neno – do correspondente penalti nasceu o primeiro golo de uma vitória portista por 3-2 que permitiu à equipa de Carlos Alberto Silva alargar a vantagem no topo da tabela e praticamente assegurar que ia tirar o título de campeão ao Benfica.

Ainda assim, face ao volume de utilização na época, quando entrou para um jogo em Penafiel, a 10 de Maio de 1992, Rui Bento estaria longe de imaginar que aquela seria a sua última camisola do Benfica. No Verão, foi envolvido na transferência de João Pinto para a Luz, cabendo-lhe percorrer o caminho inverso e assinar pelo Boavista. No Bessa tornou-se de imediato indiscutível para Manuel José, que muitas vezes o utilizou como líbero num esquema de três centrais. Foi o que aconteceu, por exemplo, na Supertaça, ganha em duas mãos (2-1 e 2-2) ao FC Porto, ou na final da Taça de Portugal, em que o Boavista foi arrasado pelo super-Benfica de Paulo Sousa, Rui Costa, João Pinto e Futre (2-5). Rui Bento só falhou dois jogos nessa época, por lesão, tornando-se uma das principais armas do Boavista que acabou o campeonato em quarto lugar. Assim continuou na seguinte, com mais um quarto lugar e a chegada aos quartos-de-final da Taça UEFA, de onde o Boavista só caiu em Março, frente ao Karlsruher, depois de eliminar a Lazio, ou em 1994/95, onde, contudo, a equipa axadrezada não passou do oitavo lugar na tabela final. Em 1995/96, além do regresso do Boavista ao quarto lugar no campeonato, Rui Bento teve ainda mais dois marcos. Primeiro, a estreia a marcar no campeonato: foi no Bessa, num 4-0 ao Felgueiras, a  de Março de 1996. E depois a convocatória para a seleção nacional que esteve nos Jogos Olímpicos de Atlanta, obtendo um quarto lugar que só não foi devidamente valorizado pela forma como acabou a campanha: derrotas por 2-0 com a Argentina de Zanetti, Ortega e Crespo na meia-final e por 5-0 com o Brasil de Ronaldo, Bebeto, Aldair e Roberto Carlos no jogo de atribuição da medalha de bronze.

A saída de Manuel José do Besa, nesse Verão de 1996, veio mexer com a carreira de Rui Bento. Zoran Filipovic começou por sacrificá-lo e depois uma lesão prolongada fez com que Mário Reis, que veio substituir o montenegrino quando as coisas começaram a correr mal, montasse a equipa com base noutros jogadores. Ainda assim, Rui Bento voltou de forma consistente para as últimas jornadas do campeonato e para a fase decisiva da Taça de Portugal, alinhando a meio-campo na meia-final ganha ao Sporting (3-2, após prolongamento) e na final em que os axadrezados se impuseram ao Benfica (outra vez por 3-2). Menos utilizado em 1997/98, Rui Bento voltou a ser peça-chave da equipa que Jaime Pacheco começou a montar no final dessa época. O segundo lugar alcançado em 1998/99 – época na qual o algarvio só falhou dois jogos, por castigo – era já um sinal do que estava para vir. E o que estava para vir era uma campanha meritória na Liga dos Campeões de 1999/00, época em que o Boavista deu um passo atrás no campeonato (quatro lugar) para depois dar um outro, gigantesco, em frente, quando se sagrou campeão nacional de 2000/01.

Campeão nacional no Bessa, para surpresa do país, Rui Bento foi alvo da ofensiva de mercado que o Sporting fez nesse Verão e acabou por assinar pelo clube de Alvalade. Ali, formou com Paulo Bento uma dupla de médios de trabalho e rigor na marcação que permitia que a equipa de Laszlo Bölöni soltasse depois os criativos – Pedro Barbosa, Hugo Viana, João Pinto, Quaresma, Jardel, Niculae – no ataque. O resultado foi a dobradinha: campeonato ganho com cinco pontos de avanço sobre o Boavista e vitória na final da Taça de Portugal frente ao Leixões (1-0), jogo no qual esteve muito perto do golo, ao acertar com uma bola na barra da baliza de Ferreira. Rui Bento ainda manteve a proeminência na segunda época de Bölöni, mas o Sporting foi incapaz de ultrapassar os problemas pessoais que acabaram com Jardel e ficou muito aquém do rendimento apresentando antes. Rui Bento ainda ficou mais uma época como jogador, despedindo-se a 17 de Abril de 2004, no Bessa, num jogo entre as duas equipas que lhe deram os dois títulos nacionais: com o Sporting em inferioridade numérica e a ganhar por 1-0, entrou a 9 minutos do fim para o lugar de Silva, mas não foi capaz de ajudar a equipa a aguentar o resultado, pois o Boavista ainda virou para 2-1. Rui Bento enveredou então por uma carreira de treinador no Académico de Viseu. Desde então, já orientou o Beira Mar e o Tondela na I Divisão, tendo ainda Passado pela seleção nacional de sub17 e por clubes na Arábia Saudita e na Tailândia.