Era um avançado veloz e criativo, dono de um drible imprevisível, mas ficou a dever um lugar na história a várias proezas improváveis, como o hat-trick ao Manchester United, pelo Sporting, ou a Taça de Portugal ganha ao FC Porto, nas Antas, pelo Leixões.
2018-03-13

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1957

Desde criança que Osvaldo Silva teve de aprender a driblar a fortuna. Era um de onze irmãos, nascido numa família de parcos recursos e se ganhou nome no futebol foi ao mesmo tempo que ganhava a vida como serralheiro mecânico. Quando chegou a fama, mais em Portugal do que no Brasil, de onde foi resgatado por Dorival Yustrich, era daqueles que acreditava sempre nas vitórias, por mais improváveis que elas fossem. Campeão nacional no FC Porto e no Sporting, vencedor da Taça de Portugal nestes dois grandes mas também no Leixões, esteve em algumas das mais épicas remontadas da história do futebol nacional, pontuando-as sempre com golos em nome próprio.

O Osvaldo Silva futebolista começou a destacar-se no Pompeia FC, clube amador da zona leste de Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais. Foi lá que Dorival Yustrich, ex-treinador do FC Porto, o descobriu, levando-o com ele para o América FC, em 1956, quando depois de ter sido campeão em Portugal insultou o presidente do clube e foi despedido. Sucede que não tardou até que o técnico e o clube português fizessem as pazes: Yustrich regressou ao FC Porto em 1957 e trouxe com ele aquele avançado habilidoso, capaz de jogar como interior ou extremo e de maravilhar com dribles, mudanças de velocidade ou passes de morte. Osvaldo Silva estreou-se de azul e branco a 22 de Setembro, no Campo das Covas, em Torres Vedras, com uma vitória por 1-0 sobre o Torreense, marcando ele mesmo o golo da vitória. Aliás, marcaria nos três primeiros jogos pelo novo clube: os outros dois foram o 5-1 ao Salgueiros nas Antas e um 1-0 ao Vitória FC, em Setúbal, com golo numa jogada individual que dissipou logo ali as dúvidas de que era mesmo craque.

Com Jaburu em perda, acabou o primeiro campeonato com doze golos marcados, marca que no clube foi superada apenas pelos 14 de Hernâni. E o FC Porto ficou à beira de ser campeão, pois acabou a prova com os mesmos pontos do Sporting e, a seis jornadas do fim, até estava na frente. Aí, no seguimento de um 5-0 ao Oriental, nas Antas, deu-se a bronca: Yustrich, sempre excessivo, quis que os jogadores fossem agradecer o apoio aos adeptos, mas Hernâni, que se dava mal com o técnico, recusou-se. Os dois acabaram ao soco e foram suspensos, tendo o treinador sido substituído por José Valle. Osvaldo Silva, bem como os compatriotas Lito e Zeca, faltaram ostensivamente ao primeiro treino após a substituição do “Homão”, a alcunha pela qual era conhecido Yustrich. É verdade que puderam continuar a jogar – tudo se resolveu com um pedido de desculpas – mas, sem Hernâni, a equipa perdeu as duas saídas seguintes, 1-2 no terreno do Barreirense e 2-3 frente ao SC Braga, e acabou por perder também o campeonato para o Sporting, pela diferença de golos.

Ainda assim, já com Otto Bumbel – outro brasileiro, que no campeonato dirigira o Lusitano de Évora – no banco, o FC Porto acabou por vencer a Taça de Portugal. Osvaldo Silva fez apenas um golo na caminhada até à final do Jamor – nos 3-0 ao Sporting, nas meias-finais –, mas foi titular na decisão, ajudando o FC Porto a ganhar por 1-0 ao Benfica. Com Hernâni, já reintegrado a fazer o golo decisivo. A equipa tinha qualidade, como veio a verificar-se logo na temporada seguinte, já com Béla Guttman aos comandos. O FC Porto voltou então a ser campeão nacional, mas seja por que razão for, Osvaldo Silva nunca foi aposta firme do novo treinador – e o jogador chegou depois a sustentar que alguém “envenenou” o técnico húngaro a seu respeito, acusando-o de ser a “maçã podre” do balneário. O mineiro ainda começou a campanha que conduziu á conquista do campeonato como titular, marcando três golos nas primeiras nove jornadas, mas após o empate em casa com o Benfica (0-0, a 9 de Novembro), só jogou mais três vezes. Na Taça de Portugal, cuja final os dragões perderam contra o Benfica, nem um minuto de utilização. O veredicto estava tomado e nem a saída de Guttman, precisamente para liderar os encarnados o alterou: dispense-se.

Foi a sorte do Leixões, que com ele ficou. José Valle, que já o conhecia da sua curta passagem pelo FC Porto, fez dele pedra basilar da equipam e só abdicou dele em dois jogos, um deles por lesão. E Osvaldo respondeu com golos e assistências: marcou nos dois jogos ao Sporting, por exemplo, e esteve nos empates ante o FC Porto (2-2 no Campo de Santana) e o Benfica (1-1 na Luz). A segunda época, porém, foi memorável. As dificuldades no campeonato mantiveram-se: o Leixões repetiu o oitavo lugar, assegurando a manutenção a três jornadas do fim, com uma vitória por 3-1 sobre o Lusitano de Évora (duas assistências de Osvaldo Silva). Nessa altura já a equipa era comandada pelo argentino Filipo Nuñez, mas foi ainda José Valle quem assistiu ao momento de catarse de Osvaldo Silva, no Campo de Santana, a 8 de Janeiro de 1961: um golo ao FC Porto, a dar a vitória ao Leixões (3-2, depois de os portistas terem estado em vantagem por 2-0), com um potente remate do meio da rua. Diz a lenda que Osvaldo Silva terá ido atirar a camisola para o banco do FC Porto.

Bem mais importante, porém, seria outra vitória sobre o FC Porto, a da final da Taça de Portugal. Alhandra, Caldas SC, Vitória de Guimarães, União da Madeira e Belenenses foram todos ficando pelo caminho, num percurso em que o Leixões cedeu apenas dois empates em dez jogos. Osvaldo Silva fez seis golos até à final, dois deles na importante vitória caseira (3-2) sobre o Belenenses. Sendo a final disputada entre duas equipas do Porto, a FPF decidiu autorizar a mudança de local e conta-se que foi até o Leixões a pedir para que se jogasse nas Antas. Era uma forma estratégica de aumentar a responsabilidade do adversário, que no fim dos 90 minutos se vergou a uma das mais inesperadas surpresas de toda a história do futebol português: 2-0 para o Leixões, que ergueu a Taça entregue pelo Presidente da República, Américo Thomaz, e se qualificou para a recém-criada Taça das Taças.

A aproximar-se dos 30 anos, Osvaldo Silva ia ficando mais goleador. Em 1961/62 fez 16 golos no campeonato, entre os quais o seu primeiro “hat-trick” em Portugal (nos 5-0 ao Salgueiros). Juntou-lhe mais cinco na Taça de Portugal (e novo “hat-trick”, agora ao Sacavenense), prova de que o Leixões saiu nos quartos-de-final. E marcou cinco na Taça das Taças, com duas proezas: bisou na recuperação épica (de 2-6 na primeira mão para os 5-0 da segunda) frente aos suíços do La Chaux de Fonds e fez golos a todos os adversários (dois aos romenos do Progresul e um aos alemães do Motor Jena, na eliminação caseira, já nos quartos-de-final da prova). Já era demasiado para o Leixões conseguir segurá-lo: o Sporting duplicou-lhe o ordenado, de dois para quatro contos/mês, juntou 200 contos de luvas e Osvaldo Silva rumou a Sul, para vestir de verde-e-branco no verão de 1962.

Em Alvalade, repetiu os 16 golos do último campeonato, tornando-se jogador fundamental para Juca, que o utilizou nos 41 jogos oficiais dos leões na época: os 26 de campeonato, mas também os onze da Taça de Portugal (com cinco golos e presença na final, ganha por 4-0 ao Vitória de Guimarães) e os quatro da Taça dos Campeões Europeus. Os leões acabariam o campeonato num frustrante terceiro lugar, a dez pontos do Benfica, mas começavam ali a epopeia da sua única vitória internacional: a Taça das Taças de 1963/64. Osvaldo Silva só entrou na equipa em Dezembro de 1963, ainda fez cinco golos no campeonato, mas a sua maior ligação à época leonina tem a ver com a noite de 18 de Março de 1964, cinco dias depois de ter festejado os 30 anos. Os leões tinham perdido por 4-1 em Manchester, com o United, na primeira mão dos quartos-de-final (e o golo leonino tinha sido dele). Dez dias depois, o empate em casa com o Olhanense, que deixava a equipa a sete pontos do Benfica, com cinco jornadas apenas por jogar, levou a que estalasse o chicote: Gentil Cardoso foi substituído por Anselmo Fernández, que preparou a equipa para o que se esperava fosse a despedida europeia também. Mas não. Com um “hat-trick” de Osvaldo Silva, o Sporting goleou o Manchester United por 5-0 e continuou em prova.

Esta podia ter sido a época da fortuna do brasileiro, que depois de fazer o golo da vitória (1-0) frente ao Olympique de Lyon, na terceira partida das meias-finais, em Madrid, viu o presidente do clube francês oferecer-lhe cinco mil contos para se mudar para lá. “Dava para comprar quatro prédios na Avenida de Roma”, constatou Osvaldo Silva, que continuou a cumprir contrato com o Sporting. Ainda esteve na final e na finalíssima da Taça das Taças (3-3 e 1-0 frente aos húngaros do MTK Budapeste), mas a pouco e pouco a sua chama foi-se apagando. Em 1964/65, já mais a meio-campo, ainda foi quase sempre titular, mas o quinto lugar final do Sporting na tabela pedia mudanças. Daí que a época de 1965/66 tenha sido a sua última como jogador dos leões: ainda foi campeão na equipa montada por Juca, mas contribuiu com apenas sete jogos e um golo, ao Varzim, a 2 de Janeiro de 1966. Despedir-se-ia da I Divisão duas semanas depois, a 16 de Janeiro, com uma derrota (2-3) em Guimarães.

O “Fu-Manchu”, como ficou conhecido devido à semelhança com o protagonista do filme “Os Tambores de Fu-Manchu”, muito em voga na altura, partiu para o Brasil, onde representou a Portuguesa do Rio, regressando em 1968 para ser treinador-jogador de equipas mais modestas, como o Académico de Viseu (que conseguiu manter na II Divisão) ou o Olhanense (que ainda promoveu do terceiro ao segundo escalão). Encerrou a carreira no FC Avintes, no distrital do Porto, antes de regressar ao Sporting, onde foi durante muitos anos um dos mais emblemáticos treinadores da formação, responsável pela evolução de muitos dos talentos que o clube viu nascer nas últimas décadas. De caminho, ainda lhe caiu nos braços a equipa principal em duas ocasiões, em 1974. Primeiro, na sequência do desentendimento entre a direção e Mário Lino, já foi ele quem dirigiu a equipa na final da Taça de Portugal, ganha ao Benfica. Depois de rendido pelo argentino Alfredo Di Stéfano, teve de o substituir após a derrota na primeira jornada (0-1 com o Olhanense) e a posterior deserção do treinador principal, aguentando a equipa até à chegada de Fernando Riera.