Aos 18 anos era titular do Real Saragoça e jogava ao lado de Kiko, Alfonso ou Guerrero na seleção espanhola de sub21. Depois, as coisas não lhe correram tão bem, o que o obrigou a procurar os escalões inferiores ingleses e a Liga portuguesa.
2018-03-11

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1992

Uma vida na estrada, a honrar a tradição cigana, é o legado deixado por Jesus Seba ao futebol. Chegou a ser um dos mais promissores atacantes espanhóis da sua geração, mas uma lesão grave aos 19 anos e as limitações inerentes ao serviço militar fizeram-no perder o comboio. A única carruagem disponível foi uma aventura folclórica na III Divisão inglesa e, depois de falhar o regresso a Saragoça, em Portugal. Por cá, tanto no GD Chaves como no Belenenses, encontrou a estabilidade para voltar a mostrar o seu futebol, mas não para lhe garantir um final de carreira tranquilo no regresso a Espanha.

Tudo começou com pompa e circunstância bem diferentes do anonimato com que se retirou, aos 36 anos, nos regionais. A camisola, porém, era a mesma: a azul-grená do CD Oliver. Um de seis irmãos, Jesus jogava à bola nas ruas do bairro de Miralbueno, em Saragoça, quando foi visto por Mariano Galícia, um dos responsáveis daquele que era o segundo clube mais forte da cidade em termos de camadas jovens. Não ficou lá muito tempo. Aos 16 anos, passou para o Real Saragoça, a maior potência desportiva de Aragão. Começou imediatamente a jogar nos sub19 e, a 25 de Outubro de 1992, tinha ele 18 anos e idade de júnior, uma onda de lesões no ataque do plantel principal levou Victor Fernández a chamá-lo para uma deslocação a San Sebastián. Frente à Real Sociedad de Carlos Xavier, sem Higuera e Esnaider, foi mesmo titular no ataque, ao lado de Pardeza, no empate a uma bola.

A partida correu bem a Seba, que na jornada seguinte repetiu a titularidade, na derrota caseira contra o Real Madrid (0-1), e a 3 de Novembro fez os seus primeiros golos – logo dois – na estreia europeia, um 5-1 frente aos dinamarqueses do Frem. Seguiu-se mais um, ao CD Tenerife, na Liga, o que foi valendo a Seba manter-se no topo. Chegou à seleção de sub21, partilhando o ataque com futuros craques, como Kiko ou Alfonso. Na noite europeia foi entrevistado pelo mítico programa de rádio de José Maria García e dias depois estava num programa de televisão com as Mamachicho, uma trupe de bailarinas sexy muito em voga em Espanha por aquela altura. Em Março de 1993, porém, uma rotura dos ligamentos do tornozelo, num jogo de Taça do Rei com o Real Oviedo, atrasou-lhe a carreira. Só voltou para a final da competição, a 26 de Junho, substituindo Moisés a 18 minutos do final, pouco antes Lasa fazer o 2-0 que deu o troféu aos madridistas. E a época seguinte, que culminou com a conquista da Taça do Rei, já não o viu em, tão grande destaque. Culpa do serviço militar obrigatório, que lhe tirava o repouso nas noites e por isso mesmo o foi afastando das primeiras escolhas.

A única saída foi mesmo a saída para o Villarreal CF, à data a jogar na II Divisão espanhola. E como aí, devido a uma pubalgia, o destaque também não foi enorme, Seba chegou a um impasse do qual saiu de forma inesperada. David Whelan, dono da JJB, uma cadeia de lojas de produtos desportivos, comprou o Wigan Athletic, por esse tempo na III Divisão inglesa, e lembrou-se de contratar jogadores espanhóis como forma de levar o clube até ao topo. Paul Hodges, um dos responsáveis da JJB em Espanha, ficou encarregue de encontrar os craques e aconselhou três: Roberto Martínez (atual selecionador da Bélgica, depois de ter treinado o Wigan e o Everton), Isidro Diaz e Jesus Seba. Os três primeiros espanhóis do futebol inglês ficaram conhecidos como os “Three Amigos”, em referência à comédia de Steve Martin, passada no México. “Jesus is a wiganer”, cantava-se nas bancadas, onde os adeptos deliciados passaram a deslocar-se usando “sombreros” e empunhando bandeiras de Espanha.

Seba marcou um golo na primeira vez que tocou na bola com a camisola do Wigan, num jogo particular de pré-temporada, fez outro na primeira partida oficial em Springfield Park, contra o Scunthorpe, mas acabou por ser, entre os três, aquele que pior se adaptou. Tudo porque foi o que teve mais dificuldades com a língua inglesa. O Wigan não subiu naquela época e o treinador que lá chegou em 1996 acabou por dispensá-lo. Seba ainda tentou regressar ao Real Saragoça, no mercado de Inverno de 1996/97, mas tinha claramente perdido andamento. Em ano e meio, alinhou uma vez apenas pela equipa principal, no encerramento da Liga desse ano. Passou toda a época de 1997/98 na equipa B e achou que tinha de dar a volta à carreira. Foi assim que apareceu o GD Chaves, logo do outro lado da fronteira com Portugal.

Logo no primeiro jogo na Liga portuguesa, a 23 de Agosto de 1998, fez o golo da vitória da equipa transmontana sobre a Académica (1-0). O GD Chaves acabou por descer de divisão, mas os dez golos marcados por Seba garantiram-lhe a continuidade entre os grandes: finda a temporada, assinou pelo Belenenses. Em Lisboa, na equipa comandada por Vítor Oliveira, o espanhol fez uma boa primeira época, falhando apenas uma partida e marcando mais oito golos na Liga. No final da temporada, porém, o azar voltou a bater-lhe à porta: foi-lhe diagnosticado um problema cardíaco, que lhe punha a carreira em risco. Não era um problema congénito, os médicos até achavam que devia ter sido originado por um choque em campo, mas tinha de ser tratado com cuidado. Seba foi operado nos Estados Unidos e só voltou a jogar em Janeiro de 2001. O clube até fez uma época tranquila, mas ele ficou-se pelos dois golos, já na ponta final da temporada, a prometer regressar em grande no ano seguinte.

O espanhol, contudo, nunca mais voltou a ser primeira escolha regular para Marinho Peres e, após uma época sem golos, quase sempre a sair do banco na ponta final das partidas, decidiu voltar a Espanha. Pensava ele que conseguiria jogar na I Liga e fazer um bom contrato, mas não foi possível. Seba ainda jogou um ano no Orihuela e dois no Palencia, sempre na II Divisão B, antes de se tornar a estrela e capitão do Andorra CF, na III Divisão. Já estava no principado dos Pirenéus quando teve a honra de ser chamado a representar a seleção de Aragão na primeira partida que a equipa daquela comunidade autonómica disputou: foi em 2006 e, com ao lado de jogadores como o futuro sportinguista Zapater e o futuro benfiquista Capdevila, Seba ajudou os aragoneses a baterem o Chile por 1-0.

A carreira de Seba aproximava-se do final sem um grande contrato que lhe permitisse cumprir o sonho de dizer ao pai para deixar o trabalho como servente de pedreiro. Outro sonho, mais simples, cumpriu-o: em 2009, com 35 anos, voltou a vestir a camisola do CD Oliver, o clube onde tudo começou. “Estive em muitos clubes, mas acima de tudo sou jogador do Oliver. Foi aqui que comecei e aqui acabarei”, disse na ocasião Seba, que em 2013, envolto num caso de fraude com seguros, chegou a estar preso em Espanha. Roberto Martinez, um dos “Three Amigos”, deu-lhe depois uma mão, ao entregar-lhe tarefas de olheiro em Espanha para os clubes onde foi trabalhando – primeiro o próprio Wigan, depois o Everton.