Tornou-se figura do futebol português graças a um golo que quase todos festejaram mas poucos conseguiram ver: uma jogada de autor, em Aberdeen, a colocar o FC Porto na sua primeira final europeia. Futre e depois Madjer acabaram-lhe com a festa.
2018-03-09

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1980

O futebol na televisão, no início dos anos 80, não era como é hoje: a imagem não era nítida e às vezes jogava-se com pouca visibilidade. Mas nem o facto de o mais famoso golo da carreira de Vermelhinho ter passado claramente ao lado da realização televisiva do Aberdeen-FC Porto, em 1984, impede quem o “viu” de o descrever com clareza: no meio do nevoeiro escocês, o extremo de São João da Madeira pegou na bola ainda no seu meio-campo, ultrapassou um primeiro adversário em velocidade, viu chegar o internacional McLeish, driblou-o para dentro e, à saída do guardião Leighton, fez-lhe um chapéu monumental, ainda a uma distância considerável da baliza. Com este golo, o FC Porto ganhava por 1-0 no terreno do detentor da Taça das Taças e apurava-se para a final da competição, onde viria a ser batido pela Juventus (1-2). Vermelhinho ganhava um lugar na história e, antes disso, na seleção nacional que foi jogar o Europeu de 1984, deixando apeado, por exemplo, o emergente Futre.

Vermelhinho já não era um miúdo, nessa noite de Aberdeen. Já tinha feito os 25 anos, mas a sua chegada à ribalta do futebol nacional era recente. Os primeiros anos de carreira fê-los entre a segunda e a terceira divisões, com as camisolas da Sanjoanense e do CD Paços de Brandão. A importância no ano da subida do clube da sua terra, em 1979/80, levou-o a conseguir dar o salto para uma equipa com outras aspirações: assinou pelo Recreio de Águeda e tornou-se um dos goleadores da Zona Centro. A equipa liderada pelo magriço Hilário não conseguiu a subida de divisão, mas Vermelhinho passou a dezena de golos em cada um dos dois campeonatos que por lá passou. Pedroto, que estava sempre atento a jovens jogadores promissores na sua zona de intervenção, não o deixou escapar e Vermelhinho foi uma das aquisições da época de regresso do Mestre às Antas.

Mas uma coisa era chegar lá e outra, bem diferente, era jogar. Na primeira época de azul e branco, Vermelhinho só alinhou durante 12 minutos: aos 3-0 no marcador, a 20 de Fevereiro de 1983, Pedroto fê-lo entrar para o lugar do seu conterrâneo Sousa, numa partida da Taça de Portugal frente ao SC Espinho, nas Antas. Os espinhenses ainda reduziram para 3-1, mas não terá sido por isso que o treinador não lhe deu mais oportunidades naquela temporada. Aquele era o período de adaptação a uma nova realidade. E à segunda época Vermelhinho acabou por responder da melhor forma. As lesões quase simultâneas de Walsh e Costa, em Novembro de 1983, deram uma ajuda, mas Vermelhinho soube agarrar a oportunidade. Estreou-se na I Divisão rendendo Gomes a 20 minutos do fim de uma vitória caseira sobre o Portimonense (2-0), a 27 de Novembro. Quatro dias depois estava entre os titulares na sofrida vitória em Mangualde (1-0), para a Taça de Portugal. E se é verdade que em jogos de campeonato só assumiu o lugar no onze titular em meados de Dezembro, agarrou-o com unhas e dentes até final da época, dando um forte contributo para um excelente final de época.

Já com Pedroto acamado e António Morais a comandar a equipa no banco, Vermelhinho foi figura na segunda metade da época portista. No campeonato ainda fez dois golos, o primeiro dos quais a garantir uma suada vitória em Guimarães, a 4 de Março de 1984. Na Taça de Portugal juntou-lhes mais quatro, um deles na final, resolvida com um retumbante 4-1 ao Rio Ave, e outro num difícil prolongamento ante o Torreense, em Torres Vedras, que acabou com 1-0 para o FC Porto. E houve ainda dois golos muito saborosos. Além do que garantiu a presença na final da Taça das Taças, na Escócia, já profusamente descrito atrás mas que pode tentar ver neste link (https://www.youtube.com/watch?v=WKLSUkEWj7o), o primeiro golo de Vermelhinho pelo FC Porto deu um troféu: foi a 14 de Dezembro de 1983, ao Benfica, no Estádio da Luz, e estabeleceu um 2-1 que chegou aos dragões para garantirem a Supertaça.

Apesar da derrota na final de Basileia, frente à Juventus, Vermelhinho ainda foi a tempo de garantir um dos 20 bilhetes para a fase final do Europeu de 1984. Estreou-se com a camisola da seleção nacional a 2 de Junho de 1984, no Jamor, com uma derrota (2-3) num particular frente à Jugoslávia, mas acabaria por não jogar depois em solo francês. Aliás, depois desse desafio de preparação, Vermelhinho só voltaria a jogar pela seleção A mais uma vez, a 12 de Setembro de 1984, quando entrou a 3 minutos do fim para ajudar a garantir a vitória na Suécia (1-0) com que os portugueses abriram a fase de qualificação para o Mundial de 1986. Por essa altura, estava Vermelhinho a contas com uma nova empreitada: em resposta às saídas de Jaime Pacheco e Sousa para o Sporting, o FC Porto tinha ido buscar Futre a Alvalade. E se o esquerdino do Montijo assumiu o lugar perto de Gomes no ataque, a Vermelhinho nada mais restou do que recuar um pouco no campo, para ajudar a compor a intermediária na equipa que passava a ser liderada por Artur Jorge.

A resposta dada foi positiva: esta acabou mesmo por ser a temporada de maior utilização e com mais golos de Vermelhinho pelo FC Porto. Foi convocado para as 30 partidas de campeonato e, mesmo tendo saído do banco oito vezes, sobretudo na segunda fase da época, só não jogou em quatro jornadas. Coroou o seu primeiro título de campeão nacional com sete golos, aos quais juntou mais dois na Taça de Portugal (derrota na final com o Benfica) e outros dois na Supertaça ganha aos encarnados ao fim de quatro jogos. Só na frustrante campanha europeia – saída da Taça das Taças logo à primeira ronda, frente aos modestos galeses do Wrexham – ficou em branco. A questão é que, na busca por melhorar sempre a equipa, o FC Porto fez chegar Madjer. O argelino apareceu em Outubro de 1985, num jogo com o Belenenses, no Restelo, e isso veio tirar espaço a Vermelhinho, que só foi titular mais duas vezes até ao final dessa época. Ainda fez um golo (precisamente nesse jogo do Restelo) na campanha que permitiu aos portistas chegar ao bicampeonato, mas esse foi, com outro, em Águeda, para a Taça de Portugal, um dos dois únicos da sua época.

Vermelhinho estava claramente a perder espaço, como se viu na época de 1986/87, em que os portistas ganharam a Taça dos Campeões Europeus. Afastado dos relvados durante boa parte da temporada – estreou-se apenas em Março, em Portimão – ainda alinhou numa partida rumo à glória europeia, o que lhe permite incluir o nome entre os membros da epopeia de Viena. Foi titular nos 2-1 ao poderoso Dynamo Kiev, nas Antas, a 8 de Abril de 1987, vendo depois a vitória na URSS do banco. Finda a época, porém, Tomislav Ivic não contava com ele e ao esquerdino de São João da Madeira mais não restava a não ser a cedência. Optou pelo GD Chaves de Raúl Águas, onde formou com o búlgaro Zdravkov um ataque temível e de grande mobilidade. Fez nove golos nesse campeonato – o seu melhor total na I Divisão –, onde falhou apenas uma partida, em casa com O Elvas. Jogou duas vezes contra o FC Porto, perdendo ambas, mas acabou a temporada sem perder com Benfica (1-0 em Chaves e 1-1 na Luz) ou Sporting (1-1 em Trás-os Montes e 0-0 em Lisboa) e com mais dois golos europeus, ambos aos romenos do Universitatea Craiova.

O rendimento em Chaves levou-o à seleção olímpica, que nessa época fez uma série de jogos particulares. Quinito, que chegou ao FC Porto em 1988, aprovou o regresso de Vermelhinho às Antas, mas ele é que não voltou a conhecer o fulgor da primeira passagem. Ainda fez quatro golos, o último dos quais a 16 de Abril de 1989, valendo uma vitória por 1-0 frente ao GD Chaves. Despedir-se-ia dos portistas a 21 de Maio, quando Artur Jorge – que entretanto voltara de Paris – o chamou à segunda parte do jogo com o Sporting com que se encerrava o campeonato. De 0-0 ao intervalo, o jogou passou para 3-0, tendo Vermelhinho feito a jogada do segundo golo e marcado o canto que deu o terceiro. No fim da época, porém, veio a notícia da dispensa. Ao extremo sanjoanense ainda sobrou mais um ano na I Divisão, com a camisola do SC Braga de Vítor Manuel. A época não foi famosa, pelo que a derrota por 3-1 em Santa Maria da Feira, a 29 de Abril de 1990, acabou por ser a sua despedida do escalão principal. Apesar do resultado, os bracarenses garantiram nessa tarde a permanência, a três jornadas do fim do campeonato. Já Vermelhinho seguiu para o segundo escalão.

Aos 31 anos, assinou pelo SC Espinho de Manuel José. E depois de uma época a meio da tabela da II Divisão de Honra nos tigres, ainda regressou à Sanjoanense, para fazer quatro campeonatos na II Divisão B. Retirou-se em 1995, com 36 anos.