Passou três anos no Marítimo um dos mais reputados ponta-esquerda do futebol brasileiro da década de 80. Décio de Abreu, o Esquerdinha, ficou na história por comemorar os golos com um beijo na bota e por um feitio difícil.
2018-03-07

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1981

Muita da afirmação do Marítimo como clube de I Divisão em Portugal, na década de 80, passou pela contratação de craques no Brasil. Décio de Abreu, um talentoso médio e extremo-esquerdo que chegou a ser figura da Portuguesa e a figurar nas convocatórias de Evaristo de Macedo para o escrete, até foi dos mais constantes, com três épocas sempre regulares. Faltava-lhe equipa, no entanto, e ele acabou por regressar a casa cansado das constantes lutas para evitar descer de divisão. Durou até aos 40 anos em campo, mas já sem o fulgor dos primeiros tempos e sem voltar a clubes de topo.

Só mesmo a falta de circulação de informação, naquela época, terá impedido que a chegada de Esquerdinha a Portugal fosse anunciada com pompa e circunstância. O canhoto paulistano nem sempre tinha sido um tipo de fácil trato, pois a impulsividade tratara de lhe refrear o talento com expulsões mais ou menos constantes. Mas os últimos anos antes de assinar pelo Marítimo, em 1988, tinham revelado mais maturidade e permitiram-lhe converter-se numa das figuras da Portuguesa dos Desportos. Em 1985, quando chegou à “Lusa” e participou na conquista do vice-campeonato paulista, chegara mesmo a figurar nas convocatórias de Evaristo de Macedo para a seleção que se preparava para jogar a qualificação para o Mundial do México. Não chegou a jogar oficialmente, mas ali abundavam as feras.

Esquerdinha tinha sido um caso de talento precoce, tão frequente no Brasil. Revelado nas categorias inferiores do Palmeiras, onde se converteu em figura da equipa de juniores, estreou-se na formação principal em 1981, com apenas 19 anos. No primeiro jogo, a crítica elegeu-o logo como melhor em campo, mas a verdade é que a via para se afirmar no “Verdão” era dura e Esquerdinha não soube trilhá-la, vitimado pelos excessos de personalidade próprios da idade. Estagnou e, em 1984, após duas épocas muito intermitentes, acabou emprestado ao Santo André. Ali o viram os responsáveis da Portuguesa, que quando o Palmeiras mostrou interesse em Mendonça, um médio criativo, pediram em troca aquele indomável ponta-esquerda que já não contava para os responsáveis palmeirenses.

A entrada na Portuguesa de Jair Picerni, futuro técnico do Nacional da Madeira, foi imponente. A equipa da comunidade lusa de São Paulo foi a mais pontuada na fase regular do campeonato paulista, mas acabou por perder a final, com o São Paulo FC de Careca, Falcão e Silas, em dois jogos disputados no Morumbi: 1-3 na primeira mão, 1-2 na segunda. Esquerdinha marcou o golo da Portuguesa no segundo jogo, acorrendo a cabecear um centro de Toquinho ao segundo poste, e celebrou como sempre fazia: beijou a bota esquerda. Tanto com Picerni como, depois, com a chegada ao clube de René Simões – outro treinador que passaria pelo futebol português – Esquerdinha foi um dos homens de melhor rendimento da Portuguesa. “Para pará-lo, só com dois zagueiros”, regozijava-se Cláudio Adão, o ponta-de-lança que tantas vezes foi servido da esquerda pelo futuro jogador do Marítimo.

Foi por isso com espanto que a Portuguesa o libertou para o Marítimo, na sequência do Paulistão de 1988. Esquerdinha chegou no Verão a Portugal e a 28 de Agosto estreou-se no campeonato nacional, entrando para o lugar do defesa-central Carlos Jorge a 25 minutos do final de um jogo no terreno o Académico de Viseu, no qual o treinador Ferreira da Costa tentava desfazer o 0-0. Não o conseguiu, mas o canhoto paulista já foi titular da equipa a 11 de Setembro, na receção ao Farense, que os insulares ganharam por 2-0. E uma semana depois, no Restelo, fez o seu primeiro golo com a camisola verde-rubra do Marítimo. Foi mesmo a findar a primeira parte, a colocar os insulares a vencer o Belenenses por 2-0, mas quando os azuis reduziram, a 25 minutos do fim, Esquerdinha saiu. E o jogo acabou empatado a duas bolas.

Na primeira época, Esquerdinha viria a fazer mais dois golos, em Penafiel e em Guimarães, em dois jogos que curiosamente também acabaram empatados. Esteve ainda nos empates caseiros com Benfica e FC Porto e nos dois empates com o Sporting, um nos Barreiros e outro em Alvalade, fechando a época, que o Marítimo terminou em 12º lugar, como um dos mais utilizados por Ferreira da Costa e, depois, por Quinito. A chegada de Wando, outro extremo-esquerdo, veio criar-lhe mais dificuldades em 1989/90, época que Esquerdinha começou lesionado, só entrando nas escolhas a partir do Natal. Nessa altura, Ferreira da Costa – que voltara a comandar os verde-rubros – acabou por colocar o ex-benfiquista como elemento livre do ataque, dando o corredor esquerdo a Esquerdinha, que falhou apenas uma das últimas 21 jornadas, ajudando a consolidar o 10º lugar final. Antes de ele entrar na equipa, o Marítimo era 15º e via a despromoção como possível.

As batalhas pela permanência foram uma constante na passagem do extremo brasileiro pelo nosso campeonato. Na terceira época, o Marítimo voltou a ser décimo. Com a chegada de Paulo Autuori, em finais de Setembro, Esquerdinha arrancou para a sua melhor época de sempre em Portugal: falhou apenas um jogo de campeonato (a derrota nas Antas com o FC Porto, por 3-1) e acabou a prova com seis golos no ativo. Despediu-se a 26 de Maio de 1991, com uma vitória por 2-1 em faro que valeu a manutenção – a linha de água ficou a um ponto. Terminado este campeonato e o contrato que o ligava ao Marítimo, Esquerdinha regressou ao Brasil. Ali, porém, não voltou a jogar num grande clube, passando sucessivamente por várias formações sem expressão até se retirar, em 2001, com 39 anos, ao serviço do Grêmio Sãocarlense. Encetou então uma carreira de treinador, primeiro nas camadas jovens da Portuguesa, mais tarde como responsável máximo da Juventus paulista (em 2010) ou do Serrano (em 2011).