Médio da equipa do Sporting que conquistou o tetra-campeonato na década de 50, viu uma lesão acabar-lhe com a carreira aos 28 anos e tornou-se o mais jovem treinador campeão da história do futebol português.
2016-01-13

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1949

Chegou a Lisboa no mesmo dia que Mário Wilson, seu colega de viagem de Moçambique para a metrópole, e estreou-se na I Divisão, pelo Sporting, contra o Lusitano de Vila Real de Santo António, em Outubro de 1949, num desafio que também abriu as portas do campeonato a José Maria Pedroto. Com os dois parceiros, Júlio Cernadas Pereira tornar-se-ia, duas décadas e meia mais tarde, um dos nomes dominantes do panorama técnico do futebol em Portugal. Juca, como era conhecido, perdeu para António Oliveira, Luiz Felipe Scolari e Paulo Bento o título oficioso de técnico com mais jogos aos comandos da seleção nacional mas mantém ainda um recorde dificilmente igualável: foi, aos 33 anos e quatro meses, o mais jovem treinador a sagrar-se campeão nacional. Antes, mesmo tendo visto a carreira precocemente interrompida por lesão, tivera tempo para ganhar cinco campeonatos a jogar no meio-campo de um Sporting onde os violinos eram outros.

Nascido a 13 de Janeiro de 1929 em Lourenço Marques, hoje Maputo, em Moçambique, Juca tinha queda para o basquetebol. No futebol, começou tarde e como guarda-redes, na filial local do Sporting. Um dia, faltou um defesa central e o treinador avançou-o no terreno. O extraordinário jogo de cabeça, aliado a uma condição atlética impressionante, permitiram-lhe impor-se na nova posição e ser chamado a representar o Sporting da capital. A 9 de Outubro de 1949, Alexandre Peics deu-lhe a vaga de médio direito da equipa leonina que iria começar a atacar o tetra-campeonato. Os leões estiveram a perder até aos últimos dez minutos contra o Lusitano de Vila Real de Santo António, mas ainda ganharam por 3-1, graças a três golos de rajada. Juca é que saiu do onze, voltando apenas na segunda volta, já com a equipa em perseguição ao Benfica, que acabou por se sagrar campeão. Ainda fez dois golos, ao Estoril e ao V. Guimarães, mas nem assim se tornou titular indiscutível. Em 1950/51, primeira época de Randolph Galloway no Lumiar, ganhou o seu primeiro título de campeão nacional, mas jogou em apenas metade dos jogos do campeonato, ainda assim com o acrescento que foram os dois jogos da Taça Latina contra o Lille. E em 1951/52, ainda com o treinador inglês, foi bicampeão, mas a jogar ainda menos vezes. Vingou-se na Taça de Portugal, cuja caminhada fez a tempo inteiro até à final, perdida por 5-4 contra o Benfica.

Só na equipa que conquistou o segundo tricampeonato para os leões, em 1952/53, Juca se impôs como titular indiscutível. Falhou apenas três partidas nessa caminhada e o destaque que assumiu na equipa valeu-lhe a chamada à seleção, com cuja camisola se estreou a 23 de Novembro de 1952, num empate a uma bola contra a Áustria, nas Antas. Na seleção, porém, nunca foi regular: fechou a série de seis jogos por Portugal em Junho de 1956, face à Hungria. Podia gabar-se, contudo, de ter perdido apenas um desses jogos, em 1956, no Jamor, por 1-0, contra um Brasil que ainda não tinha Pelé mas já apresentava Gilmar, Djalma e Nilton Santos e Didi.

Voltando ao Sporting, ganho o campeonato de 1952/53, Juca voltou a ser figura regular na equipa que obteve o primeiro tetra da história do futebol português, em 1954, já com o húngaro Joseph Szabo aos comandos. Falhou apenas um jogo, calhando ser um dos três que os leões perderam na caminhada – 2-0 frente ao Belenenses – e assinalou o título com dois golos nos dois jogos contra o Lusitano de Évora. No final da época, participou ainda em todos os jogos que levaram à conquista da Taça de Portugal pelos verde-e-brancos, alinhando na final, ganha por 3-2 ao V. Setúbal. Juca manteve a proeminência na época seguinte, mas o Sporting baqueou na busca do penta-campeonato. Esteve no famoso jogo do Restelo, em Abril de 1955, em que um golo de Martins, nos últimos minutos, fez o empate a duas bolas, tirando ao Belenenses o título que os azuis já festejavam e entregando-o de bandeja ao Benfica, que à mesma hora ganhava em casa ao Atlético. E marcou ainda presença na final da Taça de Portugal, ganha pelos encarnados, por 2-1, depois de o Sporting se ter colocado em vantagem.

O Sporting dos violinos tinha ficado para trás. Na equipa que, por convite, participou a 4 de Setembro de 1955 no primeiro jogo da história da Taça dos Campeões Europeus, contra o Partizan (empate a três golos), já faltavam Peyroteo, Jesus Correia e Albano – estavam Travaços e Vasques, bem como Juca, que nessa época teve a última temporada de utilização plena. Fez os 26 jogos do Sporting num campeonato que os leões acabaram em quarto lugar, a sete pontos do FC Porto, sendo ainda totalista nas campanhas da Taça de Portugal e na Taça dos Campeões e obtendo a honra suprema de ter feito o golo inaugural do Estádio José Alvalade, em Junho de 1956, contra o Vasco da Gama. Em Janeiro de 1957, porém, uma lesão forçou-o a interromper a carreira de futebolista. Tentou regressar em Dezembro, fazendo mais quatro jogos que lhe permitiram juntar mais um título de campeão nacional ao palmarés, mas o corpo ressentiu-se. O Juca futebolista acabava ali, a 5 de Janeiro de 1958, numa vitória por 3-2 contra o Belenenses. Aos 28 anos, iniciava a carreira de treinador ocupando-se dos juniores do Sporting. E em Outubro de 1961, na sequência dos problemas com Otto Glória, foi chamado a liderar a equipa principal.

O brasileiro, eliminado da Taça dos Campeões pelo Partizan, abriu o campeonato a empatar em casa com o Lusitano de Évora e queixou-se da qualidade da equipa: “Não posso fazer omeletas sem ovos”. A direção dispensou-o e Juca arrancou para 13 jogos sem perder, festejando, no último dia, o título com uma vitória sobre o Benfica. Campeão nacional aos 33 anos e quatro meses, fixou um recorde ainda por bater (Mourinho foi campeão aos 40, Eriksson aos 35 e André Villas-Boas aos 33 anos e sete meses) e prosseguiu para ganhar a Taça de Portugal de 1962/63. Um dia depois de vencer o V. Guimarães no Estádio Nacional, soube da contratação do brasileiro Gentil Cardoso e saiu. Regressou ao Sporting três vezes: em 1964, como adjunto (1964 a 66), técnico principal (1975/76, para um modesto quinto lugar) e diretor do departamento técnico (anos 90). E embora tenha obtido quintos lugares na Académica e no Belenenses, foi na seleção que Juca mais trabalhou. Selecionador em três períodos (de 1977 a 78, de 1980 a 82 e de 1987 a 89) nunca se qualificou para uma fase final (embora nos casos do Mundial de 1978 e do Europeu de 1988 tenha pegado na equipa já à espera de um milagre) mas acumulou um total de 40 jogos, recorde até às passagens de António Oliveira, Luís Felipe Scolari e Paulo Bento pela equipa mais representativa da FPF. Juca faleceu em Lisboa, em Outubro de 2007.