Era um poço de energia a meio-campo e por isso chegou da CUF ao Sporting. Corria por ele e pelas estrelas que os treinadores lhe colocavam ao lado, que eram os primeiros a sentir a sua falta quando ficava de fora.
2018-02-28

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1970

Dono de um “pulmão” e de uma força invulgares, Vítor Gomes teve dois travões numa carreira que podia tê-lo levado mais longe. Primeiro, a Lei de Opção, que quando o deixou apeado quando a condição de imprescindível no meio-campo da CUF de Fernando Caiado chamou a atenção do Benfica. Depois, um acidente de caça que levou à amputação de um dedo do pé direito no Verão em que, já em liberdade, assinou pelo Sporting. Ainda contribuiu com um golo para a vitória numa finalíssima da Taça de Portugal, mas aos 29 anos, quando acabou contrato, pouco mais lhe restava do que o périplo por clubes em busca de afirmação mas sem condição para lutar por títulos.

A infância em Benfica tinha-o levado a começar a praticar futebol no Futebol Benfica, de onde saiu, ainda como júnior, para a CUF. A mudança parecia atrativa, até pela perspetiva de se conseguir um bom emprego, que lhe servisse para fazer vida caso o futebol não desse frutos. E a verdade é que, numa equipa super-competitiva como era aquela da CUF do final dos anos 60, Vítor Gomes não entrou de caras. Nas primeiras duas épocas de sénior nem calçou, estreando-se na equipa principal apenas a 13 de Dezembro de 1970, quase a fazer 22 anos. A ocasião foi um dérbi do Barreiro, no Lavradio, em Carlos Silva fê-lo entrar ao intervalo para o lugar de Louro, como médio-ala. Sinal de que o rapaz se terá portado bem no empate a zero com que o jogo terminou é que foi titular nas três partidas que se seguiram. A CUF, no entanto, perdeu as três (com Benfica, Leixões e Vitória FC), não marcou um só golo, pelo que o miúdo acabou por ser sacrificado na tentativa de mudar as coisas.

Vítor Gomes só voltaria no último jogo da época, uma clara derrota com o FC Porto nas Antas (5-1), para a Taça de Portugal, já em Maio. A mudança de treinador, contudo, mudou também o estatuto do lisboeta na equipa. Com a chegada de Fernando Caiado, tornou-se elemento imprescindível no quarto lugar de 1971/72: foi titular nos 31 jogos oficiais da CUF nessa época e fez o seu primeiro golo como profissional, também num dérbi com o Barreirense, ganho pela CUF (2-0), a 20 de Fevereiro de 1972. Para se ver como Vítor Gomes era importante para Caiado basta dizer que, nos três anos em que o treinador esteve no Barreiro (de 1971 a 1974), o médio lisboeta falhou apenas um dos 102 jogos oficiais feitos pela equipa: foi o empate em casa com o FC Porto, a 10 de Fevereiro de 1974. Para a história ficaram um quarto e dois oitavos lugares, vitórias sobre FC Porto e Sporting, empates com todos os grandes e quatro desafios da Taça UEFA, prova na qual se estreou a 20 de Setembro de 1972, com uma vitória por 1-0 no terreno do Racing White, da Bélgica.

A jogar ao meio de um meio-campo que tinha Vítor Pereira de um lado e Arnaldo do outro, Vítor Gomes ia fazendo os seus golos. Marcou dois em 1972/73 (um em Setúbal, de livre, e outro em Guimarães), época na qual a CUF chegou às meias-finais da Taça de Portugal, sendo impedida de chegar ao Jamor pelo Sporting. E aumentou para cinco em 1973/74 (dois deles na Taça de Portugal). Do Benfica, perguntaram por ele, mas a CUF recusou libertá-lo. Na primeira época após o 25 de Abril, já com Fernando Oliveira aos comandos da equipa cufista, abandonou: jogou apenas uma das últimas sete jornadas, o empate com o Oriental em Marvila (1-1), a 23 de Março de 1975, e partiu para os Estados Unidos em busca de melhores condições. Não ficou por lá muito tempo: em Agosto, já livre, assinou pelo Sporting. Tinha 26 anos e ainda ia a tempo de fazer carreira ao mais alto nível, não tivesse ele tido um azar dos diabos.

A 15 de Agosto de 1975, três semanas antes de começar o campeonato, dedicou-se a um dos seus passatempos favoritos: a caça. Abria a época de caça às rolas e Vítor Gomes lá foi vem no que acertava. A arma encravou e ele acabou por dar um tiro no pé direito, levando à amputação do segundo dedo e à perda de metade do terceiro. Era um sério contratempo. Vítor Gomes estava a treinar poucas semanas depois, mas sem calçar chuteiras. Até que, um dia, em finais de Outubro, o treinador, Juca, lhe pediu para fazer o sacrifício de alinhar pela equipa de reservas no treino de conjunto frente aos titulares que preparavam a deslocação a Budapeste, para jogar a segunda eliminatória da Taça UEFA, com o Vasas. A coisa terá corrido tão bem que Juca quis convocá-lo – o que não foi possível, pois ele não tinha sequer sido inscrito nas competições europeias. Acabou por estrear-se com a camisola leonina a 2 de Outubro, entrando ao mesmo tempo que Jesus para os lugares de Marinho e Chico Faria, a cinco minutos do fim de um jogo com a Académica, em Coimbra, que os leões venceram por 4-1.

A integração na equipa foi sendo gradual. A primeira de três partidas a titular nessa época foi apenas a 1 de Fevereiro, numa derrota por 1-0 frente ao Estoril, na Amoreira. A época foi fraca para os leões – quinto lugar – e levou à contratação de Jimmy Hagan para 1976/77. E, sobretudo a partir de Fevereiro, Vítor Gomes assegurou a titularidade, primeiro como defesa-direito e mais tarde a meio-campo, numa equipa que começou com andamento de campeã mas terminou o campeonato em segundo lugar. Primeira escolha nas últimas 14 partidas dos leões nessa época, entre todas as competições, fez o primeiro golo pelo Sporting ao Estoril, a 1 de Maio, numa goleada por 5-0, e teve uma tarde de glória nos 3-0 ao Benfica, para a Taça de Portugal, a 12 de Março, partida na qual assistiu Manoel nos dois últimos golos.

Em 1977, porém, as chegadas de Artur, para a direita da defesa, e de Ailton, para o meio-campo, tiraram espaço a Vítor Gomes, que alinhou em apenas 18 partidas em toda a época, incluindo as duas da eliminação, à primeira, pelo basta, na Taça UEFA que para ele foram a despedida europeia. No último jogo pelo Sporting, porém, ficou diretamente ligado à conquista do único troféu que venceu na carreira. A 17 de Junho, Rodrigues Dias já lhe tinha dado um lugar entre os titulares na final da Taça de Portugal, frente ao FC Porto. Jogou os 120 minutos do empate a uma bola e foi outra vez escolhido para a finalíssima, jogada seis dias depois. Aí, em jogada individual, fez o primeiro golo leonino numa vitória por 2-1 que garantiu uma partida em beleza para a China, onde a equipa foi fazer uma digressão de fim de época. Pavic, o novo treinador, contava com ele, mas a verdade é que não lhe renovaram contrato e, aos 29 anos, Vítor Gomes acabou por assinar pelo Marítimo, com substancial melhoria salarial.

O castigo federativo que se seguiu a uma expulsão, em Aveiro, logo à segunda jornada, numa derrota por 2-0 com o Beira Mar, tirou-lhe algumas presenças na equipa que era dirigida por Fernando Vaz e que, no final, Manuel de Oliveira levou à décima posição da tabela. Acabou por fazer um golo, à Académica, e por marcar presença na histórica vitória sobre o Benfica (2-1), a 4 de Março de 1979. Nesse jogo, aliás, fez mesmo um penalti, depois defendido por Quim. Vítor Gomes já tinha passado os 30 anos quando assinou pelo Portimonense. No Algarve ainda esteve dois anos, o último dos quais como capitão de equipa. Tal como no Sporting, marcou um golo em lance individual na despedida, garantindo uma vitória em Setúbal (1-0), a 1 de Junho de 1981. Assinou nessa altura pelo Belenenses, sem saber no que estava a meter-se: a equipa teve nove treinadores na época e acabou por descer de divisão. A vitória em casa sobre o Boavista (1-0), a 28 de Março de 1982, no período de vigência de Manuel Castro e António Dominguez, foi a última partida que fez na I Divisão.

O Belenenses era nessa altura 14º, a três pontos da linha de água. Acabou em 15º, descendo pela primeira vez de divisão em toda a sua história. Vítor Gomes seguiu para o Alentejo, onde abraçou a tarefa de ser treinador-jogador do Juventude de Évora. O 14º lugar na Zona Sul da II Divisão e a consequente descida ao terceiro escalão levaram-no a pendurar as chuteiras e a optar por ser apenas treinador. Fez cursos no estrangeiro, trabalhou no Esperança de Lagos, no Caldas SC e em vários clubes da área de influência do FC Porto, para onde os azuis e brancos enviavam jovens jogadores, mas acabou por abandonar a ideia de ser treinador. Explora hoje duas lojas de animais, na zona do Cacém.