Chegou à I Divisão com 28 anos, tarde demais para a época em que jogava, quando os 30 eram quase sempre sinónimo de reforma. Mas tanto no Vitória SC como, depois, no regresso ao Tirsense, mostrou que estava à altura quase até aos 40.
2018-02-26

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1957

Era um daqueles jogadores de cuja utilidade ninguém duvidava. Como defesa-lateral, onde contribuiu decisivamente para o regresso do Vitória Sport Clube à I Divisão, no final dos anos 50; como médio, onde fez a maioria dos jogos no escalão principal; ou ainda como defesa central, onde esteve em duas subidas seguidas do FC Tirsense, Virgílio era um dos favoritos do treinador, fosse ele qual fosse. Porque era fiável, um verdadeiro jogador de equipa. Foi isso também que lhe permitiu superar a centena de jogos num campeonato ao qual chegou já com 28 anos, mas do qual só se retirou já depois de ter feito os 38.

Natural de Santo Tirso, Virgílio passou os primeiros tempos de futebolista no clube da cidade, que por aqueles anos andava pela II Divisão nacional. Não chegou a tempo de participar na histórica eliminação do Sporting da Taça de Portugal, em Abril de 1949, mas viu em campo como os “jesuítas” se transformaram de uma formação que lutava para não descer numa equipa da metade superior da tabela. Assim sendo, em 1955, quando o Vitória SC, maior potência futebolística da zona, desceu ao segundo escalão, lembraram-se de o somar ao plantel que Fernando Vaz ia tentar fazer regressar ao convívio dos grandes. Virgílio impôs-se então como defesa-direito numa equipa que entrou timidamente – só um ponto nas primeiras quatro jornadas – mas acabou por ganhar a Zona Norte. Não chegava, mesmo assim, para subir: havia a fase final, com três equipas do Norte e outras tantas do Sul. O Vitória SC acabou em segundo lugar, que dava acesso a uma Liguilha com o penúltimo da I Divisão, na ocasião a Académica de Cândido de Oliveira. Virgílio jogou as duas partidas, o empate a uma bola na Amorosa e a derrota por 1-0 em Coimbra, ficando o Vitória mais um ano na II Divisão.

Na verdade não foi mais um. Foram mais dois. Em 1956/57, a equipa comandada pelo argentino Óscar Tellechea voltou à fase final e até entrou na última jornada em primeiro lugar. Para manter a primazia, tinha de ganhar em Faro a um Farense já sem aspirações para subir, mas não foi além de um empate a dois golos que o deixou a par de Salgueiros e SC Braga no topo da tabela. Subiu o Salgueiros, foi o SC Braga à Liguilha e, por ter pior diferença de golos, o Vitória SC ficou na II Divisão. À terceira, porém, seria de vez. Com o regresso de Fernando Vaz, o Vitória ganhou a Zona Norte e, mesmo ficando atrás do SC Covilhã na fase final, superou o Salgueiros nos jogos com o penúltimo do escalão principal: 2-1 no Porto, 2-2 em Guimarães. A euforia foi grande e os jogadores tiveram direito a um prémio chorudo: 200 escudos por jogo no qual tivessem participado. O mais utilizado da equipa, a par do defesa-esquerdo Abel, Virgílio levou sete contos de réis para casa, equivalentes a 35 presenças. E assegurou logo ali a entrada no futebol dos grandes clubes.

A estreia, numa equipa que passou a ser comandada por Mariano Amaro, não correu nada bem: 0-7 contra o Benfica, a 14 de Setembro de 1958. Três vitórias seguidas, porém, levaram a equipa vimaranense para o topo da classificação, ex-aequo com o Benfica, à quarta jornada. Acabaria em quinto, com uma emblemática vitória sobre o Benfica (2-1), na Amorosa, a 28 de Dezembro, a servir de cartão de visita a uma equipa em que Virgílio só falhou três jogos e foi, à vez, defesa-direito, defesa-esquerdo e até médio. Tanta polivalência pode ter-lhe custado um lugar no onze feito por Umberto Buchelli em 1959/60, época na qual chegou a Guimarães o lateral brasileiro Caiçara e no qual Virgílio fez apenas quatro partidas de campeonato, já a meio-campo. Estaria a preparar-se para ser mesmo médio no plantel que Artur Quaresma levou ao quarto lugar em 1960/61, época na qual o Vitória SC tirou pontos aos três grandes e Virgílio voltou a falhar apenas três partidas.

Mesmo no meio de uma época super-atribulada, como foi a seguinte – Artur Quaresma foi demitido em inícios de Março, não resistindo à queda da direção presidida pelo industrial Casimiro Coelho Lima –, Virgílio manteve a preponderância. Foi totalista, titular em todos os jogos, tanto com Quaresma como depois com o seu ex-colega Joaquim Rola, que subiu dos juniores para tentar salvar a equipa da despromoção. Consegui-lo-ia numa última jornada épica, com uma vitória por 1-0 sobre um FC Porto que precisava de ganhar para manter a esperança de aproveitar uma eventual escorregadela do Sporting no dérbi lisboeta com o Benfica para ser campeão. O Vitória não desceu e o campeão foi o Sporting. Curiosamente, este ano de tão difícil permanência, foi ainda o ano em que Virgílio marcou os seus três golos na I Divisão. Fez o primeiro a 4 de Fevereiro de 1961, num remate de longe, a fechar um 2-0 em casa à CUF, e o último mês e meio mais tarde, a 18 de Março, num 6-1 em casa ao Salgueiros.

Virgílio faria mais três épocas intensas na I Divisão com a camisola do Vitória, passando em 1963, aos 33 anos, a ser defesa-central. Antes disso, porém, teve a honra de jogar uma final da Taça de Portugal. Em 1962/63, depois de ajudar a equipa de José Valle a chegar ao sexto lugar na I Divisão, Virgílio marcou presença na renhida meia-final ante o Belenenses. E com golpe de teatro. Após perder por 2-0 no Restelo, o Vitória SC ganharia por 3-1 no Campo da Amorosa, com o golo decisivo a ser marcado por Peres, aos 89’. A “negra” foi marcada para Coimbra e a cinco minutos do fim os azuis ganhavam por 1-0. O sonho, porém, foi permitido por uma ponta final retumbante, com três bolas na baliza de José Pereira e o resultado a evoluir para um 3-1 que apurava os minhotos para a final com o Sporting. Aí, contudo, os leões seriam mais fortes. Mas nem o 0-4 final tirou à equipa vimaranense a alegria de pisar o relvado do Jamor em ocasião tão importante como aquela.

A meio da época de 1963/64, aos 33 anos, após dez jornadas de ausência, Virgílio foi então convertido por José Valle em defesa-central, ocupando a vaga do ainda mais veterano capitão Silveira lá atrás. Alinhou ali nas últimas dez jornadas, com oito vitórias e duas derrotas (com Benfica e FC Porto) a catapultarem a equipa para a repetição do excelente quarto lugar de 1961. Era a prova de que ainda havia que contar com ele, como se viu nas 22 presenças na última época do clube no Campo da Amorosa. O primeiro jogo no novíssimo Municipal de Guimarães (2-1 ao Belenenses, a 3 de Janeiro de 1965) foi, aliás, um dos quatro únicos que Virgílio falhou nesse campeonato. Mais uma época de enorme regularidade, concluída com o estatuto de totalista na campanha vimaranense na Taça de Portugal: a derrota por 1-0 com o Salgueiros, em Famalicão, a 23 de Maio, seria a última partida oficial que faria com a camisola vitoriana. No final da época, com 35 anos, regressaria a casa para vestir o negro do Tirsense.

Pensar-se-ia numa retirada estratégica, pois os jesuítas estavam por aquele tempo na III Divisão. Puro engano. Em duas épocas, o veterano defesa-central ajudou a equipa a subir dois degraus. Subiu à II Divisão em 1966 (perdendo a final do campeonato com o CD Montijo) e voltou a celebrar uma subida, desta vez à I Divisão, em 1967 (perdendo outra vez a final do campeonato, desta vez com o Barreirense). Aos 37 anos, Virgílio não resistiu à tentação de regressar, desta vez com a camisola do clube da sua terra. A época já não foi tão cheia como as anteriores e até culminou com a despromoção. Virgílio alinhou em apenas nove jogos, o último dos quais com o mesmo adversário da estreia, o Benfica. Desta vez, a 31 de Março de 1968, e mesmo com um hat-trick de Eusébio, a derrota não foi tão larga como na estreia do jogador: ficou-se pelos 5-0.