Internacional olímpico pelo Brasil, era um colosso de músculos a quem, no entanto, nunca sobrava habilidade. Ficou na história do Sporting como Manoooel, por causa de um hat-trick ao Benfica, mas nem assim evitou anos a morder o pó na III Divisão.
2018-02-14

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1972

Olhava-se-lhe para as pernas e pareciam dois troncos. Largos, duros, serviam-lhe de cartão de visita: Manoel era um jogador possante, um avançado-centro robusto e difícil de derrubar a quem um pouco mais de certeza na finalização teria permitido muito mais altos voos. Trabalhava por ele e por mais dois ou três, mas depois alternava tardes de brilho, como a do hat-trick ao Benfica, na Taça de Portugal, com outras plenas de intervenções desastradas, que levaram à sua saída do Sporting, em 1981, com apenas 28 anos. A vida, depois disso, não mais lhe sorriu como até então.

Natural de Uruguaiana, em Rio Grande do Sul, Manoel era um dos sete filhos de Hermes e Rita Maria, um funcionário do caminho de ferro e uma doméstica. O dinheiro não abundava em casa, pelo que Manoel, o mais jovem dos rapazes, teve de fazer como os irmãos mais velhos e arranjar um emprego aos 13 anos. Foi trabalhar para a Lansul, uma fábrica de roupa masculina que, por sinal, tinha equipas de futebol próprias. E a verdade é que Manoel era bem melhor com a bola nos pés do que a operar as máquinas de confeção, o que cedo lhe valeu a atenção do Internacional de Porto Alegre, um dos maiores clubes do estado. Manoel passou então a vestir o vermelho do “Colorado”, chegou à equipa principal e a tal ponto se destacou que, em 1972, fez parte da escolha do técnico Antoninho para os Jogos Olímpicos de Munique. O Brasil decidiu levar uma seleção de sub20 e entre os selecionados estavam jogadores como Abel Braga, Falcão, Dirceu, Washington e… Manoel, que até era dos mais prometedores.

É verdade que os Jogos Olímpicos correram bastante mal ao Brasil – só um empate em três jogos e eliminação logo na fase de grupos, face a Irão, Hungria e Dinamarca que, por serem países de futebol “amador”, apresentavam as seleções principais. De caminho para a Alemanha, contudo, começaria a definir-se o futuro de Manoel. É que, na preparação, a equipa brasileira jogou (e ganhou) o Torneio de Cannes, onde estava o Sporting. E logo ali os dirigentes leoninos ficaram de olho nele. Manoel, no entanto, voltou ao Brasil, para jogar no Internacional. Participou nas conquistas dos campeonatos gaúchos de 1972 e 1973, mas sem conseguir roubar o lugar de avançado-centro titular a Claudiomiro. Foi natural, por isso, que tenha acabado por ser emprestado ao América do Rio de Janeiro. Ali, mesmo sem conseguir também ganhar a titularidade a Edu, esteve na conquista da Taça Guanabara, a primeira volta do campeonato carioca de 1974. Só que o América vivia dificuldades, deixou de poder pagar-lhe o salário e Manoel voltou ao sul, ao Internacional, onde também já não estavam a contar com ele. E andava ele nisto quando lhe surgiu em casa Palmeira Branco, o representante do Sporting no Brasil. Queria saber se Manoel estava disponível para emigrar e ajudar os leões a superar a saída de Yazalde.

Manoel hesitou. Portugal acabara de passar por uma revolução, ainda por cima pintada com cores tenebrosas pela comunicação social brasileira, e isso não era propriamente um fator a recomendar a mudança. Mas arriscou. Em Março de 1976 chegou ao frio de Lisboa, vindo do calor do Brasil, sem trazer sequer uma camisa vestida. Percebeu logo que a adaptação ia ser dura, mas dedicou-se à tarefa. Juca estreou-o a 11 de Abril, numa visita a Braga, em que os leões perderam por 2-1. Esse final de época, aliás, seria desastroso para o Sporting, que acabou o campeonato em quinto lugar. Manoel ainda fez um golo, a valer uma vitória por 1-0 sobre  Varzim, nos quartos-de-final da Taça de Portugal, mas o Sporting não passou depois das meias-finais, perdidas em Guimarães (1-2) após prolongamento: aí, entrou para o lugar de Chico Faria na última meia-hora do tempo regulamentar, ainda viu Libânio fazer o golo do empate, mas já não deu para mais.

A contratação do treinador Jimmy Hagan, que tinha sido tricampeão no Benfica, e a chegada de Keita, para formar com Manoel e Manuel Fernandes um trio de ataque de luxo, animaram as hostes leoninas no Verão de 1976. E o início de época foi fulgurante. Com onze vitórias e um empate nas 12 primeiras jornadas, o Sporting virou o ano destacado na frente, com seis pontos de avanço do Benfica. Manoel marcou pela primeira vez no campeonato a 30 de Outubro, num 3-0 ao FC Porto, mas já tinha estado em campo nos 90 minutos do 3-0 ao Benfica, logo na primeira jornada. O Sporting parecia imparável. E no entanto acabou o campeonato em segundo lugar, a nove pontos do Benfica. Manoel falhou apenas seis partidas, três das quais por causa de uma lesão em Braga, a 24 de Abril de 1977. Um mês e picos antes, a 12 de Março, obteve o seu primeiro hat-trick em Portugal e logo num jogo contra o Benfica: 3-0 nos oitavos-de-final da Taça de Portugal, levando A Bola a titular “Manoooel”, com três Os, a toda a largura da sua primeira página. Não serviu de muito ainda assim, pois os leões cairiam na eliminatória seguinte, frente ao FC Porto, nas Antas, pelo mesmo resultado.

Hagan, por isso, não aqueceu o lugar. Para o seu lugar, João Rocha contratou o brasileiro Paulo Emílio, mas Manoel nem chegou a trabalhar com ele. Iniciou a temporada lesionado e, face à contratação de Jordão, ninguém se lembrava muito dele. Quando o brasileiro ficou disponível, em Janeiro, já era Rodrigues Dias o treinador leonino. As breves aparições (20 minutos de cada vez) a substituir Keita e Ailton nos jogos com o União de Coimbra (para a Taça de Portugal, a 7 de Janeiro) e o Boavista (para o campeonato, a 14) deram lugar à primeira titularidade da época na receção ao SC Espinho e ao primeiro golo. Com fome de bola, Manoel fez um final de época notável, revelando-se providencial a partir do momento em que Jordão partiu a perna, contra o Benfica. Foram 13 golos nas últimas 18 jornadas de campeonato, aos quais somou mais dois na campanha vitoriosa dos leões na Taça de Portugal. Não marcou na final nem na finalíssima (1-1 e 2-1, após prolongamento, contra o FC Porto) mas esteve em campo nos 210 minutos decisivos da competição.

O que continuava a faltar ao Sporting era o título de campeão nacional. E ainda não seria em 1978/79, apesar da contratação do credenciado treinador jugoslavo Milorad Pavic, também ele antigo campeão no Benfica. Keita já não rendia como nos primeiros anos, Jordão voltou a partir a perna, desta vez contra o FC Famalicão, uma semana depois de ter regressado e, se isso dava a Manoel alguma continuidade no onze, enfraquecia a equipa. O terceiro lugar final teve apenas seis golos do avançado gaúcho, que lhes juntou mais três na Taça de Portugal. Voltou a jogar a final e a finalíssima desta competição, agora contra o Boavista, mas não a tempo inteiro e sem o mesmo resultado: saiu do banco para substituir Bastos antes de acabar a primeira parte do primeiro jogo, que acabou empatado a uma bola; e foi titular, mas substituído ao intervalo por Jordão no segundo, que os axadrezados ganharam por 1-0. A época, para Manoel, ficou ainda assinalada como a de estreia nas competições europeias: em Setembro de 1978 alinhou nas duas derrotas (ambas por 1-0) do Sporting frente aos checoslovacos do Banik Ostrava, na ronda inaugural da Taça das Taças.

O tão desejado título de campeão chegaria, finalmente, em 1979/80. Pela primeira vez, o Sporting pôde contar a tempo inteiro com o tridente ofensivo composto por Manuel Fernandes, Manoel e Jordão. Os três fizeram 53 dos 67 golos do Sporting nesse campeonato, tendo o brasileiro assinado doze à sua conta, a começar logo com um bis no seu jogo de estreia, que foi apenas na quarta jornada, frente ao Varzim. Manoel viria a bisar também na vitória por 3-2 em Braga e a obter um hat-trick nos 4-1 ao Marítimo, somando ainda os seus primeiros golos europeus. Aliás, foi ele quem marcou todos os golos do Sporting nessa Taça UEFA: a 19 de Setembro de 1979 pertenceram-lhe os dois tentos da vitória sobre os irlandeses do Bohemians (2-0) e a 24 de Outubro fez, com um remate do meio da rua, o golo no empate contra o Kaiserslautern. Este, viria a confessá-lo mais tarde, foi, para ele, o melhor golo de toda a sua carreira.

Manoel esteve ainda mais um ano no Sporting, que representou pela última vez a 31 de Maio de 1981, numa vitória por 3-0 frente à Académica, em Alvalade. Fez um golo nesse jogo, mas no final da época não lhe renovaram contrato. Seguiu então para sul, onde o Portimonense lhe acenou com uma boa proposta. Mas apesar da boa classificação final da equipa algarvia e de ter acabado a temporada como titular na equipa de Artur Jorge, ficou muito aquém dos objetivos no que a golos diz respeito: fez apenas dois, um no campeonato, a valer um empate em casa contra o Benfica (1-1), e outro na Taça de Portugal, a dar uma vitória (1-0) frente ao Vitória de Setúbal. Continuava a ser, porém, um jogador de trabalho, o que lhe valeu um contrato com o SC Braga, que ia jogar a Taça das Taças e entrava no campeonato com aspirações europeias. Ali, o treinador era Juca, o homem que o acolhera no Sporting. Ainda marcou cinco golos no campeonato, os últimos num bis ao Marítimo, a 30 de Janeiro de 1983. Poucas mais vezes jogou até final da época, porém, tendo-se despedido do campeonato nacional a 10 de Abril, quando substituiu Dito a meia-hora do fim de uma derrota por 4-1 em Espinho.

Aos 30 anos, Manoel começava então um périplo pelas divisões secundárias. Fez duas épocas no Académico de Viseu, a primeira no segundo escalão e a última no terceiro, e passou depois três anos no Amora FC, dois deles na III Divisão. Foi neste campeonato que jogou as últimas três épocas de uma carreira que foi prolongando, por necessidade, até aos 38 anos, antes de começar a trabalhar na distribuição de jornais: andou pelo Almancilense com Mário Wilson e Cavungi, pelo GS Loures com Joaquim Murça e ainda pelo Odivelas FC. Passou dificuldades no final da vida, devido a um AVC que motivou até um movimento de solidariedade conduzido por ex-colegas do Sporting, com Jordão e José Eduardo à cabeça. Ainda recuperou, mas veio a falecer, vítima de paragem cardíaca, em casa, com 62 anos.