Possuía o segredo da longevidade, que o levou a competir na I Divisão até aos 40 anos. Para tal, precisava de fazer valer o conhecimento do jogo, que sempre foi uma das suas valências. Nesse aspeto, diz quem viu que já em miúdo Rebelo era um veterano.
2018-02-12

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1980

Não são muitos os jogadores de campo capazes de competir na I Divisão com 40 anos. Rebelo foi um dos últimos e fê-lo já numa altura em que a intensidade dos jogos pedia rapaziada mais jovem. A sua última partida oficial de futebol, um empate a três golos frente ao Beira Mar, em Aveiro, a 27 de Maio de 2001, não chegou para celebrar a manutenção do Estrela da Amadora no escalão principal, mas permitiu-lhe sair de cabeça levantada. Aos 40 anos (e três meses) já não se sentiu com coragem para voltar a enfrentar a II Divisão e preferiu ajudar os colegas de profissão, assumindo desde então tarefas várias no Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol, onde já foi delegado, dirigente e até treinador das equipas de desempregados que se fazem no início de cada época.

Joaquim Rebelo foi júnior do Vitória de Lisboa, no final da década de 70, mas na altura de passar a sénior foi na margem sul do Tejo que o acolheram. Jogou dois anos no CF Trafaria, sempre a meio da tabela da Série F da III Divisão: era médio, sempre disponível para a leitura tática do jogo, pelo que se tornou um dos preferidos do treinador, Figueiredo. Quando este se mudou para o Pescadores da Costa de Caparica, em 1981, levou Rebelo com ele. O desafio era subir a equipa às divisões nacionais, o que foi conseguido logo à primeira, ainda que com nova queda nos distritais na temporada seguinte. Desta vez, porém, Rebelo ficou no terceiro escalão, pois assinou pelo Almada AC. Já era uma equipa com outras expectativas: ali, Rebelo passou também dois anos, sempre a cheirar a subida à II Divisão. Só lá chegaria, porém, em 1985, quando trocou de camisola e se mudou para mais perto de casa, para o Sacavenense.

Mais dois anos a meio da tabela da Zona Sul da II Divisão indicavam uma subida de patamar segura, mas demasiado lenta para que Rebelo pudesse ainda vir a ser uma figura do futebol nacional. Tinha 26 anos quando assinou pelo Estrela da Amadora, equipa que falhara por pouco a subida de divisão. Não aconteceria segunda vez: em 1986/87, ganhando a Zona Sul, com uma épica última jornada (a conjunção da vitória em casa frente ao Pescadores, por 4-1, com a derrota do Nacional na Cova da Piedade, por 2-1, permitiu a mudança de líder), o Estrela assegurou a primeira subida ao escalão principal na sua história. Rebelo estava entre os heróis comandados por Joaquim Meirim e pôde assim entrar na I Divisão. Tinha 27 anos. Muito tempo ainda para se destacar.

João Alves chegou para substituir Meirim e Rebelo não esteve no primeiro jogo da história do Estrela na I Divisão, uma derrota por 1-0 frente ao Beira Mar, em Aveiro. Na segunda jornada, a 28 de Agosto de 1988, o SC Braga visitava a Reboleira e Alves levou rebelo para o banco. A meia hora do fim, com os minhotos na frente do marcador (1-3) deu-lhe a estreia, fazendo-o entrar para o lugar de Jaime Cerqueira. O resultado já não se alterou, Rebelo voltou a ficar no banco na terceira jornada (derrota em Chaves por 3-0) e, a partir daí, tornou-se parte da solução: entrou no onze para não mais sair, acumulando ainda 36 presenças no tranquilo oitavo lugar final do Estrela. A primeira época teve momentos infelizes, como o autogolo na derrota caseira frente ao Leixões (0-3 no último dia de 1988), mas também outros felizes, como os empates em casa com Sporting (0-0) e FC Porto (2-2) ou a vitória frente aos leões em Alvalade (1-0), já com Rebelo a jogar como defesa-central num esquema de cinco defesas.

Rebelo foi sempre mantendo a constância na equipa, segurando-se no onze-base em 1989/90. Nessa época, teve três enormes alegrias. Primeiro, um golo: o primeiro que fez na I Divisão aconteceu a 8 de Abril de 1990, a fechar uma vitória por 3-1 frente ao Beira Mar. Depois, a manutenção, celebrada em finais de Abril, a três jornadas do fim, com uma vitória por 4-2 face ao Portimonense. Finalmente, a presença no Jamor e, mais importante, a conquista da Taça de Portugal. A 27 de Maio de 1990, Rebelo foi um dos onze escolhidos por João Alves para a final frente ao Farense. O empate (1-1), após prolongamento, valeu uma finalíssima e Rebelo voltou a estar em campo a tempo inteiro na vitória por 2-0 que ainda hoje é um marco na história do clube tricolor. Era o suficiente para lhe permitir a estreia nas competições internacionais: Manuel Fernandes, que substituíra João Alves, não o colocou em campo na primeira ronda da Taça das Taças, frente aos suíços do Neuchatel, mas a 7 de Novembro de 1990 deu-lhe 90 minutos na vitória (1-0) caseira contra os belgas do Liège.

O Estrela, contudo, não passaria essa eliminatória. E acabaria por descer de divisão no final da temporada. Um empate em Setúbal (1-1), na última jornada, acabou por condenar as duas equipas à descida. Para Rebelo, isso significou mais dois anos a jogar no segundo escalão, agora transformado numa competição única, sem divisões geográficas. A primeira época, com Jesualdo Ferreira como treinador, foi mal conseguida – 11º lugar –, mas a segunda, com o regresso de João Alves, saldou-se não apenas com a subida mas também com o título de campeão, garantido através de um empate em Campo Maior (1-1), na última jornada. Rebelo jogou menos nessa época – apenas 24 jogos, oito dos quais saindo do banco. Tinha 32 anos e podia pensar-se já em projetos de abanono. Mas não. Ainda fez mais oito épocas na I Divisão, seis das quais como titular praticamente inamovível, passando a partir de então a assumir-se mais como defesa-central e menos como médio.

A época de 1993/94 começou tarde para ele, que só se estreou em Outubro, à sexta jornada, mas daí para a frente falhou apenas três jogos, marcando presença nos empates com o FC Porto (0-0 na Reboleira) e o Benfica (1-1 na Luz, que quase custava o campeonato aos encarnados, salvos depois pelos 6-3 em Alvalade. Rebelo esteve também à beira de repetir o sonho de uma presença no Jamor, mas desta vez o Estrela caiu nas meias-finais da Taça de Portugal, batido em casa pelo FC Porto (1-2). Em 1994/95, o ano de chegada ao Estrela de Fernando Santos, as duas expulsões contra o Sporting (na Reboleira) e o Benfica (na Luz) custaram-lhe alguns amargos de boca e ausências, por castigo, mas esteve a 100 por cent na reta final, em que a equipa garantiu a permanência in-extremis, muito graças à sua performance defensiva: foram apenas sete golos sofridos nos últimos dez jogos, incluindo empates a zero com o Benfica, em casa, e o FC Porto, nas Antas. Tudo depois de já ter ganho ao Sporting em Alvalade.

A entrada de Fernando Santos no Estrela teve o condão de estabilizar a equipa e de lhe permitir momentos que até então só tinha vivido com a liderança carismática de João Alves. E 1995/96 a permanência ainda foi suada (13º lugar, garantido no último dia graças a um empate a um golo com o Boavista, no Bessa). Em 1996/97, a colocação rigorosamente a meio da tabela (nono lugar) voltou a ter dedo de Rebelo, que falhou apenas uma partida em todo o campeonato, o empate a zero contra o Sporting em Alvalade. E ainda lhe restaram mais dois anos a top: se na última época de Fernando Santos na Reboleira jogou 33 dos 34 jogos que levaram ao sétimo lugar do Estrela, no ano de estreia de Jorge Jesus foi mesmo totalista na oitava posição dos tricolores. As 38 anos, falhou apenas sete minutos do campeonato quando, a perder por 2-1 com a Académica em Coimbra, o treinador o substituiu por Capitão na tentativa de chegar a um empate que surgiria mesmo nos derradeiros instantes da partida, por intermédio do jovem Jorge Andrade.

A entrada de Jorge Andrade na equipa, primeiro como médio e depois a baixar para a linha de trás, foi permitindo então a Rebelo jogar menos e gozar de maiores períodos de recuperação. Menos utilizado no oitavo lugar de 1999/00, ainda com Jesus, ainda esteve bem presente na época seguinte, em que Quinito e, depois, Carlos Brito, não conseguiram evitar a descida do Estrela à II Divisão. Os estrelistas foram claramente últimos e Rebelo despediu-se – do clube, da I Divisão e do futebol enquanto jogador – a 27 de Maio de 2001, com o tal empate a três bolas frente ao Beira Mar em Aveiro. Seguir-se-iam as funções sindicais, no seguimento das quais continua a trabalhar em prol do futebol.