Uma enormidade como futebolista, era dos poucos capazes de resolver um jogo tanto pela genialidade individual como pela forma como potenciava a simplicidade coletiva. Chalana tinha tudo menos a força psicológica e um físico à altura do seu talento.
2018-02-10

1 de 17
1975

Quando se diz que a Chalana só faltava a mente para ser o melhor do Mundo, o Maradona de Portugal, está a cometer-se uma terrível injustiça. Porque Chalana tinha mente de futebolista. Nem a forma como era capaz de fazer da bola a extensão do seu corpo e entortava adversários só com um ligeiro movimento de anca, deixando-os por terra, o inibia de utilizar outra das suas maiores armas: a clarividência dentro de um campo, a capacidade para escolher sempre a melhor solução, fosse ela o drible, a mudança de velocidade, o passe curto, o passe longo, o cruzamento ou o remate à baliza. Chalana tinha tudo. Faltava-lhe apenas um físico mais robusto, mais resistente e, sim, uma forma mais sólida de lidar com as adversidades. Foi, mesmo assim, o maior da sua geração.

Cinco  vezes campeão pelo Benfica, quase sempre como figura maior da equipa, teve no Euro’84 a montra necessária para lhe assegurar a transferência ara o estrangeiro e o contrato de uma vida, em Bordéus. Ali, no entanto, foi-se abaixo, derrubado por tudo o que lhe corria mal, das sucessivas lesões musculares a relatos de mau relacionamento com as vedetas da seleção francesa que faziam parte da mesma equipa e a uma relação tóxica com Anabela, a mulher que inaugurou o conceito de WAG no futebol português e que era tão alo de notícia como o craque. Voltou à Luz para garantir um sexto título nacional, mas os três anos passados praticamente sem jogar em França tinham acabado com o vigor que alimentava o génio. À beira dos 30 anos, ainda adorado por todos os que iam à Luz, Chalana até conseguiu voltar à seleção nacional, mas já não era o mesmo. Ele queria jogar, quis fazê-lo no Belenenses, por quem desceu de divisão, ou pelo Estrela da Amadora, que representou nos escalões secundários, mas o corpo não respondia e o abandono precoce foi a única solução.

Afinal, Fernando Chalana tinha sido precoce em tudo. Aos dez anos já era requisitado por gente graúda para torneios de futebol de salão, no Barreiro, onde nasceu no seio de uma família de trabalhadores da CUF. Quando os pais iam para a fábrica, Fernando ficava aos cuidados dos tios, que viviam mesmo em frente ao campo da CUF, pelo que foi naturalmente ali que foi testar as aptidões quando quis passar para o futebol a sério. Tinha 14 anos, mas era muito pequenito e o veredicto não foi bom: reprovado. Chalana dedicou-se ao atletismo – chegou a ganhar um corta-mato regional em Lisboa, classificando-se depois em quinto lugar na prova nacional, em Coimbra – mas nunca deixou esgotar-se nele o bichinho do futebol. E se a CUF não o quis, foi à captação do Barreirense, onde não só o aprovaram como imediatamente lhe reconheceram o talento. À chegada, mesmo com idade de juvenil, Chalana foi jogar para os juniores e, assim que o viu, Juca – à data treinador principal do Barreirense – imediatamente decretou que ele passaria a treinar com os seniores.

O talento de Chalana não demorou muito a transpor o Tejo. Certamente alertado por Juca, o Sporting quis ficar com o rapaz, mas não se chegou à frente com os valores pretendidos pelo Barreirense. Milorad Pavic, treinador do Benfica, foi vê-lo num jogo de juniores com o Oriental e não hesitou: contrate-se! O Benfica pagou ao Barreirense 750 contos (3750 euros, muito para a altura) pelo jogador e, no verão de 1974, este mudou-se para a equipa de juniores encarnada. A partir daí, foi sempre a subir. Em Dezembro de 1974, ainda com 15 anos, em São João da Madeira, estreou-se pela seleção nacional de juniores, com dois golos num 4-1 à Finlândia. Foi campeão de juniores pelo Benfica logo nessa primeira época, no final da qual se estreou, aos 16 anos, na seleção de esperanças: aconteceu em Julho 1975, frente ao Gabão, numa digressão a São Tomé.

Na Luz, já toda a gente falava do miúdo que maravilhava nos juniores. Mário Wilson, treinador da equipa principal, não era insensível ao talento que o rapaz ia mostrando e em Março de 1976 convocou-o para um jogo de campeonato. O adversário era o Farense e, com 3-0 ao intervalo, Chalana entrou para o lugar de Toni. O resultado já não se modificaria mas, para gáudio dos adeptos, o miúdo voltaria para mais uma partida antes do fim da época: jogou 45 minutos nos 7-1 ao SC Braga, assistindo Nené para o último golo benfiquista. Chegou para ser, nessa época, campeão nacional pela primeira vez. 1976, aliás, foi um ano fulgurante na vida de Chalana, que nele jogou por três seleções nacionais: alinhou pela última vez na seleção de juniores, frente à Suíça, em Abril; jogou pelas esperanças contra o Luxemburgo e a Itália em Novembro e, no mesmo mês, ao dia 17, estreou-se pela seleção A. Pedroto alinhou com ele a titular na vitória por 1-0 frente à Dinamarca, tornando-o o mais jovem internacional A da história do futebol português, com apenas 17 anos, nove meses e três dias (um recorde apenas batido por Futre em 1983).

Claro que para chegar à seleção A, Chalana já tinha assumido um papel diferente no Benfica. No Verão de 1976, Mário Wilson deu lugar a John Mortimore e o Benfica começou o campeonato muito abaixo do normal. Chalana ficou no banco na primeira jornada (0-3 do Sporting em Alvalade). Face ao baixo rendimento da equipa, já foi titular na segunda, sendo cometido sobre ele o penálti que Nené aproveitou para fazer o empate (2-2) na Luz com o SC Braga. Seguiram-se o empate no Estoril (1-1), a derrota em Dresden (0-2) na Taça dos Campeões Europeus e quando, a 26 de Setembro, a Académica visitou a Luz, o ambiente era pesado. Ainda por cima, o 0-0 ia-se eternizando, até que Chalana fez das dele: recebeu de Nené, driblou dois e chutou forte para o seu primeiro golo no campeonato. O Benfica acabou por ganhar esse jogo por 1-0, mas a eliminação da Taça dos Campeões, logo a seguir, e a derrota em Setúbal, antecipavam uma época desastrosa: em meados de Outubro, os encarnados eram 12º no campeonato, a seis pontos (pelo sistema antigo) do Sporting. Mas depois, apareceu Chalana.

Chalana fez nessa época dez golos no campeonato (mais um na Taça de Portugal), alguns deles fundamentais, como os que valeram a vitória frente ao FC Porto, nas Antas (1-0 a 16 de Janeiro de 1977) ou ao Sporting na Luz (2-1, a 30 de Janeiro). Como não podia deixar de ser, foi também com um golo de Chalana que o Benfica ganhou em Coimbra à Académica (1-0, a 27 de Fevereiro) e, à 19ª jornada, passou para a liderança da tabela. Em inícios de Maio, ainda com três jornadas por realizar, o Benfica ganhou por 4-0 ao Beira Mar e assegurou desde logo a certeza matemática da conquista do título. Era o bicampeonato ara Chalana, desta vez com estatuto de figura da equipa e não de mero figurante, como na temporada anterior.

O Benfica de Mortimore, no entanto, viria nas duas épocas seguintes a ser suplantado pelo FC Porto de Pedroto. Chalana ainda começou a época de 1977/78 ao ritmo da anterior – cinco golos nas primeiras oito jornadas – mas no final a equipa acabou penalizada pelo elevado número de empates que concedeu, terminando o campeonato em segundo lugar, sem derrotas. À medida que ia crescendo, Chalana ia-se afastando do golo, tornando-se mais médio, mais estratega, e menos avançado. Em 1978/79, por exemplo, fez todos os jogos do campeonato, que o Benfica voltou a acabar em segundo lugar, não podendo, porém, dar o devido contributo na Taça UEFA: foi expulso pela primeira vez com a camisola do Benfica a 13 de Setembro de 1978, em Nantes, numa vitória por 2-0, e o castigo impediu-o depois de estar na eliminação, à segunda ronda, pelo Borussia M’Gladbach.

Pior viria em 1979. A 11 de Novembro, numa visita à Póvoa de Varzim, um tackle por trás de Brandão esteve na origem de uma fratura do perónio com rotura total de ligamentos. O Benfica sofreu aí a primeira derrota de um campeonato que viria a acabar em terceiro lugar e, lesionado, Chalana não chegou a alinhar um único minuto na Taça de Portugal, ganha na final ao FC Porto. A lesão, aliás, manteve-o fora da equipa até ao início da época seguinte e a forma como se julgou destratado pela direção benfiquista levou-o, nesse período negro de afastamento, a ponderar sair. O Benfica começou por propor-lhe a renovação nas mesmas condições do contrato inicial, assinado ainda enquanto júnior e não enquanto figura da equipa, e o Sporting, que ainda nesse verão se abastecera na Luz com Eurico e Fidalgo, estava atento. Chalana acabou, no entanto, por renovar, assumindo papel importante na equipa que Lajos Baroti levou à reconquista do título em 1980/81, mas também à Taça de Portugal (3-1 ao FC Porto na final com Chalana em campo), à Supertaça e às meias-finais da Taça das Taças, de onde os encarnados foram afastados pelo Carl Zeiss, sem que Chalana jogasse a partida da Alemanha.

A segunda época de Baroti já não foi tão deslumbrante: a equipa não ganhou nada e, pela primeira vez desde o ano de estreia, Chalana não fez um único golo no campeonato. Marcou o único da temporada a 30 de Setembro de 1981, em Nicosia, frente ao Omonia, garantindo uma vitória por 1-0, mas uma lesão contraída na semana seguinte tirou-o do campo no confronto com o Bayern, que ditou a eliminação benfiquista. Estava aberta a porta de entrada da Luz para Sven Goran Eriksson, o treinador sueco que esteve no período de maior fulgor de Chalana enquanto jogador adulto mas que viria depois a dispensá-lo, acabando-lhe com os sonhos de glória de águia ao peito. Com Eriksson, Chalana foi providencial nos títulos nacionais de 1983 e 1984, mas também na brilhante campanha que a equipa fez até à final da Taça UEFA, na primeira dessas duas épocas (derrota em duas mãos face ao Andrlecht).

Essa campanha, que incluiu uma eliminatória ganha frente à AS Roma, bem como o papel que o extremo desempenhou no apuramento para a fase final do Euro’84 (foi sobre ele o penalti que deu a vitória por 1-0 frente à Rússia), levaram à abertura de nova novela de mercado. A AS Roma dava-lhe um milhão de dólares para o levar, mas naquele temo, mesmo em final de contrato, as transferências internacionais presumiam um acordo entre clubes. Foi nessa altura que entrou o Boavista na conversa: Valentim Loureiro apareceu com um cheque chorudo para convencer o talentoso jogador a vestir de xadrez e Fernando Martins, o austero presidente benfiquista, teve de incluir uma cláusula libratória para conseguir renovar-lhe o contrato antes do Europeu. E em boa hora o fez, porque os dribles e os cruzamentos de Chalana foram uma das melhores imagens daquele campeonato, que Portugal perdeu nas meias-finais, de virada, contra a França. Finda a competição, Claude Bez, magnata da construção que era presidente do Girondins de Bordéus, apareceu em Lisboa e, com 230 mil contos (1,15 milhões de euros), assegurou o direito a contratar Chalana.

A transferência permitiu a Fernando Martins fechar o terceiro anel do Estádio da Luz, mas o Benfica ficaria por muito tempo saudoso do futebol de Chalana. Este, reforçou a conta bancária – recebeu 100 mil contos (500 mil euros) pela assinatura e passou a ter um salário mensal de cinco mil contos (25 mil euros) – mas nunca foi feliz em França. Ao segundo jogo, fez uma rotura muscular, como que a anunciar o que seriam os três anos em Bordéus: lesões sucessivas, acusações de negligência à equipa médica francesa (que o levaram várias vezes a ser operado e tratado em Portugal), problemas pessoais com os colegas e auto-destruição numa relação em que a personalidade da omnipresente Anabela era claramente dominante. Em três anos, Chalana fez 22 jogos de campeonato, perdendo, por exemplo, a hipótese de estar no Mundial’86 (nunca alinhou pela seleção enquanto jogador do Bordéus). Ainda foi campeão francês em 1984/85, mas todo o tempo que lá passou estava concentrado no dia em que poderia voltar a casa e ao Estádio da Luz.

Tal acabou por ser possível em 1987, quando João Santos ganhou as eleições para a presidência do Benfica. A 1 de Junho foi anunciado o acordo para o regresso do filho pródigo, que afinal de contas tinha apenas 28 anos e muito para dar ao futebol. Chalana precisava, no entanto, de recuperar de três anos de inatividade e maus-tratos. Integrou o plantel comandado pelo dinamarquês Ebbe Skovdhal, voltando a jogar apenas a 3 de Outubro, num desafio de preparação contra a seleção de juniores do Bahrein. Cinco dias depois, alinhou pelas reservas contra o Estrela da Amadora. E a 17 de Outubro chegara o momento: Skovdahl convocou-o para uma receção ao Salgueiros. A 8 minutos do fim, com 2-0 no marcador, o público festejou o melhor golo da tarde: Chalana substituiu Chiquinho Carlos e chorou antes de entrar em campo. Ainda veio a fazer dois golos nesse campeonato – que o Benfica acabou em segundo – e a jogar cinco partidas na campanha que, já com Toni ao comando, levou os encarnados à final da Taça dos Campeões Europeus. Na derrota (nos penáltis) contra o PSV Eindhoven, no entanto, não esteve.

Chalana ainda começou a segunda época em grande estilo. Alinhou nas primeiras 13 jornadas do campeonato, marcando dois golos, aos quais somou mais dois, contra o Montpellier e o Liège, na Taça UEFA. Isso valeu-lhe o regresso à seleção: quatro anos e cinco meses depois da meia-final do Euro’84 em Marselha, Juca deu-lhe a 27ª internacionalização num particular contra a Suécia, que acabou empatado a zeros, a 12 de Novembro, em Gotemburgo. Depois disso, porém, a época de Chalana resumiu-se a mais 49 minutos em campo, frente a SC Braga e Nacional, no início de Dezembro. Ainda foi campeão, mas quando Toni deu o lugar a Eriksson a presença de Chalana foi posta em causa. O sueco pouco o utilizou em 1989/90: permitiu-lhe a despedida, na Luz, colocando-o em campo no lugar de Fonseca, na segunda parte da partida da última jornada, um 1-0 ao Belenenses a 20 de Maio, e depois colocou-o na lista de dispensas, sem tratamento especial.

Mas Chalana, que tinha apenas 31 anos, não estava preparado para aceitar o fim. Assinou pelo Belenenses, onde jogou mais uma época na I Divisão. Henri Depireux, o treinador azul, ainda lhe proporcionou um momento de carinho quando, em partida da Taça de Honra da AF Lisboa, o tirou antes do final, para uma merecida ovação. A época do Belenenses, contudo, seria uma confusão, com quatro treinadores e um 19º lugar final que implicou a despromoção. Os 28 minutos em campo contra o Marítimo, a 10 de Março de 1991, foram assim, para ele, a última partida na I Divisão. Chalana ainda jogou um ano no Estrela da Amadora, que era liderado por Jesualdo Ferreira, mas não conseguiu continuidade e acabou como futebolista antes do final dessa época. Voltaria ao Benfica como treinador das camadas jovens no final da década de 90, tendo passado pela equipa técnica dos seniores e até pelo cargo de treinador principal interino em duas situações. É atualmente adjunto dos juvenis das águias, fazendo mais uma vez valera sua timidez: foi ele que pediu para baixar na hierarquia, podendo assim continuar a servir o clube do coração.