Nasceu no Benfica, à sombra do apelido do tio José, mas teve de se provar goleador um pouco por todo o lado onde passou, de Algarve a Trás-os-Montes.
2016-01-12

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1968

Quando escolheu ser futebolista, Raúl carregava sobre os ombros o peso de um apelido. O tio, José Águas, tinha erguido a primeira Taça dos Campeões Europeus na qualidade de capitão do Benfica, clube que deixara há meia dúzia de anos para emigrar para Viena e onde o jovem Raúl crescera nos juniores. A qualidade não era a mesma, mas o maior adversário de Raul Águas na Luz não foi esse. Nem sequer foi o apelido que inspirava comparações – é que aquele Benfica era de facto muito forte e Raúl teve de se fazer à vida noutros clubes. Goleador por onde quer que tenha passado, destacou-se ainda como treinador, tarefa na qual foi o responsável pelo lançamento de Figo na equipa principal do Sporting.

Chegado de Angola para os juniores do Benfica, Raul Águas estreou-se na equipa principal em Maio de 1968, uma semana depois do final de mais um campeonato ganho pelos encarnados. A Taça de Portugal ia entrar na fase decisiva e Otto Glória decidiu dar repouso a alguns titulares na partida dos quartos-de-final contra o Barreirense, no Estádio D. Manuel de Melo: Eusébio e Torres ficaram a ver como se portavam Nelson e Raúl Águas encaixados entre José Augusto e Simões. E o miúdo (tinha 19 anos) saiu-se bem, pois aos 4 minutos já tinha feito o primeiro golo do Benfica. O empate a duas bolas permitia encarar a segunda mão com alguma tranquilidade, pelo que Águas voltou a ser titular uma semana depois. E marcou mais um, na vitória por 3-1 que assegurava a entrada nas meias-finais. Antes do final da época, novo jogo, mesmo que perdido com o FC Porto nas Antas (0-3) assegurava-lhe um lugar no plantel que iria defender o bi-campeonato depois das férias. Águas sabia que não iria ver muita ação além dos jogos de reservas, mas nem assim terá ficado muito satisfeito com os poucos minutos que Otto Glória lhe deu: estreou-se no campeonato a 17 de Novembro de 1968, num empate em casa com o V. Guimarães, e alinhou em mais duas partidas, entre elas os 17 minutos finais da vitória em Tomar (4-0), na última jornada, que assegurava o título de campeão. Alegria enorme logo compensada pelo facto de não ter sido chamado nenhuma vez na campanha que deu ao Benfica mais uma Taça de Portugal.

A ausência de Eusébio permitiu-lhe começar o campeonato de 1969/70 como titular, mas a derrota por 2-0 que o Benfica encaixou frente ao Leixões não deu muito boas indicações. Com o Rei, Torres e Artur Jorge à frente, conseguiu ainda assim estrear-se a marcar no campeonato, numa goleada por 5-0 ao Sp. Braga, a 16 de Novembro de 1969, e fazer o primeiro jogo na Taça dos Campeões Europeus. Este teve história: depois de perder por 3-0 em Glasgow, o Benfica devolveu o resultado ao Celtic, mas acabou eliminado por moeda ao ar. Raul Águas acabou a época com dois golos no campeonato (ao Sp. Braga e U. Tomar) e mais dois na Taça de Portugal (nos 8-0 ao Leixões, nas meias-finais), mas não jogou na final, ganha pelo Benfica ao Sporting (3-1). A chegada de Jimmy Hagan para comandar a equipa, associada à quebra de rendimento de José Torres, podiam fazê-lo sonhar com mais tempo de jogo, mas Artur Jorge – que viria a ser seu chefe de equipa em muitos anos como treinador – estava numa forma imponente e havia Eusébio. Ao todo, Raúl só jogou 41 minutos em toda a época. Ganhou mais um título de campeão nacional, marcando até um golo nos 7-0 ao Tirsense (a 31 de Outubro de 1971), e fez o último jogo com a camisola encarnada a 4 de Novembro, em Berlim, quando entrou a meio do prolongamento para tentar fazer o golo que qualificasse o Benfica na eliminatória frente ao Vorwaerts. O seu último ato como jogador do Benfica foi marcar o seu penalti no desempate que acabou por sorrir aos alemães (5-3).

Sem tempo de jogo na Luz, Águas seguiu para a Académica, envolto nas transferências de Rui Rodrigues e Artur em sentido inverso. Não foi muito feliz, com apenas três golos em 17 jogos, aos quais somou mais um na eliminação dos estudantes da Taça de Portugal (1-2 frente ao V. Guimarães). E a descida de divisão da Briosa leva-o a nova mudança de clube, escolhendo o U. Tomar de António Medeiros. Em Tomar, Águas conheceu a temporada mais produtiva na I Divisão, mas nem os seus 12 golos – entre eles um hat-trick ao Beira Mar, no último dia, e uma série de cinco jogos seguidos a marcar, em Outubro e Novembro – evitaram nova descida de divisão. Desta vez, porém, Raúl ficou na equipa, sagrando-se campão nacional da II Divisão em 1973/74 e regressando ao convívio dos grandes na época seguinte. Aí, comandados pela antiga glória benfiquista Artur Santos, os ribatejanos seguraram-se no escalão principal. Águas fez mais oito golos no campeonato, um dos quais ao Benfica, na Luz, na última jornada (1-3), juntando-lhes mais três na Taça de Portugal. Teve então a oportunidade de emigrar, convidado pelo Malines, da Bélgica, e não hesitou. O clube, que escapara por uma posição à descida de divisão na época anterior, não era um dos grandes, mas Raúl Águas conseguiu ajudar com golos à manutenção em 1975/76 (15º lugar). Já não teve a mesma sorte na época seguinte (17ª posição), pelo que assinou pelo Lierse, equipa do meio da tabela. Ali jogou mais duas épocas, com um quarto lugar em 1977/78 e um oitavo em 1978/79, época em que até jogou a Taça UEFA, com eliminação à primeira pelo Carl Zeis Jena.

De regresso a Portugal, Raúl jogou três anos na II Divisão, com a camisola do Oliveira do Bairro, que lutou sempre pela subida na Zona Centro, ficando mesmo a apenas um ponto da Liguilha em 1980/81. Sempre com totais de golos nos dois dígitos, com destaque para os 24 golos que fez em 1981/82, Águas não deixou que a veterania o impedisse de regressar ao escalão maior e no Verão de 1982 aceitou o convite de Artur Jorge para jogar no Portimonense. Fez mais dez golos na I Divisão, o último os quais a 27 de Março de 1983, valendo a vitória frente ao Boavista (1-0), num jogo em que entrou ao intervalo. E juntou-lhes seis em cinco jogos da Taça de Portugal, carregando o Portimonense até à meia-final, em que os algarvios foram derrotados pelo Benfica sem Águas em campo. A vitória sobre o Marítimo (3-0), a 5 de Junho de 1983, acabaria por ser o seu último jogo no campeonato, porque finda a temporada Águas assinou pelo Desp. Chaves, que andava na II Divisão e a pensar na subida. Ainda ali fez mais duas épocas: na primeira a equipa ficou-se pela Liguilha, depois do segundo lugar na Zona Norte; na segunda, repetiu a segunda posição e venceu a Liguilha, graças a um épico 4-3 sobre a U. Madeira nos Barreiros. Raúl Águas já era, por essa altura, treinador-jogador. E na entrada dos transmontanos na I Divisão, já se assumiu como treinador a tempo inteiro. No banco, teve como coroa de glória o facto de ter levado o Chaves da II Divisão à Taça UEFA em dois anos, chegando depois a dirigir o Boavista, o Sporting – onde lançou Figo, em Abril de 1990 – o Sp. Braga, o V. Setúbal e o Marítimo, antes de passar a ser adjunto de Artur Jorge em várias aventuras no estrangeiro.