Chegou à I Divisão à beira dos 30 anos, depois de uma carreira sólida pelos escalões secundários. Ainda assinou algumas boas exibições, mesmo em equipas sempre destinadas a descer, como o Ginásio de Alcobaça ou O Elvas.
2018-02-08

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1971

O caso de Domingos é um caso de fama tardia. Passou grande parte da carreira na II Divisão, onde chegou a celebrar três subidas ao escalão principal. Mas só à beira dos 30 soube o que era começar a jogar com regularidade em relva em vez de andar a morder o pó nos pelados. Ainda jogou 60 vezes na I Divisão, sem grande alarido, é verdade, que a única permanência festejou-a devido a um caso administrativo no interior alentejano. Ele que é um homem do mar e que deu a Portugal um internacional no futebol de praia: o filho, Bruno Novo, integra a seleção nacional da variante de areia do jogo da bola.

A inclinação para as balizas, Domingos começou a revelá-la em Angola, onde cresceu. Já aí estava perto do mar: nasceu em Porto Alexandre, atual Tômbua, no litoral sul de Angola, perto da fronteira com a Namíbia. Começou a jogar no Independente Sport Clube, de Porto Alexandre, numa conjuntura muito favorável: a formação rubro-negra sagrou-se tricampeã angolana entre 1969 e 1971 e, sendo campeão distrital de Moçâmedes em juniores em 1970, Domingos já fez parte do plantel que jogou o torneio de 1971, como suplente de Osvaldo. A vida trouxe-o, no entanto, para Portugal e, aqui chegado, ao aspirante a guarda-redes não restou alternativa a não ser a inscrição pelo Nazarenos, que vegetava na III Divisão nacional. Por ali ficou durante cinco épocas, que incluíram até uma passagem de dois anos pelo distrital de Leiria.

O regresso à III Divisão, em 1977, acabaria por revelar-se decisivo. A equipa no Nazarenos fez um excelente sexto lugar na Série D e Domingos brilhou tanto que os responsáveis do Caldas SC, que ganhou a série e subiu ao segundo escalão, quiseram contratá-lo no final da época. E assim se fez: em 1978, um ano depois de celebrar o título no distrital de Leiria, Domingos estava a jogar a II Divisão nacional. Ainda passou duas épocas na zona baixa da tabela, primeiro no Caldas SC e depois já no Ginásio de Alcobaça, mas em 1980 é o Rio Ave quem pensa nele para concorrer com Trindade no ataque à subida de divisão. O objetivo foi atingido – o Rio Ave ganhou mesmo a Zona Norte e celebrou a primeira subida ao escalão principal – mas Domingos só esteve uns minutos em campo, alinhando apenas num jogo… e como suplente utilizado. Não fez, por isso, a viagem para a I Divisão com o resto da equipa de Mourinho Félix.

Dinis Vital acolheu-o de volta em Alcobaça, onde Guerra Madaleno – que no futuro viria por várias vezes a ser candidato à presidência do Benfica – era presidente e queria montar uma equipa capaz de subir. A época foi brilhante e premiada não só com a subida ao primeiro escalão – festejada à penúltima jornada, graças a uma vitória por 3-1 em casa contra o Beira Mar, o que permitiu à equipa perder o último jogo, com o União, em Coimbra, e ainda assim manter-se à frente da Académica – mas também com a presença nas meias-finais da Taça de Portugal. Aí, a jogar em Alvalade frente ao Sporting de Malcolm Allison, que acabaria por festejar a dobradinha, os alcobacenses venderam cara a derrota, cedida pela margem mínima (1-2). Totalista em todas as partidas que levaram à subida, Domingos acabou por manter-se no plantel que na época seguinte foi entregue a Orlando Moreira e pôde finalmente estrear-se na I Divisão. Estava a poucos meses de fazer 30 anos.

Estreou-se na I Divisão a 22 de Agosto de 1982, num empate a uma bola com o Rio Ave, no Municipal de Alcobaça. Orlando Moreira, no entanto, só se decidiu pelo guarda-redes à quinta jornada: nas quatro primeiras foi alternando entre Domingos e Jorge, que já tinha experiência de primeiro escalão, no Portimonense e no Amora. A partir de Setembro, porém, optou definitivamente por Domingos. E mesmo tendo o treinador sido substituído por Edmundo Duarte em finais de Novembro, Domingos manteve-se nas redes, marcando presença, por exemplo, no empate caseiro com o Benfica (1-1, a 5 de Dezembro) ou nas derrotas tangenciais com FC Porto (1-2 nas Antas, a 9 de Janeiro) e Sporting (0-1 em casa, a 27 de Fevereiro). Até que se lesionou. Aconteceu a 6 de Março de 1983, a meio da primeira parte de um jogo em Braga, ainda com o resultado em branco (e o Ginásio acabou por perder por 3-0). Domingos só voltaria nas últimas três jornadas, mas sem qualquer influência no destino que parecia traçado há muito: a equipa era última desde meados de Dezembro e acabou mesmo por ficar com a lanterna vermelha e cair de volta na II Divisão.

O guarda-redes ainda fez uma temporada na II Divisão em Alcobaça, mas a equipa acabou por falhar o objetivo do regresso. Em 1984, seguiu para o Alentejo, onde foi integrar a equipa de O Elvas. A primeira época, na qual a subida ficou a três pontos – subiu o SC Covilhã, tendo os alentejanos fraquejado na ponta final do campeonato, com dois empates seguidos, face a Recreio de Águeda e o GD Peniche – ficou marcada por uma mais visita a Alvalade, em jogo da Taça de Portugal. Nesse 3 de Fevereiro de 1985 um Sporting repleto de internacionais não foi capaz de suplantar a organização defensiva e o guarda-redes de O Elvas, que saíram de Lisboa com um empate a zero e asseguraram um jogo de desempate em casa. Aí, contudo, Sousa e Jaime Pacheco garantiram a vitória (2-0) aos leões. O equilíbrio na eliminatória seria um bom prenúncio para o que aí vinha: em 1985/86, O Elvas assegurou o regresso à I Divisão, com o primeiro lugar na renhida Zona Centro, ainda que garantido apenas depois de julgado a seu favor o “caso Gerúsio”.

Terminando a competição com uma suada vitória por 2-1 em Mangualde – ao mesmo tempo que o Recreio de Águeda goleava o Caldas SC por 9-0 – O Elvas ficava a um ponto dos rivais, mas sabia que estes enfrentavam um processo por utilização irregular do jogador Gerúsio frente ao Académico de Viseu. O Conselho de Justiça da FPF acabou por punir o Águeda com pena de derrota nesse jogo – que a equipa tinha ganho por 3-0 – e quem subiu foi mesmo O Elvas, liderado por Carlos Cardoso. Foi a porta de regresso de Domingos à I Divisão: titular na ronda de abertura do campeonato (derrota por 1-0 na Póvoa de Varzim), manteria mais uma vez a posição até se lesionar, a 5 de Outubro de 1986, numa receção ao GD Chaves. Ainda voltou à baliza, mas a troca de treinador, após uma derrota nos Barreiros, com o Marítimo, por 5-1, em início de Janeiro, acabou por ditar a substituição do guarda-redes: António Medeiros preferiu Crispim. O Elvas, que era penúltimo, ainda caiu para a última posição, e mesmo com Domingos de volta à baliza nas últimas quatro jornadas – incluindo um 6-0 do FC Porto nas Antas – já não saiu de lá e teria mesmo descido, não fosse o alargamento da I Divisão para 20 clubes decidido no final da temporada.

Domingos pôde assim voltar para mais uma época na I Divisão. E mais uma vez começou a prova como titular, remetendo Vítor Pontes para o banco. O guardião angolano fez algumas grandes exibições, como na derrota tangencial contra o Benfica na Luz (1-0, a 4 de Outubro de 1987) ou no empate a zero arrancado contra o Sporting em Alvalade (a 9 de Janeiro de 1988). Em finais de Fevereiro, após uma goleada sofrida em Espinho (0-6) ter deixado O Elvas em 14º lugar, um ponto acima da linha de água, a direção demitiu Mário Nunes, o treinador, substituindo-o por Vieira Nunes. Este manteve o guarda-redes por mais duas jornadas, mas mesmo tendo a equipa segurado o zero defensivo em ambos os casos – empates a zero com o Farense em casa e a Académica em Coimbra – acabou por trocar e dar a titularidade ao brasileiro Hugo, que chegara no mercado de Inverno. Não serviu de nada. O Elvas acabou mesmo por descer de divisão, tendo o último jogo de Domingos no escalão principal sido o empate a zero em Coimbra, a 6 de Março de 1988.

Domingos ainda jogou durante mais duas épocas no Barreirense, onde foi sendo gradualmente substituído por Quim, um guarda-redes mais jovem, formado no Belenenses e com experiência de II Divisão. Já era este a primeira escolha de Benvindo Assis em 1989/90, ano em que a equipa da margem sul do Tejo acabou a Zona Sul da II Divisão em segundo lugar e perdeu o acesso à subida na Liguilha para o CD Aves, no desempate por grandes penalidades. Aos 37 anos, Domingos pensou em deixar as balizas. Ainda voltou a calçar as luvas, por mera carolice, para ajudar o Nazarenos em situação de necessidade, mas os seus futebóis passariam em breve a ser outros. O seu filho Bruno, que veio a fazer uma carreira discreta no futebol de 11, enveredou em 2009 pela variante de praia, na qual chegou a internacional e até a campeão do Mundo.