Passou grande parte da carreira entre a I e a II Divisões, habituando-se ao sobe-e-desce dos dois clubes que representou: o Oriental, de que é figura lendária, e o Atlético, onde foi acabar como futebolista.
2018-02-06

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1956

Há pouco mais de um ano, quando o Oriental festejou o 70º aniversário, três membros das equipas históricas dos anos 50 foram homenageados: Rogério Pipi, José Roçado e Mário Luz. Do primeiro toda a gente ouviu falar, por força da sua anterior passagem gloriosa pelo Benfica, mas os outros dois fizeram também história no clube de Marvila. Mário Luz estava lá quando o Oriental se chegou aos grandes e por lá ficou durante uma década, sempre como esteio defensivo de uma equipa que era de antes quebrar que torcer.

Formado no clube, no pós-guerra, quando a fusão do Fósforos com o Chelas e o Marvilense deu azo a uma febre futebolística sem precedentes na zona oriental de Lisboa, Mário Luz chegou à primeira equipa por necessidade: sem o titular para a posição de médio-centro, o treinador, Alberto Augusto, chamou-o pela primeira vez ao onze a 21 de Outubro de 1951, para uma visita à Académica, entregando-lhe a posição de médio-centro, que no WM daqueles tempos correspondia ao atual defesa-central. O Oriental perdeu por 2-0 e Mário Wilson, o avançado-centro da Académica, fez um dos golos, mas nem aí se encontrou grande novidade, pois a equipa lisboeta chegara ali com três derrotas em quatro jogos. No fim da época, perdeu em 16 das 26 jornadas e regressou à II Divisão. Luz, porém, não voltou a jogar nessa temporada em que fez 20 anos, pelo que terá sido dos menos culpados.

No ano seguinte, porém, o Oriental sagrou-se campeão da II Divisão, ganhando no terreno do Salgueiros (1-0) na penúltima jornada e assegurando logo ali a fazer a volta de honra antes do último desafio. O regresso ao primeiro escalão, Luz já o fez como primeira escolha do treinador, Mariano Amaro: alinhou de início nas primeiras 13 jornadas do campeonato, mas o facto de a equipa ter chegado aí sem vitórias e na última posição levou a algumas alterações. Caiu o treinador, substituído pelo inglês Arthur John, e caiu o defesa-central. Luz só voltou para três jogos na segunda volta, mas o facto de ter feito um autogolo na derrota por 3-0 na Covilhã, a 17 de Fevereiro, não deve ter ajudado grandemente à sua imposição. Privado de jogar no Carlos Salema durante grande parte da época, porque o estádio estava a sofrer obras de beneficiação, o Oriental acabou por ser último na tabela e voltou a cair na II Divisão. E o facto de, desta vez, não ter subido à primeira tentativa também levou a que o regresso, feito após mais um título de campeão nacional do segundo escalão, festejado em Coruche, em 1956, fosse feito quando Luz já era uma certeza no centro da defesa de Marvila.

Lorenzo Ausina não o colocou a jogar na primeira jornada do campeonato de 1956/57, a derrota por 4-2 nas Caldas da Rainha, mas daí para a frente fez dele a base da defesa que ajudou o Oriental a terminar o campeonato no oitavo lugar. De caminho, os grenás empataram em casa com o Benfica (1-1) e ganharam ao Sporting (1-0), entrando na Taça de Portugal com ótimas expetativas – a que porém não viriam a corresponder, acabando eliminados logo à primeira pelo Caldas. Um autogolo de Luz, a cinco minutos do fim da vitória por 4-3 em casa, viria a ser decisivo, face à derrota por 2-0 no Campo da Mata, na segunda mão. Desta vez, contudo, o Oriental conseguira a manutenção, muito graças ao facto de ter acabado o campeonato com a quinta melhor defesa – só Benfica, FC Porto, Sporting e Académica se lhe superiorizaram. E aí o mérito foi muito de Luz, comandante do setor.

Na nova época, porém, tudo mudaria. Luz até foi o único totalista na equipa de Janos Biri – fez os 26 jogos da Liga e os dois que conduziram à eliminação da Taça de Portugal, logo à primeira ronda, pela Académica – mas o Oriental não se salvaria nem quando o húngaro deu o lugar de treinador a Isidoro Conde. No final do campeonato, o último lugar na tabela apontava a equipa à II Divisão, de onde não sairia enquanto Luz por lá andou. Nos três anos que ainda passou de grená, só em 1959/60 o Oriental esteve perto de subir: acabou a Zona Sul em segundo lugar, a um ponto apenas do Barreirense, vendo o sonho da promoção desvanecer a uma jornada do fim, com um empate em Beja. Daí que em 1961 Luz tenha mudado de camisola, assinando por outro clube popular da cidade de Lisboa, mas trocando a zona oriental pela ocidental: passou a vestir com o azul, amarelo e vermelho do Atlético e ainda esteve num excelente campeonato da equipa da Tapadinha.

Comandado pelo argentino José Valle, o Atlético ficou em sexto lugar no campeonato. Luz falhou algumas partidas, entre Fevereiro e Abril, mas esteve na histórica vitória por 2-0 frente ao Belenenses no Restelo, a 7 de Janeiro de 1962. A marca da temporada, para ele, foi no entanto a expulsão no jogo de retribuição, a 20 de Abril: agrediu Vítor Silva e Joaquim Campos mostrou-lhe o cartão vermelho, ainda na primeira parte e com o resultado em aberto. Tal como sucedera no Oriental, a segunda época entre os grandes correu pior. Luz só entrou na equipa no início de Dezembroo, num jogo frente ao Benfica, na Luz. Oscar Montez, o treinador, foi despedido no final desse mês, mas o defesa-central manteve-se de pedra e cal no onze, tanto com Imbelloni como depois, com a chegada de Janos Hrotko. Estava em campo, por isso, no dia da descida: a 12 de Maio de 1963, o Atlético até fez a sua parte, ganhando por 2-1 em Guimarães, mas para se salvar precisava também que o Barreirense não vencesse a CUF – e essa parte do trato não foi cumprida, pois os alvi-rubros impuseram-se por esclarecedores 3-0 que permitiram, mesmo assim, que as duas equipas do Barreiro ficassem na I Divisão.

Luz ainda jogou durante mais dois anos no Atlético, mas aquela vitória triste em Guimarães foi mesmo a sua despedida da I Divisão. Tinha superado a barreira dos 100 jogos no campeonato e deixado o nome ligado à história de dois dos mais populares clubes da cidade de Lisboa.