A guerra na Guiné deu a primeira machadada na carreira de um dos mais promissores avançados portugueses do início da década de 70. A precipitação na assinatura com o SC Espinho fez o resto. A Lemos sobra a tarde de glória dos quatro golos ao Benfica.
2018-02-02

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1969

Sempre que há um FC Porto-Benfica, Lemos é assunto. O avançado que chegou a ser apodado de Gerd Müller português, quando se impôs com um relâmpago na equipa principal do FC Porto e disputou a lista de melhores marcadores até final, fez com apenas 20 anos aquilo que mais ninguém conseguiu em quase um século de clássicos: quatro golos num só jogo, a valerem a vitória portista sobre o Benfica por claros 4-0. Aquele, contudo, foi o ponto áureo de uma carreira que durou muito mas na verdade acabou cedo. A mobilização para a guerra, no mato da Guiné, e depois o deslumbramento pelo dinheiro, que o levou a aproveitar o fim da lei da opção para trocar o FC Porto pelo SC Espinho, que lhe pagava mais, foram golpes impossíveis de digerir para um avançado que, depois dos 25 anos, só fez um golo na I Divisão.

António Lemos nasceu em Luanda, onde o pai trabalhava nos caminhos de ferro, a 21 de Fevereiro de 1950 (e não a 2 de Fevereiro, como vem mencionado em tudo o que são referências à sua história). Em petiz, era benfiquista, também por influência paterna. O jeito para a bola desenvolveu-o no campo do Ferroviário, que ficava mesmo à frente da casa da família. Aos 12 anos já brilhava no futebol de salão da equipa verde da capital da província angolana. Aos 15 passou para o futebol de onze e desatou a marcar golos que o tornaram uma referência do torneio local de juniores. Artur Baeta, técnico da formação portista, ouviu falar dele, aproveitou uma viagem a Angola para o ver e não teve dúvidas: contrate-se! O pai de Lemos, que também tinha sido jogador do Ferroviário, não ficou doido com a ideia de ver o filho viajar para tão longe, mas o início da guerra e a vontade do filho levaram-no a ceder. Não se antes ter conseguido, em duras negociações, que lhe pagassem mais do que o tabelado para juniores do FC Porto: 1200 escudos por mês, mais os estudos, a comida e a instalação no Lar do Jogador, onde ficou com Gualter, seu futuro colega na primeira equipa.

Lemos chegou ao Porto em 1966. Fez o percurso normal nos juniores e, em 1968, tendo a equipa principal referências como Djalma, Custódio Pinto ou Manuel António, os responsáveis portistas decidiram emprestá-lo. Colocaram-lhe várias alternativas à frente: Salgueiros, FC Famalicão, Tirsense, Riopele… Só que Lemos pediu para ir para o Boavista. Sempre era na cidade do Porto ele “achava graça às camisolas”. O rapaz foi então integrado na equipa que António Gama levou à subida de divisão e, no Verão de 1969, lá estava ainda, pronto para a estreia no escalão principal. A 7 de Setembro estava na frente de ataque alinhada para receber o Vitória FC de José Maria Pedroto, num jogo que acabou empatado a duas bolas – e ele teve participação no segundo golo boavisteiro, marcado por Germano, em recarga a um primeiro remate seu. O Bessa era ainda, naquela altura, pelado, um campo muito difícil para qualquer visitante: naquele campeonato, ninguém lá ganhou ao Boavista. Nem o Benfica (1-1), nem o Sporting (0-0), nem o FC Porto (vitória boavisteira por 3-2).

Esse jogo com o FC Porto foi um dos poucos que Lemos não disputou na temporada boavisteira. Foram, ao todo, seis ausências, duas delas frente à equipa dona do seu passe. Os golos é que iam tardando. Lemos jogava sobre a esquerda, tendo Moura como avançado-centro, e só abriu a conta goleadora em Fevereiro de 1970, num jogo da Taça de Portugal, frente ao Varzim (3-0 no Bessa). Esse golo, de penalti, desbloqueou-o: nos 12 jogos até final da época, fez mais oito golos, incluindo um hat-trick ao Belenenses, na sua estreia a marcar no campeonato. Foi a 8 de Março, no Bessa, o Boavista ganhou por 4-1 e o terceiro golo de Lemos a Ferro foi obtido num canto direto. Essa ponta final de temporada teve mais dois pontos altos: o golo nos 3-0 ao SC Braga, que na última jornada do campeonato valeram a permanência aos axadrezados (e a descida bracarense, também…) e o golo ao Benfica, na eliminação da Taça de Portugal (2-3 em casa, na única derrota caseira da época).

Tudo somado, foi considerado suficiente para que Lemos voltasse às Antas. Mas à justa. Esteve para ser emprestado ao Barreirense e só por um voto no plenário de direção se decidiu a sua integração na equipa. No Verão de 1970, assim sendo, lá estava ele, às ordens do carismático treinador escocês Tommy Docherty. E para ser a figura no centro de um ataque que abria nas alas com Abel à direita e Nóbrega à esquerda. Titular desde a primeira jornada – só não o foi na segunda, a receção ao Belenenses, mas entrou a meia-hora do fim para ainda ajudar a equipa a chegar a um difícil 1-0 – foi respondendo com golos. O primeiro de azul e branco foi em Santo Tirso, a 27 de Setembro, e deu uma suada vitória por 2-1. Mas quando ele bisou na deslocação portista à Luz, assinando os dois golos que valeram o empate (2-2), ter-se-á percebido que aquele avançado baixote e atarracado, mas com instinto goleador, movimentação na área e finalização certeira, era jogador de top. E Lemos já tinha marcado também em Alvalade (derrota por 2-1 face ao Sporting, que era campeão nacional) e tornara-se internacional esperança quando veio a tarde de glória: o póquer ao Benfica, nas Antas.

Foi a 31 de Janeiro de 1971, o FC Porto ganhou ao poderoso Benfica por 4-0 e todos os golos foram marcados pelo mesmo homem, que nessa tarde ganhou a alcunha de “Fuzilador do Zé Gato”, em referência a José Henriques, guarda-redes dos encarnados. Naquele tempo, o marketing das empresas passava muito por oferecer produtos aos jogadores que fizessem golos e, não tivesse ele decidido partilhar tudo com a equipa, teria levado muita coisa para casa: ganhou uma máquina de lavar roupa, uma máquina de lavar loiça, um televisor, um gira-discos, 100 contos em tintas e uma mobília de quarto, mas tudo o que arrecadou foi um cheque de 25 contos que um adepto radiante lhe foi entregar ao balneário, no final da partida. Nada mau, para quem naquela altura ganhava 30 contos por mês e até entrou em campo já lesionado, depois do hat-trick, para fazer o quarto.

O FC Porto do início dos anos 70, contudo, sofria muito do trauma da ponte sobre o Douro. Dizia-se que assim que a passava já estava a perder. Na sequência desse jogo com o Benfica, a equipa de Docherty seguia em segundo lugar, empatada com o Benfica de Hagan e o Vitória FC de Pedroto, a três pontos do Sporting de Vaz. Mais três vitórias no mês de Fevereiro permitiram-lhe reduzir as distâncias. A cinco jogos do fim, FC Porto e Benfica seguiam a dois pontos do Sporting. Lemos já fizera 18 golos, contra 21 de Vítor Batista (então no Vitória FC), 17 do benfiquista Artur Jorge e 14 de Eusébio e lutava pelo título de melhor marcador do campeonato. Só que aí tudo se desmoronaria. O empate a zero com a Académica em Coimbra nem foi mau de todo, porque no mesmo dia o Sporting perdeu com o Boavista no Bessa. Pior foi a seguir: a derrota (1-0) com a CUF no Barreiro e a expulsão de Lemos, por agressão a Fernando, que o tirou das três últimas jornadas, por castigo. O FC Porto acabou o campeonato em terceiro – Docherty cedeu a posição a adjunto, António Teixeira, na última jornada – a quatro pontos do campeão, que foi o Benfica. E Lemos foi o quarto melhor goleador, com os mesmos 18 golos que tinha em início de Fevereiro, a cinco de Artur Jorge, que acabou por ser o melhor marcador da prova.

A chegada do brasileiro Flávio, ex-Fluminense, no verão de 1971, levou a que António Teixeira voltasse a desviar Lemos para a esquerda do ataque na nova época. Mesmo gostando ele de fazer os movimentos da esquerda para o meio, de forma a poder chutar de pé direito, a sua produção goleadora disso se ressentiu naturalmente – abriu o campeonato a marcar a Benfica, mas terminou-o com apenas nove tentos em seu nome. A época do FC Porto também foi particularmente negativa: quinto lugar, com quatro treinadores a sucederem-se a um ritmo vertiginoso. Para Lemos, ainda assim, ficou a estreia nas competições europeias (0-2 em casa com o FC Nantes, a 15 de Setembro). O pior veio depois. A chamada ao serviço militar impedia-o de treinar durante a semana e Lemos fez apenas dez jogos nessa época (três deles nas competições europeias), o último dos quais a 17 de Dezembro, uma vitória por 2-0 em Coimbra sobre o União. Por essa altura, Tommy Docherty foi nomeado treinador do Manchester United e quis levá-lo para a Liga inglesa, mas esbarrou na intransigência dos dirigentes portistas, que recusaram deixá-lo sair.

A questão é que se não saiu para Inglaterra, Lemos acabou por sair para a guerra de África. E não foi para Cabo Verde, como parecia destinado. Em vez da guerra suave das ilhas atlânticas, foi mandado para o mato da Guiné, onde as coisas eram muito mais duras. À exceção de um breve interregno, onde ainda pôde jogar pela UDI Bissau, o futebol teve de ser posto em espera na vida de Lemos até ao 25 de Abril de 1974 e à desmobilização. Só arranjou transporte de volta a Portugal em Setembro de 1974, o que naturalmente lhe atrasou a entrada na equipa então dirigida pelo ex-selecionador brasileiro Aimoré Moreira. No FC Porto jogava então um astro como Cubillas e tinham despontado jovens craques como Oliveira e Gomes. A vida não ia ser fácil para Lemos, que mesmo assim encontrou um lugar no onze, mais uma vez a partir da asa esquerda. Voltou a jogar pelo FC Porto a 18 de Setembro, substituindo Abel nos últimos 20 minutos de um pujante 4-1 ao Wolverhampton, na Taça UEFA. No campeonato, teve uma reentrada em grande: a 5 de Outubro, Gomes lesionou-se a meio da primeira parte de uma receção ao Olhanense, Lemos entrou e ainda fez dois golos na vitória portista por 4-1. Havia que contar com ele.

Feitas as contas, foram 13 golos em 19 jogos de campeonato, mais um a valer a passagem aos quartos-de-final da Taça de Portugal, num 3-2 ao Vitória SC, em Braga. Só que aí falaram mais alto os naturais exageros provocados pela liberdade de quem durante tantos anos tinha sido amordaçado. Lemos acabava contrato, a Lei de Opção – que obrigava os jogadores a renovar contrato desde que o clube onde jogavam lhes mantivesse o salário – tinha sido revogada e o jogador, que tinha apenas 25 anos, viu aqui uma oportunidade. Como do FC Porto não vinham novidades, aceitou uma proposta do SC Espinho, que tinha descido de divisão, queria regressar e lhe oferecia o dobro do que ele ganhava no FC Porto. Quando soube disso, Branko Stankovic, o jugoslavo que tinha chegado para treinar o FC Porto, ainda tentou demovê-lo e Lemos até terá ficado mais ou menos convencido, mas como já tinha assinado e não houve acordo entre clubes, não lhe restou alternativa a não ser seguir para Espinho. Ali, formando dupla com o brasileiro Telé, ainda foi fazendo golos até partir uma perna, a meio da época. Mau para quem queria voltar à I Divisão. Acabou, assim, por fazer uma espécie de périplo por equipas do escalão secundário, e sempre sem muito êxito: desceu com o Paredes em 1977, voltou a descer com a Sanjoanense em 1978.

Mesmo assim, conseguiu a oportunidade reclamada e, nesse verão, teve entrada no plantel que Mário Morais estava a formar no Académico de Viseu. Apesar de só contar 28 anos, já não era o mesmo jogador. Em Viseu, marcou apenas um golo, a 7 de Janeiro de 1979, a valer um empate caseiro com o SC Braga (1-1). Duas semanas antes, tinha podido jogar os últimos três minutos da pesada derrota que a sua equipa sofreu nas Antas contra o FC Porto (6-1), só para receber os aplausos dos adeptos que um dia tinham sido dele. Despediu-se do campeonato a 11 de Março, com uma derrota em casa (0-1) contra o Sporting, que deixava o Académico na última posição da tabela. As oito derrotas somadas até final, já sem ele em campo, mais não fizeram do que confirmar o lugar e a despromoção, a terceira seguida para Lemos. O avançado que um dia fez sonhar os portistas ainda jogou mais cinco anos, no FC Infesta, quatro deles na III Divisão e o último no regional do Porto. Ali foi ainda treinador dos juniores, mas acabou por não ficar ligar ao futebol: até se reformar, trabalhou numa clínica e numa empresa de táxis, vivendo atualmente em Gondomar.