Era um defesa fino, que a imprensa da época dizia ser metódico e disciplinado. Cresceu no Porto, mas foi em Braga que se fez jogador, em mais de uma década de presença na equipa da cidade. E treinador, quando a conduziu à sua primeira Taça de Portugal.
2018-01-31

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1949

Manuel Palmeira é um nome que inflama os bracarenses. Uma daquelas situações frequentes quando se mexe com registos antigos levou a que os anuários feitos pelos jornais registassem o jogador Rui Sim-Sim como treinador do SC Braga, na final da Taça de Portugal que os minhotos ganharam ao Vitória FC, em 1966, com o mítico golo de Perrichon. Não era. Sim-Sim, que estava lesionado, funcionou como uma espécie de adjunto do homem que substituiu José Valle como treinador no final da temporada, que era Manuel Palmeira. Um homem que nasceu no Porto e passara mais de uma década como figura incontornável da defesa bracarense, ajudando o clube a afirmar-se na I Divisão, no final da década de 40.

Natural de Paranhos, Palmeira tinha aptidão para o desporto. Durante muito tempo, enquanto pôde fazê-lo, jogava andebol no Salgueiros e futebol no Académico do Porto. Foi ali, no clube que fazia do Lima a sua casa, que chegou a sénior. O Académico, naquela altura, era uma das melhores equipas portuguesas, treinada pelo húngaro Janos Biri e, por via das classificações que obtinha no regional, presença regular no campeonato da I Liga. Palmeira é que nunca conseguiu afirmar-se e, em quatro anos, só foi chamado uma vez a um jogo de campeonato. Ainda por cima a coisa correu mal. A 31 de Março de 1940, ante uma razia nos titulares, Biri levou alguns miúdos para uma visita ao Sporting, onde já brilhava o prolífico Peyroteo. Palmeira estreou-se nessa tarde e o resultado só parou nos 11-2 favorável aos leões.

Certo é que, após quatro anos sem grandes oportunidades, o jovem defesa optou por baixar um degrau na escada da afirmação e foi jogar para o FC Vizela, no Minho. Ali, alinhando num regional menos exigente e no campeonato da II Divisão, sempre pôde destacar-se mais do que nas reservas academistas e uma época lhe bastou para chamar a atenção do SC Braga. Arranjou emprego como pintor de automóveis e passou a envergar a camisola vermelha e branca, por alguns anos ainda na II Divisão. Só em 1947, já Palmeira tinha 26 anos, é que o SC Braga logrou subir de divisão. Começou por ganhar a sua série, onde figurava o Académico do Porto, e depois foi a equipa mais forte da fase nacional, que decidia subida e campeão, num final ao sprint. O jogo decisivo, no Montijo, foi adiado por causa de um inquérito federativo que levou à irradiação de um dirigente bracarense e à suspensão de outro, mas acabou mesmo por se realizar, quase um mês depois da data prevista. As duas equipas entraram em campo a 29 de Junho e o SC Braga sabia que tinha de ganhar para se superiorizar ao Lusitano de Vila Real. Com Palmeira firme na posição de defesa-direito, os bracarenses ganharam por 2-0 e festejara ali a subida e o título de campeões do escalão secundário.

Quando, a 16 de Novembro de 1947, foi incluído por Alberto Augusto no onze do SC Braga que se deslocou a Lisboa para defrontar o Benfica, no arranque do campeonato, Palmeira terá tido uma dupla sensação de “deja vu”. Porque era dos poucos na equipa que já sabia o que era jogar na I Divisão. E ainda porque, tal como na primeira vez que o fizera, voltou a sair vergado ao peso de uma goleada: agora foram 6-1 do Benfica de Julinho. Feitas as contas finais, porém, a época nem correu mal. Palmeira fez 25 dos 26 jogos do campeonato – falhou apenas a derrota em Vila Real de Santo António – e ainda lhes somou mais duas presenças na Taça de Portugal, prova da qual o SC Braga saiu nos oitavos-de-final, surpreendentemente vergado pelo Portimonense. O 13º lugar na tabela final não foi tão brilhante como o empate em casa contra o Benfica (1-1), mas permitiu o acesso à Liguilha, contra o segundo da II Divisão, o Barreirense. E aí, num só jogo, os bracarenses ganharam (1-0) e garantiram a manutenção.

Foi menos sofrida a permanência na segunda temporada: em 1948/49, o SC Braga já acabou o campeonato num tranquilo oitavo lugar, bem longe das agruras da luta para fugir à descida de divisão. Palmeira jogou menos, porque esteve lesionado durante os meses de Outubro e Novembro, não marcando por isso presença na histórica vitória (1-0) sobre o Sporting, que era o campeão – e viria a renovar o título. Estaria, no entanto, no sucesso ante o FC Porto (2-0, no Campo da Ponte, a 9 de Janeiro de 1949) e na vitória contra o Belenenses (1-0, a 24 de Abril) que permitiu aos bracarenses chegar aos quartos-de-final da Taça de Portugal. Aí, contudo, já baquearam, perdendo por 3-1 frente ao SC Covilhã, na serra. Liderada por Francisco Duarte, a equipa bracarense tinha conseguido estabilizar entre os grandes: em 1949/50 repetiu a oitava posição, desta vez com Palmeira a fazer figura de totalista: alinhou nas 26 jornadas da prova, incluindo um histórico 6-0 ao FC Porto, a 4 de Dezembro de 1949.

Em 1950 regressou a Braga o treinador húngaro Josef Szabó, de quem se diz que foi quem, na primeira passagem pelo clube, adotara o equipamento à Arsenal, com camisola vermelha e mangas brancas. Isso não alterou em nada o estatuto de Palmeira na equipa: mesmo tendo ficado de fora nas primeiras três jornadas, alinhou depois em 22 dos 23 jogos que restavam, incluindo a vitória sobre o Benfica (3-1), a 7 de Janeiro de 1951. Palmeira era já um jogador de grande experiência – fez os 30 anos durante este campeonato, que os bracarenses acabaram em sétimo lugar – mas ainda tinha muito para dar, fruto de um condicionamento físico que era perfecionista. Quando jogou menos, ainda com Szabó, no oitavo posto de 1951/52 – uma lesão roubou-lhe três meses de época, entre Janeiro e Março – ter-se-á começado a falar em retirada. Mas ainda era cedo. Palmeira não dissera a última palavra.

Com Armando Martins no papel de treinador, o defesa direito tornou-se o batedor de penaltis dos minhotos. Era uma questão de tempo até se estrear a marcar no campeonato. E aconteceu a 8 de Fevereiro de 1953, num jogo em casa contra o Sporting: cinco minutos depois de, com um autogolo, ter colocado os leões em vantagem por 4-2, bateu Carlos Gomes da marca dos onze metros para lançar a discussão do resultado nos últimos 20 minutos de jogo. Só mesmo no apito final é que Martins fez o 5-3 para o Sporting. Nesse campeonato, o último que fez como titular do SC Braga, Palmeira fez mais dois golos: um deles também de penalti, em Coimbra, num 2-0 à Académica, o outro num remate de longe que ainda assim não chegou para evitar uma derrota (2-3) em Évora, contra o Lusitano.

Fernando Vaz, o treinador que chegou a Braga em 1953, ainda lhe deu a titularidade na primeira jornada do campeonato seguinte, a 4 de Outubro – um 2-0 em casa ao Barreirense – mas ali, sim, a viagem de Palmeira estava a chegar ao fim. Antunes, que Vaz converteu em defesa-direito, manteve a posição com Imbelloni, em 1954/55, de forma que Palmeira só fez mais um jogo com a camisola do SC Braga: despediu-se a 23 de Outubro de 1955, mais de dois anos após a última presença, jogando como defesa-esquerdo numa derrota por 4-1 em Coimbra, contra a Académica. O último lugar nesse campeonato ditou a descida de divisão do SC Braga. A Palmeira restou o papel de adepto e, quando foi necessário, de treinador interino de um clube que aprendera a amar.

Foi o que aconteceu no final da época de 1965/66. José Valle demitiu-se no fim da temporada, após o 10º lugar no campeonato e, sobretudo, dois resultados pesados com o Vitória SC (3-5 em casa) e o Vitória FC (1-8 em Setúbal). Como o SC Braga estava ainda na Taça de Portugal – e tinha mesmo afastado o Benfica – era preciso alguém que pegasse na equipa para as meias-finais. Aí, o adversário era o Sporting, que até acabara de ser campeão nacional. Foi Palmeira quem o fez. A aventura começou com um empate frente aos leões: 1-1, a dar a ideia de que a segunda mão, em Alvalade, seria um arraso. Só que, em Lisboa, os bracarenses repetiram o resultado. Adiou-se a decisão para uma “negra”, no restelo, onde os comandados de Palmeira venceram por 1-0, com mais um golo de Perrichon, que assistira Bino no primeiro jogo e marcara ele mesmo no segundo. Da mesma forma que viria a marcar o único golo da final, jogada contra o mesmo Vitória FC que menos de um mês antes goleara os bracarenses por 8-1. O SC Braga conquistava ali o seu primeiro troféu nacional.