Símbolo do renascimento do FC Porto na década de 70, foi o capitão e um dos jogadores fundamentais na equipa de Pedroto, mas nunca confundiu as coisas: a sua relação era com o clube, o único que representou em toda a carreira.
2018-01-29

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1972

A admiração de Rodolfo por José Maria Pedroto sempre foi enorme e manifestada em todas as entrevistas que ia dando ao longo da carreira. Era mais que admiração. Era reconhecimento por ter visto o “Mestre” fazer dele pedra fundamental no meio-campo de labor e pressão que ajudou o FC Porto a reconquistar o título de campeão nacional, em 1978, depois de 19 anos de jejum. Mas quando as coisas entortaram e o clube afastou Pedroto – e Pinto da Costa – no Verão de 1980, o capitão não teve dúvidas acerca de onde tinha de estar: ficou do lado do clube e não foi engrossar as fileiras dos que, na pré-época, desertaram como forma de mostrar solidariedade. A relação de Rodolfo era acima de tudo com o FC Porto, o único emblema que usou ao peito desde que foi aprovado por António Feliciano num treino de captação, aos 13 anos, até decidir pôr termo à carreira de futebolista, com 30.

Feliciano foi outro homem muito importante na carreira deste portista, filho de um marceneiro e de uma doméstica, que crescera a jogar à bola na rua no bairro de Lordelo do Ouro, ali para os lados da Boavista. Aos 13 anos, consciente de que os pais tinham razão quando lhe diziam que os sapatos não eram para estragar em jogatanas de rua e com vontade de mostrar o que valia ao mais alto nível, Rodolfo foi ao Campo da Constituição tentar a sorte nas captações do FC Porto. António Feliciano, ex-glória do Belenenses que por esses tempos era responsável pela formação do FC Porto viu nele potencial e quis ficar logo com ele. Não se enganou: Rodolfo foi figura central nas equipas de iniciados, juvenis e juniores dos azuis e brancos, chegando mesmo a internacional em todas elas. E mesmo a entrada na equipa principal teve o dedo de Feliciano. Em inícios de Março de 1972, estando a direção portista descontente com o trabalho do técnico brasileiro Paulo Amaral – que chegara no Outono e já era o terceiro da época – mandou-o embora e entregou a equipa nas últimas nove jornadas a Feliciano. Este, logo no primeiro jogo, uma viagem a Coimbra para defrontar a Académica, convocou Rodolfo.

Titular na vitória por 1-0 em Coimbra, a 12 de Março, com apenas 18 anos, Rodolfo manteve a vaga na jornada seguinte, uma receção ao Vitória SC. Ao intervalo, com 1-0 no marcador, saiu para dar lugar a Seninho e forçar o ataque. Sem ele em campo, porém, os vimaranenses deram a volta: 1-2. Seguia-se a viagem a Alvalade, para defrontar o Sporting: Rodolfo jogou apenas os últimos quatro minutos e o FC Porto voltou a perder: 1-2. Alguma coisa o rapaz tinha, pelo que Feliciano tratou de lhe arranjar lugar no onze. Passou a ser lateral e ainda somou 12 presenças nesta primeira meia temporada, três das quais na Taça de Portugal, prova de que o FC Porto saiu com estrondo, vergado pelo Benfica a um 6-0 na Luz, nas meias-finais. Esse jogo, bem como as derrotas com a CUF e o Vitória FC, que impediram o FC Porto de ir além do quinto lugar final, implicaram algum retrocesso na carreira de Rodolfo. Em 1972/73, com a chegada de Fernando Riera para comandar a equipa, perdeu a vaga de titular. Gualter era o lateral direito escolhido pelo chileno e só na reta final da temporada é que Rodolfo teve alguma continuidade. Fez, a 8 de Abril de 1973, o primeiro golo da sua carreira de sénior: combinou com Flávio e marcou o segundo num 3-1 ao Beira Mar, na Taça de Portugal.

Esse final de época valeu a Rodolfo a titularidade em 1973/74, quando o FC Porto foi entregue a Bela Guttmann. Nessa época falhou apenas uma jornada de campeonato e fez mesmo o seu primeiro golo na prova: foi a 30 de Setembro de 1973, num remate de longe, num empate em casa (1-1) contra a CUF. O FC Porto, no entanto, voltou a quedar-se por um frustrante quarto lugar, pelo que o chicote da direção voltou a estalar: fora Guttmann, entra o ex-selecionador brasileiro Aimoré Moreira. Rodolfo teve então direito à estreia nas provas europeias, num 4-1 ao Wolverhampton, nas Antas, a 18 de Setembro de 1974, mas a incorporação militar, na Póvoa de Varzim, dificultou-lhe a afirmação numa equipa que começava finalmente a ver frutos dos muitos jovens que integrara recentemente. Mesmo tendo Aimoré Moreira ido embora em finais de Fevereiro, o FC Porto acabou o campeonato em segundo lugar. Rodolfo é que jogou menos, apesar da condição de internacional esperança. Como menos ainda jogaria em 1975/76 com Branko Stankovic: só quando, em Março de 1976, o jugoslavo foi afastado e para o seu lugar entrou Monteiro da Costa é que ele entrou verdadeiramente na equipa.

Mas vinha aí a revolução no FC Porto. No final dessa época, após mais um quarto lugar, anulou-se a “suspensão” a José Maria Pedroto, que saíra das Antas como “persona non grata” no final da década anterior e entretanto transformara Vitória FC e Boavista em potências. Com Pedroto ao leme, Rodolfo tornou-se imprescindível. E a meio-campo, onde foi impor a pressão e o sentido de marcação que ali faziam falta. Os portistas ainda acabaram o campeonato em terceiro lugar, mas ganharam a Taça de Portugal, que bateram por 1-0 na final, jogada nas Antas. Rodolfo fez os sete jogos da campanha, incluindo a concludente vitória por 3-0 sobre o Sporting, também em casa, em Abril. Aquele troféu era o que faltava à equipa do FC Porto para acreditar que podia ser campeã nacional – o que veio a conseguir logo na época seguinte, com Rodolfo a alternar com Oliveira no papel de capitão. O extraordinário campeonato que fez – falhou apenas dois jogos, por castigo, na sequência de uma expulsão conjunta, com Artur, em Alvalade, por os dois se terem envolvido numa cena de agressões – levou-o mesmo à seleção nacional: Juca deu-lhe a primeira de seis internacionalizações A em Copenhaga, a 9 de Outubro de 1977, fazendo-o entrar a 25 minutos do fim para o lugar de Chalana com o intuito de segurar a vantagem (3-1) de que Portugal dispunha.

O sofrido empate caseiro com o Benfica (1-1), a 28 de Maio de 1978, quase garantia o título, que foi festejado a 9 de Junho, na última jornada, com um 4-0 ao SC Braga. Faltava a final da Taça de Portugal, frente ao Sporting, mas aí Pedroto abdicou de Rodolfo, que não jogou no empate (1-1) no Jamor nem, depois, na derrota (1-2) na finalíssima. Estava, no entanto, de regresso para a época seguinte: no ano do bicampeonato, falhou apenas quatro jornadas, duas delas por castigo, após mais uma expulsão, outra vez em Alvalade, contra o Sporting. O “mau feitio” fazia parte do pacote de um jogador que dava tudo em campo, que muitos adversários acusavam de ser maldoso – alguns ainda hoje fazem alarde de dizer que nem sequer lhe falam –, mas que nunca regateava esforços em defesa da equipa. Ficou para a história dessa época a forma como, pendente de notícias acerca do parto de alto risco que a mulher, Ana Maria, estava a iniciar, ele jogou os 90 minutos do jogo em casa com o Barreirense que garantiu o bicampeonato nacional. Felizmente, tudo correu bem em ambos os “campos”.

Rodolfo era já figura essencial do onze do FC Porto ia alinhando também pela seleção nacional. Apesar de uma lesão na receção ao Rio Ave, nas Antas, em Março, o ter afastado durante quase dois meses, viveu por dentro o quente final de época de 1980. Perdido o tricampeonato para o Sporting, o FC Porto guerrilheiro montado por Pedroto e Pinto da Costa – este na altura como diretor do departamento de futebol – motivou uma invulgar aliança entre os grandes de Lisboa nas bancadas da final da Taça de Portugal, que os portistas disputaram com o Benfica. A derrota por 1-0 (Rodolfo saiu ao intervalo, para dar lugar a Albertino) levou a direção a decidir que não queria mais aquele caminho de confronto e a afastar Pedroto e Pinto da Costa. Isto gerou uma espécie de motim na pré-temporada, com parte do plantel a treinar com o novo técnico, o austríaco Herman Stessl, nas Antas, e outra parte a seguir um plano de preparação desenhado por Pedroto e posto em prática por Hernâni Gonçalves. Neste segundo grupo estavam quase todos os “pesos pesados” do balneário, mas não Rodolfo, que permaneceu fiel ao emblema e não aos homens.

Quase todos regressaram, ainda assim, antes de o campeonato começar. A equipa, porém, não fez mais do que igualar a performance da época anterior: segundo lugar, desta vez atrás do Benfica, e derrota na final da Taça de Portugal, contra o mesmo Benfica (1-3). Rodolfo voltou a jogar a final – aliás, só não esteve na primeira das sete partidas da caminhada, a visita ao modesto Torres Novas (1-0). E parecia bem lançado para uma excelente época em 1981/82. À sétima jornada, quando o campeonato foi interrompido para dar lugar aos jogos de qualificação para o Mundial, o FC Poto liderava, a par do Sporting, já com quatro pontos de avanço sobre os terceiros. Além disso, eliminara o Vejle da Taça das Taças e até ganhara em casa à AS Roma, na primeira mão da segunda eliminatória, por um promissor 2-0. Rodolfo tinha feito os 900 minutos desses dez jogos e foi por isso com normalidade que Juca lhe deu a titularidade na seleção que, a 28 de Outubro, jogava em Tel-Aviv com Israel. Nesse jogo, o médio portista fez uma rotura de ligamentos do joelho, vendo acabar ali a época. Já não jogou, por exemplo, na Supertaça, que o FC Porto conquistou face ao Benfica.

Aliás, Rodolfo só voltaria a jogar no início da época seguinte, já com Pinto da Costa a presidente e Pedroto de volta como treinador. Recuperou o estatuto de capitão e ainda jogou mais duas épocas, mas sem voltar a ser campeão nacional. Na segunda, viu por dentro como crescia o meio-campo que havia de relegá-lo para um papel de alternativa (Jaime Pacheco, Frasco e Sousa). Ainda fez cinco jogos na campanha que levou o FC Porto à final da Taça das Taças – entre eles o importante empate em Donetsk, nos quartos-de-final – mas já não esteve na partida de Basileia, perdida frente à Juventus (1-2). Da mesma forma, esteve em quatro partidas na vitória portista nessa Taça de Portugal, entre elas o sofrido empate em Alvalade com o Sporting (1-1), nas meias-finais, levando a decisão da eliminatória para as Antas, mas não alinhou no Jamor, nos 4-1 ao Rio Ave que garantiram o troféu. Esse empate em Alvalade, a 28 de Março de 1984, acabou por ser o último jogo oficial que fez com a camisola do FC Porto. No final da época, apesar de ter apenas 30 anos, vendo que não tinha já nível para jogar com regularidade no clube do coração, pôs termo à carreira.

Rodolfo Reis foi então treinador nas camadas jovens portistas, antes de se aventurar como técnico principal em clubes como o Salgueiros, o FC Famalicão, o Gil Vicente, o Tirsense, o Beira Mar ou o Leça. Regressou às Antas para ser adjunto de Fernando Santos, entre 1998 e 2001, tendo na ocasião participado na conquista do quinto título do histórico penta. Depois disso deixou o futebol no ativo, sendo hoje comentador afeto ao FC Porto num dos muitos programas de debate futebolístico que existem nos canais de TV por cabo.