Foi sempre em campo o que continua a ser fora dele: um tipo bem disposto, capaz de semear gargalhadas à sua volta. O perfil era pouco compatível com o lugar de guarda-redes, que os livros dizem exigir circunspeção, mas Neno não deixou de ser dos melhores
2018-01-27

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1980

Quem o vê agora nas múltiplas aparições públicas, seja como relações públicas do Vitória SC ou como cantor romântico, vê Neno no seu melhor. Os gestos largos, a gargalhada sonora à qual é impossível ficar indiferente, a alegria contagiante já as tinha quando brilhava nas balizas do futebol português. Isso causou-lhe até alguns dissabores, com treinadores que lhe levavam a mal a tendência para a brincadeira, o apetite pela provocação que ganhara até depois de uma infância vivida numa família rigorosa nos princípios. Neno, no entanto, era assim. Dizia que “a vida tem de ser levada a rir” e até hoje não se arrependeu. Podia ter ganho mais jogos, mais campeonatos? Talvez. Mas os que ganhou souberam-lhe muito bem.

O futebol, para Neno, foi sempre um acrescento àquilo que o pai, um dos mais credenciados professores de Cabo Verde, queria dele: educação. Podia jogar à bola desde que fosse passando de ano. Na Cidade da Praia, onde viveu até aos 11 anos, era invariavelmente chamado para as peladas de rua pelos mais velhos. Jogava, encoberto pela mãe, desde que não se atrasasse para a hora das refeições, que na família Barros era sagrada. Ia à baliza porque era o mais pequeno, e logo ali passaram a chamar-lhe “Elástico”, pela forma como chegava a bolas que pareciam inalcançáveis. A apetência pelos postes manteve-a quando, em 1973, a família veio para a Metrópole (especificamente para o Barreiro) em busca de uma educação melhor para os filhos. Aos 13 anos, depois de o verem jogar, quiseram levá-lo às captações do Barreirense, mas ele olhou para o tamanho dos outros e encolheu-se. Fugiu.

O primeiro clube de Neno acabou assim por ser o Santantoniense, pequena coletividade de Santo António da Charneca. Passou um ano na sombra de um guarda-redes um ano mais velho, mas à segunda época impôs-se finalmente, a ponto de ter sido chamado à seleção regional, onde estavam também, por exemplo, Oceano e Manuel Correia, que mais tarde fizeram carreira na I Divisão. O Barreirense passou então a olhar para ele com outros olhos e conseguiu mesmo convencê-lo a trocar de cores. Foi assim que, aos 18 anos, em 1980, com o clube na III Divisão, Neno, que ainda era júnior, começou a época como terceiro guarda-redes, atrás de Andrade e Palma Lopes, que tinham chegado do Seixal e do Paio Pires. Antes de começar o campeonato, porém, já era ele o titular: foi totalista na campanha de subida à II Divisão, conseguida com um segundo lugar na Série F, atrás apenas do Esperança de Lagos.

Neno acabou por ficar mais três épocas no Barreirense, sempre a meio da tabela da II Divisão, mas a meio desse percurso já motivara o interesse do Benfica. O Barreiro era, por aqueles tempos, um feudo encarnado – dali tinham chegado muitos dos titulares das águias – e Bento, ele próprio um histórico do Barreirense, já tinha começado a ir ver os jogos daquele jovem guarda-redes que teimava em defender sem luvas. As primeiras que usou, aliás, foi o titular do Benfica e da seleção nacional quem lhas ofereceu. Até que, em 1984, o Benfica achou que ele já estava pronto para dar o salto e lhe acenou com uma proposta. O caso ainda motivou algum debate, porque o Barreirense quis renovar-lhe o contrato, duplicando-lhe o salário, e Neno aceitou, obrigando o Benfica a entender-se com o clube da Margem Sul. Certo é que em Julho de 1984 o guarda-redes cabo-verdiano se apresentou na Luz e logo à chegada o avisaram que a concorrência ia ser muita: havia Bento, mas também Delgado e Silvino, que regressava de um ano de empréstimo ao Vitória SC.

As confusões em torno do contrato de Tomislav Ivic, o treinador que Fernando Martins escolhera para suceder a Sven Goran Eriksson mas que antes de começar o campeonato se foi embora, cedendo a vez ao húngaro Pal Csernai, levaram a que a carreira de Neno tivesse ficado um pouco em suspenso. Só em finais de Setembro os responsáveis se decidiram a libertá-lo, optando por um empréstimo ao Vitória. Em Guimarães, a baliza era de Jesus, mas Neno teve uma oportunidade assim que chegou: a 7 de Outubro de 1984, Raymond Goethals, o treinador belga que veio ao Minho cumprir o castigo nascido no caso de corrupção no Standard Liège, deu-lhe a baliza numa vitória caseira sobre o Rio Ave, por 3-2. O cabo-verdiano ainda saiu por mais quatro jornadas, mas a partir de Novembro passou a tomar conta das redes até final da época. Foi ele que defendeu, por exemplo, no empate a zero que o Vitória arrancou frente ao Benfica, na Luz, em Março.

Finda a época de estreia na I Divisão, o Vitória SC queria ficar com Neno. Mas o Benfica não deixou e mandou-o regressar. Na Luz, ainda com Bento em alto nível (apesar dos 37 anos), e também com Delgado no plantel, Neno teve de amargar muito banco. Dois jogos na primeira época, um dos quais na Taça de Portugal – um 2-0 ao Alverca, em Novembro de 1985 – valeram-lhe o primeiro troféu coletivo, mesmo tendo visto Bento defender na final com o Belenenses: 2-0 no Jamor. A grave lesão que pôs termo à carreira de Bento, no Mundial’86, veio abrir a luta pelas balizas do Benfica. Silvino saiu na frente, mas em Novembro John Mortimore trocou de guarda-redes e foi Neno quem defendeu nos 2-0 em casa à Académica. Seguiam-se jogos de grande importância, como a Supertaça frente ao FC Porto. Neno jogou muito bem na primeira mão (1-1 nas Antas), manteve-se na baliza frente ao Bombarralense, na Taça de Portugal, mas não foi feliz na segunda mão da Supertaça. O 2-4 em casa e as responsabilidades que o técnico inglês lhe assacou acabaram-lhe ali com a época, mas também com a relação com Mortimore, que Neno veio mais tarde a acusar de não lhe suportar o feitio extrovertido e a gargalhada frequente.

Certo é que, apesar da dobradinha, Neno acabou por mudar de ares. A amizade com Paulo Oliveira, ex-colega de jogos de bola na escola e filho de Fernando Oliveira, presidente do Vitória FC, levou-o até Setúbal. O problema é que o guarda-redes da equipa de Malcolm Allison era Ferenc Meszaros, o internacional húngaro que já tinha sido campeão no Sporting. Neno não conseguiu, por isso, jogar com muita frequência, pelo que no Verão de 1988 optou por regressar a Guimarães, onde Pimenta Machado ainda não se esquecera dele e o pediu como moeda de trocana venda do brasileiro Ademir. Titular desde a primeira hora com o brasileiro Geninho, pôde estrear-se nas competições europeias, frente ao Roda, da Holanda – derrota por 2-0 e eliminação depois da vitória com golo solitário em casa – e conhecer a alegria de ganhar uma competição por um clube que não os grandes. Foi muito na categoria do seu guarda-redes que o Vitória SC assentou o sucesso na Supertaça, frente ao FC Porto, com uma vitória por 2-0 no D. Afonso Henriques e um empate a zero nas Antas. No final da época, como prémio, fez o primeiro jogo pela seleção nacional. E que jogo! A 8 de Junho, Juca deu-lhe a baliza de um Portugal sem algumas das suas maiores vedetas, no Maracanã, contra o Brasil. O resultado foi mau – derrota por 4-0 – mas a experiência de jogar naquele mítico relvado do Rio de Janeiro ficou-lhe para sempre na memória.

Neno resistiu mais um ano em Guimarães. Indiscutível na equipa de Autuori, cujas redes só deixou por lesão, entre Janeiro e Maio de 1990, era suplente de Silvino na seleção que acabou por falhar a qualificação para o Mundial. No final da época, porém, o Benfica quis recuperá-lo, precisamente para concorrer com Silvino. Eriksson regressara e, a partir de Dezembro, após um empate a dois golos em Faro, fez a troca: Neno passou a número um, defendendo as redes do Benfica nas últimas 18 jornadas de um campeonato que os encarnados venceram. Neno até já tinha sido campeão, mas esta era a primeira vez que o conseguia a jogar. Na seleção é que as coisas se complicaram, porque entretanto apareceu Vítor Baía, que viria a ser o dono da baliza nacional durante mais de uma década. Daí as nove internacionalizações apenas do guardião cabo-verdiano, que se despediu em Janeiro de 1996, acabando por falhar a presença como segundo guarda-redes no Europeu para cuja qualificação até tinha contribuído, ainda que apenas com quatro minutos, por cortesia, no jogo decisivo contra a República da Irlanda, na Luz (vitória por 3-0).

Do mal o menos – Neno era, em 1991, dono e senhor das redes do Benfica. Fez todos os jogos do campeonato de 1991/92, do qual falhou apenas cinco minutos, por causa de uma expulsão em Penafiel, na penúltima jornada: Mário Leal mostrou-lhe o segundo amarelo antes de o punir com um penalti que, a cinco minutos do fim, deu o 2-2 final. O campeonato, esse, já estava entregue ao FC Porto. De qualquer modo, Neno teve ainda nessa época a alegria de jogar a edição inaugural da Liga dos Campeões, à qual o Benfica acedeu graças a uma vitória por 3-1 frente ao Arsenal, em Londres. A troca de treinador, porém, voltou a custar-lhe o lugar em 1992: com Ivic, ainda começou o campeonato, mas à quarta jornada o croata deu outra vez a baliza a Silvino. Restou-lhe a Taça de Portugal, na qual mantinha o estatuto de titular e cuja final jogou pela primeira vez, já com Toni aos comandos: 5-2 ao Boavista e a alegria de ganhar também esse troféu em campo, com uma exibição de luxo da equipa encarnada. Pelo meio, em Março, uma lesão de Silvino, em Turim, logo a abrir o jogo que redundou na eliminação encarnada da Taça UEFA (derrota por 3-0) deu-lhe uma oportunidade de voltar, mas ele acabou por desperdiça-la ao ser expulso no Bessa, frente ao Boavista, no jogo que o Benfica acabou com Paulo Sousa na baliza e mesmo assim ganhou, por 3-2.

Neno voltou a ser campeão nacional a jogar, em 1993/94: falhou apenas um jogo na caminhada do Benfica até ao título, alinhando, por exemplo, no histórico 6-3 de Alvalade, com show de João Pinto, ou nas meias-finais da Taça das Taças, em que o Benfica cedeu face ao Parma. Finda a época, contudo, Toni foi despedido e Artur Jorge, o novo treinador, viu a direção dar-lhe como presente Michel Preud’homme, um dos melhores guarda-redes do Mundo, que brilhara com grande intensidade na baliza da Bélgica no Mundial dos EUA. Como resultado, Neno pouco jogou. Ao todo, apenas quatro jogos de campeonato, que o Benfica acabou num dececionante terceiro lugar, e a finalíssima da Supertaça, perdida frente ao FC Porto (0-1) no final da época. Certo é que esse foi o último jogo que ele fez na baliza do Benfica: no Verão de 1995 voltou ao Vitória SC e a Guimarães, onde se sentia feliz. Ainda fez dois campeonatos com continuidade até perder a titularidade para Pedro Espinha, que nesse Verão de 1997 chegara do Salgueiros. Neno ainda jogou por mais duas épocas, despedindo-se do campeonato a 6 de Fevereiro de 1999, já com 37 anos, numa derrota em Braga por 2-1.

Assumiu mais tarde funções de treinador de guarda-redes e de dirigente no Vitória SC, podendo assim dedicar-se mais a outra das suas paixões: a canção. Desde sempre admirador do espanhol Julio Iglésias, que também foi guarda-redes, Neno já tem discos gravados e continua a ser uma figura maior sempre que a questão passa por manter a animação de um grupo.