A perna torta, à Garrincha, e a forma como parecia arrastar-se em campo enganavam bem. Não parecia um atleta, mas foi o maior futebolista de toda a história do Vitória FC. Driblador brilhante e goleador frequente, Jacinto João marcou uma era.
2018-01-25

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1967

Olhava-se para ele e não se diria que era um atleta de alta competição. Jacinto João, que para os adeptos era o Jota-Jota, não tinha, como dizia Fernando Vaz, o treinador que o lançou em Portugal, “apetite de movimento”. Parecia molengão, arrastava a voz a falar, tinha uma perna torta, mas quando lhe davam uma bola e uma resma de adversários pela frente tornava-se imparável. “Adivinhar o que vai fazer o Jacinto João é como adivinhar o Totobola”, disse uma vez Malta da Silva, lateral do Benfica a quem o angolano infernizou tantas tardes. Em quinze anos de verde e branco, Jacinto João contribuiu de forma decisiva parta aquele que foi o melhor período da história do Vitória e tem hoje uma estátua no Estádio do Bonfim.

E, no entanto, o Vitória FC esteve para nem acontecer na vida deste angolano. O jeito para os dribles revelou-o desde cedo, nas peladas em Luanda, a ponto de com 14 anos ter entrado nos quadros do Sport Congo e Benfica. Ali começou a brilhar e a chamar a atenção de muitos adeptos de clubes portugueses: com a recomendação de José Lemos Ferreira, major da Força Aérea que sofria pelo Vitória FC e estava colocado em Luanda, o clube sadino acertou a vinda do jogador em Agosto de 1963, tinha JJ 19 anos. Só que os dirigentes do clube angolano fizeram as suas próprias contas e, em vez de mandarem o jogador para Setúbal, como o próprio achava, enviaram-no para o clube-sede, o Benfica. Jacinto João não terá gostado muito da surpresa, mas acabou por alinhar. Por um lado, aquele Benfica era uma das maiores potências do futebol europeu. Por outro, não tinha grande alternativa, pois os clubes eram, naquela altura, donos reais dos jogadores.

No Benfica, porém, Jacinto João nunca se impôs. Treinava com o plantel, mas só jogava nas reservas. E nem sempre… Lajos Czeiler tinha Simões a despontar e nunca deu ao angolano sequer uma hipótese na equipa principal. E quando deixou de contar até para as reservas, por alturas do Natal, Jacinto João resolveu pedir uma conversa com Manuel da Luz Afonso, que era o diretor do futebol encarnado. Aquele que viria depois a ser o selecionador nacional na saga do Mundial de 1966 desenganou Jacinto João: “Aqui não vais ter hipóteses. Há muitas estrelas e muita concorrência”. Mas se quiseres ficas até ao Verão e nessa altura arranjamos-te um clube”. Jacinto João não quis. Preferiu voltar a Luanda, mas mesmo aí teve de batalhar para se livrar da vontade do Sport Congo e Benfica, que queria reintegrá-lo. Ganhou essa batalha e assinou pelo FC Luanda, filial do FC Porto, onde começou a mostrar o que ganhara com os seis meses passados em Lisboa: estava mais forte, mais atlético, mais jogador. E deslumbrou de tal forma que no Verão de 1965 pôde voltar à metrópole.

Nessa altura, Jacinto João teve duas hipóteses: Vitória FC ou FC Porto? Escolheu Setúbal, como que para compensar o clube sadino da desfeita que lhe tinha sido feita dois anos antes. Chegou ao Bonfim em Agosto de 1965, mas ainda precisou de um largo período de adaptação: na época de estreia fez apenas quatro jogos, três no campeonato e um na Taça de Portugal. Na estreia, a 3 de Outubro de 1965, em casa contra a CUF, até marcou logo um golo, mas o Vitória acabou por perder (1-2). Na Taça de Portugal, alinhou na meia-final, na vez de Quim, o titular no lado esquerdo do ataque, mas apesar da vitória conclusiva sobre o Beira Mar (3-0), acabou por ficar de fora na final, perdida frente ao SC Braga (0-1). A afirmação de Jacinto João na equipa só teve início verdadeiramente em Março de 1967 e porque Carlos Manuel se lesionou com gravidade num jogo em Alvalade contra o Sporting. Fernando Vaz fê-lo então entrar no onze e ele ainda fez três assistências nas últimas oito jornadas de um campeonato em que o Vitória acabou por repetir o quinto lugar, o que desde logo lhe valeu a chamada à seleção B, que em inícios de Junho de 1967 empatou no Jamor com a França.

Foi na Taça de Portugal, cuja fase decisiva se jogou em seguida, que começou a lenda de JJ. Titular nas duas mãos dos quartos-de-final com o Leixões (3-0 e 3-0) e das meias-finais com o FC Porto (3-0 e 4-4), fez um dos golos sadinos no empate nas Antas e, sobretudo, decidiu a épica final dos dois prolongamentos, contra a Académica. Aos 24 minutos do segundo prolongamento – 144 de jogo, portanto – driblou dois adversários e estabeleceu o 3-2 final com um remate cruzado que Maló não conseguiu deter. Resultado: a época seguinte já a começou como titular. Tinha 23 anos e muito para dar ao futebol. Só o castigo resultante de uma expulsão em Santo Tirso, por indicação do fiscal de linha de Salvador Garcia, lhe tirou a possibilidade de somar mais presenças em mais um quinto lugar do Vitória, sendo que em Junho de 1968 voltou a marcar presença na final da Taça de Portugal. Desta vez, porém, o Vitória FC foi batido pelo FC Porto de Pedroto, por 2-1.

Mas o melhor de Jacinto João ainda estava para chegar. Depois das férias tornou-se mesmo uma das grandes figuras do campeonato português. A jogar a partir da esquerda do ataque, acabou a época de 1968/69 com dez golos no campeonato, não falhando um único dos 26 desafios que levaram à quarta posição final do Vitória FC. Aliás, esteve também nos dois jogos que a equipa fez na Taça de Portugal e nos oito que a levaram até aos quartos-de-final da Taça das Cidades com Feira, deixando pelo caminho equipas como o Lyon ou a Fiorentina. Como resultado de tanta regularidade no brilhantismo, chegou à seleção A: a 27 de Outubro de 1968, José Maria Antunes lançou-o como titular na vitória por 3-0 sobre a Roménia com que Portugal deu início à fase qualificação do Mundial, e ele fez um dos golos portugueses. Jacinto João viria a ser preponderante nessa fase, jogando em cinco dos seis jogos que, no entanto, não conduziram à qualificação dos portugueses: foram os romenos quem se apurou, porque a seleção nacional não ganhou mais nenhuma partida.

No Vitória, contudo, as coisas corriam cada vez melhor. No Verão de 1969, tendo Fernando Vaz saído para o Sporting, chegou José Maria Pedroto, treinador caído em desgraça no seio da direção do FC Porto. E o resultado foi um Vitória ainda mais forte, com Jacinto João promovido a primeira figura. “Conheci muitos camisolas 11, mas poucos como Jacinto João”, disse um dia Pedroto. “Era um jogador de escol, como poucos terá visto o futebol português”, acrescentou o técnico para quem a equipa do Vitória FC teria de ser necessariamente Jacinto João e mais dez. Na primeira época com Pedroto, Jacinto João só falhou a primeira jornada de campeonato (2-2 com o Boavista no Bessa), contribuindo com seis golos para o terceiro lugar final do Vitória FC, dois deles numa jornada épica, em que o FC Porto caiu no Bonfim por 5-0. A mesmo tempo, o Vitória FC continuava a marcar pontos na Europa, tendo repetido a presença nos quartos-de-final da Taça das Cidades com Feira, desta vez eliminando o Liverpool.

Em resultado de tantas boas campanhas europeias seguidas, a equipa sadina foi no final da época convidada para jogar um Mundialito de clubes na Venezuela, prova na qual venceu o Chelsea e o Santos de Pelé (3-1). Nesse jogo, quem mais empolgou a assistência foi o extremo angolano, por quem um empresário uruguaio fez saber que pagava 2800 contos – algo como 14 mil euros, mas uma fortuna naqueles tempos. O Vitória FC rejeitou os avanços e Jacinto João continuou a ser a figura maior da equipa que Pedroto conduziu a mais um quarto lugar em 1970/71 e à segunda posição final em 1971/72. Sempre com campanhas europeias a condizer – quartos-de-final na primeira época, oitavos na segunda, eliminando de caminho formações à data poderosas como o Hajduk Split, o Anderlecht ou o Spartak Moscovo. Para Jacinto João tudo rolou sobre rodas até que, a 5 de Novembro de 1972, na Tapadinha, frente ao Atlético, sofreu a primeira lesão grave da sua carreira. Foram três meses parado, o que não impediu o Vitória FC de acabar mais um campeonato em terceiro lugar ou de repetir a presença nos quartos-de-final da então rebatizada Taça UEFA, eliminando desta vez equipas como a Fiorentina e o Inter de Milão.

Aliás, se havia coisa que não mudava era a propensão para o Vitória FC brilhar nas competições internacionais. Ao todo, Jacinto João esteve em 50 dos 54 jogos europeus que a equipa fez até a revolução de 1974 lhe ter posto um ponto final no período áureo – e três dos quatro que falhou aconteceram nas duas primeiras épocas, antes de se afirmar verdadeiramente na equipa principal. Com o 25 de Abril, porém, as coisas mudaram. Os ventos de mudança começaram a soprar em Janeiro de 1974, quando Pedroto escolheu a sequência de uma vitória ante o Benfica, por 3-2 (JJ marcou o terceiro, de livre), para bater com a porta. Acusava a direção do clube de impor aos jogadores um regulamento disciplinar próprio do esclavagismo e não queria pactuar mais com isso. O Vitória FC seguia então em segundo lugar, a um ponto do Sporting. Chegou José Augusto, a equipa acabou o campeonato em terceiro, mas a liberdade que chegou ao país teve o necessário reflexo no rendimento de uma equipa que só conseguia manter os maiores craques à conta da lei da opção, que impedia os jogadores de negociarem com outros clubes no final dos seus contratos. Quando isso acabou, foi a debandada geral.

Jacinto João, que jogara a última vez pela seleção nacional três semanas antes do 25 de Abril, num empate a zero com a Inglaterra, em Lisboa, ainda ficou no Vitória FC para 1974/75, época na qual assinou o seu único póquer num jogo de campeonato – aconteceu a 8 de Dezembro de 1974, num 8-0 ao Atlético, no Bonfim. Mas andava revoltado: “Toda a minha vida fui explorado. Não tenho nada de meu”, queixou-se assim que o clima passou a permitir que os futebolistas expressassem o que realmente lhes ia na alma. A 19 de Janeiro de 1975, agrediu Quaresma, da CUF, num jogo no Bonfim. O árbitro, Américo Barradas, mostrou-lhe o vermelho, mas o público é que não esteve pelos ajustes e invadiu o relvado. Eram tempos em que o povo achava que tudo podia. Só que a realidade depois era mais dura: Jacinto João apanhou seis jogos de castigo e o Vitória FC foi punido com uma derrota por 3-0. Tudo somado, Silvério Jones, então à frente do clube, decidiu aproveitar uma oferta da Portuguesa dos Desportos, do Brasil, pelo seu maior craque. Eram 500 contos (2500 euros) pelo passe do jogador, que por sua vez reclamou por nada receber de prémio de assinatura: “Fui vendido ao preço de bananas”.

A 23 de Março de 1975, no Bonfim, Jacinto João marcou um (de livre) e deu outro (a Duda) dos dois golos com que o Vitória FC bateu o Benfica, líder do campeonato. Findo o jogo, fez as malas e voou para São Paulo. No Brasil, no entanto, não foi feliz, apesar de ter como treinador Otto Glória, o brasileiro que tinha longas passagens pelo comando dos grandes clubes de Portugal e pela seleção nacional. No Verão de 1976 estava de volta a um Vitória FC onde o regresso de Fernando Vaz parecia ser suficiente para travar a decadência. Jacinto João ainda fez mais três temporadas, a primeira das quais, com Vaz, de grande qualidade: somou 14 golos (12 deles no campeonato, que o Vitória FC acabou em sexto lugar), parecendo nem acusar os 32 anos que já marcava o BI.

Com a saída de Vaz, em Janeiro de 1978, e o seu próprio envelhecimento, a estrela de Jacinto João foi empalidecendo. Ainda ficou para a época de 1978/79, mais até pela força que dava aos mais novos que iam irrompendo na equipa. Fez o último golo oficial a 19 de Novembro de 1978, de penalti, numa vitória por 3-2 frente ao Beira Mar, em Aveiro. E jogou pela última vez com a camisola do Vitória FC na última jornada desse campeonato, que a equipa concluiu num ainda assim honroso sétimo lugar: a 25 minutos do final de uma receção ao Boavista, com 3-1 no marcador, os colegas José Mendes e Rebelo (que tinham acabado a época como treinadores-jogadores) mandaram-no entrar para o lugar de Pedrinho, proporcionando-lhe uma espécie de despedida. Jacinto João ainda jogou três épocas em divisões secundárias antes de se retirar, aos 38 anos. Veio a falecer em Outubro de 2004, vítima de ataque cardíaco, com apenas 60 anos.