Chegou ao Sporting em 1959, num momento de raro oportunismo de mercado. Em Portugal, não chegou a ser campeão, mas espalhou classe pelos campos do país, a ponto de sair para Itália a fim de dois anos com uma média de um golo por jogo.
2018-01-23

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1956

A chegada de Fernando ao Sporting foi um acaso feliz. O jogador crescera numa super-equipa de juniores do Palmeiras, ao lado de craques como Altafini e jogadores menos importantes, como Faustino. A substituição de Aymoré Moreira pelo uruguaio Ventura Cambón, porém, levou ao seu afastamento do onze no clube paulista. Fernando andou pelo Recife, emprestado ao Santa Cruz, esteve dois meses no São Paulo à espera que lhe fizessem um contrato e, por essa altura, recebeu um convite de Portugal, onde há meses chegara o seu ex-companheiro Faustino. Não hesitou, atravessou o Atlântico e, mesmo não tendo ganho títulos, tornou-se ídolo tanto no Sporting como depois em Itália, onde chegou a ter o passe avaliado no dobro do que custava o seu compatriota Amarildo, campeão mundial em 1962.

Fernando, na verdade, chamava-se Ferdinando. Nasceu no Brasil, filho de brasileiros mas neto de italianos – é daí que lhe vem o apelido Puglia. O pai, Sylvestre, tinha sido guarda-redes, mas a ele corria-lhe nas veias sangue de goleador, bem em evidência nas peladas de São José do Rio Pardo. Foi assim que, em 1953, com 16 anos apenas, Fernando chegou ao Palmeiras. Ali se impôs imediatamente na tal super-equipa que acumulou troféus na categoria. E aos 18 anos, em 1955, depois de Fernando ter sido campeão e melhor marcador do Torneio Paulista de juniores, Aymoré Moreira chamou-o à equipa principal. Fez um primeiro ano com destaque, mas no segundo deixou que a chamada a serviço militar lhe roubasse protagonismo. E como por essa altura Aymoré foi substituído no comando da equipa paulista pelo uruguaio Ventura Cambón, que não apreciava o futebol de Fernando, este acabou por ser emprestado ao Santa Cruz, do Recife.

Na ida para Pernambuco, em finais de 1957, Fernando acertou uma cláusula: se o Palmeiras não  quisesse de volta ao fim de um ano, ele ficava com o passe na mão. Um ano passado, apesar de ter sido o segundo melhor marcador do campeonato pernambucano, Cambón não quis acionar a opção. E Fernando ficou livre. Foi treinar ao São Paulo FC, a conselho de Mauro, que além de capitão da equipa tricolor era internacional e tinha feito parte da seleção campeã Mundial. Só que ao fim de um mês ainda não lhe tinham acenado com uma proposta. Foi nessa altura que de Portugal veio uma comunicação de Faustino, seu ex-colega nos juniores do Palmeiras, que já estava no Sporting: “Vem para Lisboa, que aqui somos bem tratados!”. Fernando penso e logo aceitou. Em Maio de 1959 estava a chegar a Lisboa para assinar contrato com o Sporting, ainda a tempo de alinhar em alguns particulares de fim de época.

Fernando estreou-se a 7 de Junho, em Sevilha, lançado por Mario Imbelloni num jogo com o Betis que o Sporting perdeu por 4-1. Jogou como avançado-centro, ele que no Brasil se sentia mais confortável como interior, à direita ou à esquerda do ponta-de-lança. Ainda nesse mês de Junho teve mais duas boas sensações. Primeiro, a 19, foi titular no amigável com o Santos de Pelé, que acabou empatado a duas bolas. Depois, a 25, marcou ao Betis o seu primeiro golo de leão ao peito: o Sporting ganhou por 3-2 aos espanhóis, na partida de retribuição do jogo de Sevilha e Fernando começava a mostrar ao que vinha. Confirmá-lo-ia em absoluto na época seguinte, com 23 golos em outros tantos jogos de campeonato, aos quais somou mais 12 em sete desafios da Taça de Portugal. A estreia oficial, pela mão de Fernando Vaz, aconteceu no Barreiro, a 20 de Setembro, contra a CUF, e Fernando logo fez o golo da vitória leonina (1-0), correspondendo no último minuto a um passe de Pérides.

Logo nessa primeira temporada, Fernando destacou-se com um bis nos 4-1 com que o Sporting ganhou ao FC Porto nas Antas ou com um póquer nos 5-1 ao Leixões, em Alvalade. Os leões foram segundos na tabela, a dois pontos do Benfica, tendo perdido o campeonato na Luz (derrota por 4-3), a 10 de Abril de 1960, num jogo em que Fernando não alinhou. Tal como não alinharia na fase decisiva da Taça de Portugal, depois de ter feito doze golos nos sete jogos até aos quartos-de-final, com destaque para os quatro nos 7-2 ao SC Espinho ou os três nos 6-0 ao Farense. Fernando já não esteve na meia-final com o Benfica (3-0 e 0-0) nem, depois, na final, que os leões perderam para o Belenenses (1-2). Mesmo assim, Fernando acabou a época com 35 golos em 30 jogos oficiais. No campeonato, os 23 que apontou quase chegavam para se tornar o primeiro brasileiro a sagrar-se melhor marcador. Ficou, no entanto, a dois dos 25 do seu compatriota Edmur, do Vitória de Guimarães.

Em 1960, a chegada de Ernesto Figueiredo, o “Altafini de Cernache” levou Fernando a baixar um pouco no campo. Alfredo González, o treinador argentino que chegou a Lisboa para orientar o Sporting, passou a fazê-lo jogar como interior-direito, a posição em que se notabilizara no Brasil. Mas ele continuou a corresponder com golos: foram 16 em 20 jogos de campeonato, aos quais somou mais cinco em sete partidas da Taça de Portugal. Do campeonato, despediu-se a 28 de Maio de 1961, abrindo o ativo no 3-0 ao Atlético com que os leões, já dirigidos por Otto Glória, carimbaram o segundo lugar. Nesse campeonato, fez mais dois hat-tricks (nos 4-0 em casa ao Barreirense e nos 7-1 no terreno do Salgueiros) e um póquer (nos 4-1 ao Vitória de Guimarães, em Alvalade). Alinhou pela última vez com a camisola do Sporting a 2 de Julho de 1961, numa derrota frente ao FC Porto nas Antas (1-4), que custou à equipa o afastamento da final da Taça de Portugal. Finda a época, com um balanço de 56 golos em 57 jogos oficiais pelo Sporting, saiu para Itália, em busca das suas raízes.

Fernando assinou pelo Palermo, onde manteve o futebol fino e a capacidade goleadora. Foi dele o golo da primeira vitória da equipa siciliana, em casa, frente ao Veneza, à sexta jornada (1-0). Os dez golos que fez nesse campeonato foram fundamentais para o oitavo lugar final do Palermo, mas três deles foram históricos. Ainda hoje se fala no golo da vitória sobre o Inter de Helenio Herrera (1-0), em Março de 1962, no seguimento do qual Fernando foi buscar a bola ao fundo das redes e a entregou ao treinador adversário, em resposta a declarações que este tinha proferido. Mais relevantes acabaram por ser os dois que fez em Turim à Juventus, na vitória siciliana por 4-2, e que no final da época motivaram o interesse na “Vecchia Signora” neste brasileiro. A transferência nunca chegou a efetivar-se e, depois de uma segunda época menos goleadora (apenas três golos) e da descida do Palermo, Fernando mudou-se, em 1963, para o Bari, que acabara de subir à Série A.

Em 1963/64, porém, o Bari também foi último e desceu. Fernando ainda passou uma época na Série B, antes de regressar ao Brasil. Jogou no Santa Cruz e no São Paulo; passou pelos Houston Stars, na United Soccer Association, uma espécie de segunda divisão da então emergente NASL; e regressou a casa para assinar pelo Bangu, recém-coroado campeão carioca, onde chegou a jogar com Dé, que mais tarde representaria o Sporting. Depois de se retirar do futebol, Fernando tornou-se representante comercial de uma empresa de ferragens em São Paulo. Faleceu aos 78 anos, no hospital, na sequência de insuficiências respiratórias e renais.