Um açoriano que a imprensa dos anos 30 destacara como modelo de inteligência e correção foi durante muitos anos considerado o melhor defesa da história da Académica. Retirou-se aos 28 anos, perdendo a hipótese de ganhar a Taça de Portugal.
2018-01-21

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1934

Quando Cristóvão decidiu pendurar as chuteiras, em 1938, o jornal “Os Sports” apresentou-o como “o melhor back com que a Académica contou” até à data. A distinção manteve-se por muitos anos, até ao aparecimento das grandes equipas da Briosa na década de 60. Este jogador chegado dos Açores aos 21 anos para estudar letras era apontado como exemplo de correção, mas também sabia entrar forte, como aconteceu uma vez num jogo contra o Sporting, que até levou a FPF a adverti-lo por “uso excessivo de dureza”.

Chegado de São Miguel, onde representava o União Micaelense, em 1931, Cristóvão deixou-se de aventuras a meio-campo para passar a ocupar um lugar na defesa da Académica. Estreou-se a 29 de Novembro, em jogo do campeonato de Coimbra contra o Sport, que acabou com um empate a dois golos. A Académica perdeu esse regional para o União de Coimbra – o único que Cristóvão não venceu nas sete épocas em que vestiu as cores do clube – mas obteve depois sucesso na qualificação regional para o Campeonato de Portugal, que se disputava na segunda metade da temporada. Assim sendo, a 3 de Março de 1932, Cristóvão pôde estrear-se numa prova de cariz nacional, sendo escolhido por Armando Sampaio para o onze da Académica que vencia o Leça por 2-0 quando, a meia-hora do fim, o leceiro Biscaia foi expulso e se recusou a sair do campo. O jogo acabou ali, com o apuramento da Académica para a ronda seguinte. Mas a equipa não iria muito mais longe, acabando por ser eliminada logo a seguir, com um empate (3-3) e uma derrota (2-5) com o Barreirense.

A época de 1932/33 começaria para Cristóvão com o primeiro de seis títulos de campeão de Coimbra consecutivos. No campeonato de Portugal, contudo, as dificuldades aumentavam. Depois da eliminação da Sanjoanense, a vitória por 3-1 frente ao Vitória FC em Setúbal parecia adivinhar nova qualificação, mas a Académica perdeu duas vezes com os sadinos: 1-3 em Coimbra e 1-2 em Santarém, na “negra”. Cristóvão alinhou nas quatro partidas do campeonato. Como alinharia nos dois que a equipa fez em 1933/34. Primeiro, a eliminação do FC Fafe. Depois na derrota caseira com o Benfica. O 0-2 verificado no Campo de Santa Cruz foi de tal modo desmobilizador que a equipa dirigida por Filipe dos Santos nem se deslocou a Lisboa para jogar a segunda mão: estava-se em finais de Maio e os jogadores conimbricenses preferiram ficar na Queima das Fitas.

Por essa altura deu-se a escandalosa derrota da seleção nacional frente à Espanha (0-9) na ronda de apuramento para o Mundial e a FPF decidiu mudar o modelo competitivo, adotando um campeonato por jornadas. Campeã de Coimbra mais uma vez no final de 1934, a Académica foi apurada para jogar essa primeira edição da Liga. E, a 20 de Janeiro de 1935, Cristóvão lá estava no onze escolhido pelo húngaro Rudolf Jeny para a primeira jornada. O jogo não correu às mil maravilhas, pois a Briosa perdeu por 6-0 com o Sporting em casa. Aliás, a Académica chegaria ao final dessa Liga em último lugar, com apenas uma vitória e um empate em 14 jogos – este, porém, seria obtido às custas do Benfica (2-2), em Coimbra. Com Cristóvão a titular – na Liga só falhou dois jogos – a equipa de Coimbra cairia também à primeira ronda do Campeonato de Portugal, com duas derrotas face ao União de Lisboa.

Tanto a Académica como Cristóvão repetiram as performances em 1935/36. A Briosa voltou a ser última na tabela da Liga, com os mesmos três pontos da época anterior, e Cristóvão alinhou em 12 das 14 jornadas. Com uma nuance: desta vez acumulou as funções de jogador com as de treinador e capitão de equipa. Coube-lhe, aliás, liderar a delegação academista numa digressão à Madeira, no final da época, após a eliminação do Campeonato de Portugal, mais uma vez à primeira, agora às mãos do Vitória FC. Na “negra”, perdida por 1-0 em Lisboa, depois de uma vitória por 3-1 em Coimbra e de uma derrota por 4-2 em Setúbal, Cristóvão falhou um penalti decisivo, para o qual avançou porque, à falta de Rui Cunha, o batedor oficial, mais ninguém se chegou à frente.

Em 1936/37, Cristóvão manteve-se como capitão de equipa, mas esta passou a ser treinada por Albano Paulo. E, em finais de Fevereiro, à entrada para a quinta jornada, apresentou-se nas Amoreiras, para defrontar o Benfica em condições de lhe disputar a liderança, após sucessos sobre o Belenenses (3-2 em Lisboa) e FC Porto (2-1 em Coimbra). A Académica ainda se colocou em vantagem, mas acabou por perder (1-2), abrindo caminho à quebra que se viu na segunda volta, na qual fez apenas três dos onze pontos somados nessa Liga. Chegaram, ainda assim, para o quinto lugar final e para algumas aspirações no campeonato de Portugal, interrompido logo à primeira ronda pelo Boavista, em função de irregularidades na utilização do jogador Octaviano: no campo, com Cristóvão a jogar, a Briosa tinha-se apurado, mas a FPF decidiu remeter tudo para uma terceira partida, que o Boavista venceu por 2-0.

Esse jogo, a 6 de Junho de 1937, acabaria por ser a despedida de Cristóvão do Campeonato de Portugal. Na Liga, ganho mais um regional, despedir-se-ia a 16 de Janeiro de 1938, capitaneando a equipa na derrota (2-3) contra o Belenenses válida para a primeira jornada de um campeonato que a Académica terminou na sexta posição. Suceder-lhe-ia José Maria Antunes, o capitão na vitória na primeira edição da Taça de Portugal, um ano depois.