Esta é a história de um homem extrovertido cuja carreira nunca atingiu o nível que o seu potencial lhe adivinhava. Uma história de técnica exemplar, correção acima da média e polivalência sem limites, que o levou a alinhar até na baliza.
2018-01-19

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1958

Fala-se de Abdul a quem se lembra de o ter visto jogar e os relatos são impressionantes: contam-se histórias épicas de clarividência tática, de passes feitos a régua e esquadro e até de técnicas únicas de receção no ar. E no entanto, este moçambicano que chegou ao Belenenses com 20 anos para ser avançado mas acabou por ocupar todas as posições no campo, demorou quase uma década a afirmar-se como médio-centro e, pouco depois, acabou dispensado para o Beira Mar. No panorama global do futebol português, nunca foi aquilo que dele se esperava, mas ainda mantém em Aveiro alguns fãs incondicionais.

Abdul chegou de Moçambique em 1957, trazendo com ele uma reputação de extremo veloz e capaz de abrir qualquer defesa. O físico franzino não assustou o treinador, o mago Helenio Herrera, que já tinha no grupo mais dois moçambicanos, Vicente e Matateu. Como se isso não bastasse, a estreia oficial do novo recruta foi retumbante: a 13 de Outubro de 1957, privado de Di Pace para uma receção ao Torreense, no Restelo, apostou no jovem moçambicano para jogar como interior, atrás de Matateu, e ele respondeu com um golo na vitória por 3-2. Uma semana depois, na deslocação ao terreno do Salgueiros, nova titularidade, mas a derrota sofrida (0-2) e o regresso do génio argentino impuseram o afastamento de Abdul, que passou o resto da época a jogar nas reservas.

Abdul regressaria ao onze no início do campeonato seguinte, com Fernando Vaz, e agora a jogar como extremo. Mas, perdida a titularidade à terceira jornada, só voltaria na ponta final da época. E aí, tendo ajudado a duas goleadas belenenses – marcou nos 7-0 ao SC Braga e bisou nos 9-1 ao Vitória FC – admitiu-se que tivesse ganho o lugar. Engano puro: zero minutos de utilização na Taça de Portugal, jogada após o terceiro lugar do Belenenses no campeonato e já com grande contribuição de outro moçambicano – Yaúca. O reforço sucessivo daquela equipa do Belenenses – que em 1959/60, com Otto Glória aos comandos, repetiu o terceiro lugar – levou a duas coisas. Primeiro, à pouca utilização de Abdul, que nesse campeonato jogou outra vez apenas três partidas e não alinhou um único minuto na vitória que a equipa conseguiu na Taça de Portugal. Depois ao seu recuo no terreno.

Em 1960/61, tanto Otto Glória como o seu substituto, Enrique Veja, olhavam para ele como médio-centro, como elemento de marcação cuja missão principal era anular os craques adversários. E isso Abdul também fazia bem, recorrendo a uma clarividência tática anormal para quem jogara sempre na linha da frente. Tinha era de recorrer, por vezes, a momentos de maior exaltação: a 11 de Fevereiro de 1962 teve a única mancha disciplinar em toda a carreira, quando foi expulso em Guimarães, num empate a uma bola com o Vitória SC. Isso, contudo, pode até ter atrasado, mas não lhe impediu a afirmação no onze, chegada em Março de 1963, já com o regressado Fernando Vaz como treinador. Abdul fez as últimas nove partidas desse campeonato – oito vitórias e um empate, a levarem o Belenenses ao quarto lugar final – como titular a meio-campo. Manteve a posição na Taça de Portugal até à vitória por 2-0 em casa frente ao Vitória SC, nas meias-finais, mas já não esteve na segunda mão (derrota por 3-1) nem no desempate (nova derrota), perdendo assim a hipótese de jogar uma final.

Vaz, no entanto, contava com ele. Em 1963/64 já esteve no onze base. Estreou-se nas provas europeias com uma vitória por 2-0 frente ao Tresnjevka, na Jugoslávia, a 25 de Setembro de 1963. Teve pela primeira vez um ano preenchido, com 22 das 26 partidas do campeonato (que o Belenenses acabou em quinto), mais seis desafios na Taça de Portugal e três na Taça das Cidades com Feira. Nada fazia prever o que aí vinha, portanto. O novo treinador, o austríaco Franz Fuchs, ainda apostou nele, mas saiu à 10ª jornada, em vésperas de Natal, antes de uma derrota em Setúbal. Mariano Amaro ficou com o cargo e, até final da época, Abdul só jogou mais três vezes: as duas rondas seguintes de campeonato e a segunda mão dos quartos-de-final da Taça de Portugal, um empate a zero com o Sporting, em Junho. Aquela seria a última vez que representava o Belenenses – no Verão foi cedido ao Beira Mar, que acabara de subir de divisão e cujo treinador era a antiga glória belenense Artur Quaresma.

Por um ano a viver em Aveiro com o guineense Nartanga, que chegara do Marinhense, Abdul impôs o seu futebol na equipa beiramarense. Jogava a meio-campo, ora pelo interior ora pela direita, mas fazia também uma perninha como defesa lateral, se tal fosse necessário. Entre o campeonato e a Taça de Portugal, na qual o Beira Mar chegou às meias-finais, sendo aí afastado pelo Vitória FC, Abdul falhou apenas dois jogos em toda a temporada, ambos em Setembro. A permanência teve o seu quê de simbólico para Abdul: o Beira Mar conseguiu garanti-la a três jogos do fim, graças a um empate caseiro contra o Belenenses (1-1). Já não correria tão bem a nova época: por volta do ano novo, após um empate caseiro com a Sanjoanense, que deixava o Beira Mar abaixo da linha de água – por troca com o Belenenses, que estava a fazer um início de época muito mau – Quaresma foi demitido. António Lemos, o ovo treinador, manteve a confiança no moçambicano, que em toda a temporada só falhou quatro jogos – três deles entre Outubro e Novembro, no seguimento de uma lesão que o levou a abandonar o relvado, em Matosinhos, contra o Leixões. No entanto, o Beira Mar desceu mesmo e nem a chegada aos quartos-de-final da Taça de Portugal serviu para dourar a pílula.

Abdul ainda ficou mais quatro épocas no Beira Mar, de onde só saiu em 1971, depois de ajudar a equipa a garantir o regresso ao escalão principal, com o primeiro lugar na Zona Norte da II Divisão, e o título de campeã daquele escalão, com uma vitória por 3-1 na final, frente ao Atlético. Data dessa época o episódio mais pitoresco da carreira deste polivalente moçambicano: José Pereira, o “Pássaro Azul” que defendera a baliza do Belenenses e da seleção nacional e chegara a Aveiro para acabar a carreira como guarda-redes do Beira Mar, foi expulso por agredir um adversário que tivera sobre ele uma entrada mais maldosa e foi Abdul quem fez quase meio jogo nas redes. Era a posição que lhe faltava experimentar.

Aos 34 anos, porém, Abdul já não regressou à I Divisão com o Beira Mar. Já tinha a família a viver com ele na região centro e aproveitou a oferta de emprego das Indústrias Alba, uma metalúrgica de Albergaria-a-Velha que naquela altura explorava a onda dos clubes-empresa para se lançar em mais altos vos futebolísticos. Abdul foi com Nartanga para o Alba, que acabara de subir à II Divisão, mas não foram capazes de impedir a despromoção. Em 1974, porém, emendou e ajudou também à devolução do Alba ao segundo escalão, onde ainda jogou durante mais duas épocas. O futebol, para Abdul, durou até aos 40 anos, pois depois do Alba ainda representou um clube da região de Águeda, o Valonguense. Só depois de a Alba ter começado a enfrentar sérias dificuldades financeiras e ele ter perdido o emprego em que apostara no final da carreira futebolística é que Abdul regressou a Lisboa. Veio a falecer na capital, aos 71 anos.