Uma das maiores figuras da história do Barreirense, a quem dedicou a vida e com cuja camisola jogou 498 vezes, Ricardo do Vale era, diz-se, um dos melhores médios da sua geração. Foram um crime os nove anos que passou na II Divisão.
2018-01-11

1 de 8
1944

A linguagem de Ricardo do Vale era o trabalho. Foi por causa dele que cruzou o Tejo, de Vialonga para o Barreiro, aos nove anos: ali, na margem sul, havia trabalho. Foi em nome dele que nunca regateou esforços na construção de um clube que abraçou como seu, a ponto de ser habitual vê-lo a dar serventia aos pedreiros que construíam o edifício-sede do Barreirense, mesmo nas manhãs antes dos jogos de campeonato. E era a capacidade de trabalho que mais o caraterizava em campo: era um médio duro, forte na marcação e no jogo de cabeça, que nunca virava a cara à luta e que não mereceu os nove anos que passou na II Divisão só por nunca ter querido mudar de cores nos tempos em que chegou a ser chamado aos treinos da seleção e os grandes chegaram a chamar por ele.

A família Vale era de Vialonga, ali perto de Vila Franca de Xira. Mas eram muitas bocas para alimentar: Ricardo era apenas um de nove irmãos, sendo que um, Augusto, chegou a jogar com ele no Barreirense, na II Divisão, e outro, José João, travou com ele duelos épicos quando jogava a meio-campo na CUF. A verdade é que, naqueles tempos, onde havia trabalho era na margem sul do Tejo. O Barreiro fervilhava e foi lá que o pequeno Ricardo encontrou o primeiro emprego: aos nove anos passou a trabalhar como caldeireiro… na CUF. Mais tarde, à conta da rivalidade, o “Cadocha”, como ficou conhecido na cidade, passou a trabalhar na CP, ao mesmo tempo que crescia como futebolista numa equipa de juniores onde estavam futuros craques, como Albano – um dos Cinco Violinos do Sporting – Jordão ou Lenine.

Naquela altura o calendário futebolístico dividia-se em três. Primeiro, o campeonato regional, que apurava para o nacional, e por fim a Taça de Portugal. Ricardo chegou à primeira equipa do Barreirense no início de 1941, pouco depois de fazer 18 anos. Estreou-se oficialmente a 2 de Março, com uma vitória por 2-0 frente ao Boavista, no Bessa, em jogo do campeonato nacional e jogou de tal forma que já não saiu da equipa. Uma semana depois, naquele que foi o seu primeiro jogo de perfil mais elevado, participou na vitória por 1-0 frente ao Benfica. E, mesmo tendo a equipa perdido as quatro últimas jornadas, o sexto lugar final acabou por ser bem acolhido. Aquele era um Barreirense forte, que em 1941/42 repetiu a qualificação para o campeonato nacional. Aí, com Ricardo já a comandar o meio-campo, chegou mesmo a liderar a tabela depois de ter ganho os primeiros quatro jogos (o 3-1 ao FC Porto em casa e o 1-0 frente ao Belenenses nas Salésias foram forte sinal de ambição).

O pior veio em finais de Março, quando o campeonato chegava a meio. No jogo com o Unidos de Lisboa, Ricardo agrediu Osvaldo, foi expulso pelo árbitro e isso custou-lhe seis partidas de ausência. Regressaria na ponta final da época, em que o Barreirense repetiria o sexto lugar do ano anterior, mas nessa altura nem ele sabia que ia começar uma longa travessia do deserto: após o 3-1 ao Unidos de Lisboa, com que o Barreirense encerrou esse campeonato, a 14 de Junho de 1942, Ricardo, que tinha 19 anos, só voltou a jogar na I Divisão a 23 de Setembro de 1951, aos 28. É verdade que, pelo meio, até foi duas vezes campeão nacional do segundo escalão: em 1943, depois de bater a Sanjoanense por 6-1 na final, e em 1951, superando na fase decisiva o Salgueiros e o União de Coimbra. Só que apenas esta última vitória deu subida de divisão, pois antes era o regional que qualificava as equipas para o nacional. E tanto a CUF como o Vitória FC eram adversários à altura.

Foi, portanto, um Ricardo Vale mais maduro aquele que regressou ao principal campeonato nacional, em 1951. A 21 de Outubro, fez mesmo o seu primeiro golo na competição, na altura a valer uma vitória por 2-1 frente ao SC Covilhã. Nesse campeonato, que o Barreirense terminou num sofrido 11º lugar, assegurando ainda assim a manutenção, Ricardo só falhou um jogo (o 1-1 caseiro com o Benfica), marcando presença na vitória por 2-0 sobre o FC Porto. A classificação era, no entanto, pouco consentânea com a valia da equipa, como esta veio a mostrar na Taça de Portugal, onde atingiu as meias-finais, sendo aí afastada pelo Benfica. No jogo da primeira mão, no Barreiro, deu-se mesmo um episódio insólito: o Barreirense ganhou por 2-1 e acabou a jogar com dez, porque a 10’ do fim, na qualidade de capitão de equipa, Ricardo pediu ao árbitro que autorizasse o defesa Reis a sair mais cedo. Pior correria a segunda mão: 0-5 no Campo Grande deu aos encarnados o acesso à final.

Até final da carreira, Ricardo nunca mais foi jogador de II Divisão. Já não o esperavam muitos anos no auge, no entanto. Manteve a regularidade em 1952/53, como capitão da equipa que Artur Quaresma conduziu ao quinto lugar final e nesse ano fez até dois golos, ambos em casa, frente ao Vitória FC (2-2) e ao Estoril (4-0). Ajudou nessa altura a manter a invencibilidade frente aos grandes numa notável segunda volta: nesse período, Sporting (1-2) e FC Porto (0-4) caíram no D. Manuel de Melo, onde o Benfica não foi além de um empate (1-1). Na Taça de Portugal, Ricardo esteve ainda num par de vitórias sobre o Belenenses (2-1 e 1-0), acabando afastado pelo Benfica: e já nem jogou a segunda mão (0-6) depois de ter estado na derrota caseira (0-1) da primeira.

Outra vez fulcral no nono lugar de 1953/54 (falhou apenas dois jogos), Ricardo começou a ver a utilização cai a partir de 1954. Fez o último golo no campeonato a 4 de Dezembro de 1955, num emocionante dérbi contra a CUF (1-1), ao tocar de raspão uma bola cruzada por Fabian, que alguns jornais consideraram mesmo ter sido um canto direto. Depois, ainda começou o campeonato de 1956/57 como titular – alinhou nas primeiras sete jornadas – mas em finais de Outubro cedeu o lugar a Vasques. Teve nesse ano de 1956 a honra de ser o porta-estandarte do Barreirense na inauguração do Estádio José Alvalade, mas quando a competição era a sério dava o lugar a outros, que tinham uma disponibilidade que os seus 34 anos já não lhe permitiam. O último dos seus 498 jogos pelo Barreirense (134 dos quais na I Divisão) aconteceu a 26 de Novembro de 1957, precisamente em Alvalade: uma derrota por 7-1 frente ao Sporting. Depois disso, ainda foi treinador do clube ao qual tanto deu, bem como capitão da sua equipa de veteranos até completar a provecta idade de 76 anos.